Fim de alusão a Mao sinaliza reformas na China

O Partido Comunista chinês removeu dos seus comunicados uma alusão habitual ao falecido líder Mao Tse-tung, num forte sinal de tendência reformista antes de uma transição na cúpula do poder do país.

SUI-LEE WEE, Reuters

23 de outubro de 2012 | 10h33

Mao sempre era apresentado como o grande ideólogo do regime chinês nos comunicados do partido. Os textos também costumam citar Karl Marx, Vladimir Lênin, o falecido líder Deng Xiaoping, o presidente Hu Jintao e o antecessor dele, Jiang Zemin.

O Politburo, importante instância de decisões partidárias com 24 membros ativos, informou na segunda-feira que o congresso do partido em novembro vai discutir emendas à Constituição do Partido Comunista.

Emendas anteriores, inclusive uma que implicitamente autoriza a filiação de capitalistas ao Partido Comunista, formaram as bases para importantes reformas políticas e econômicas no mais populoso país do mundo.

Mas, num fato significativo, o comunicado do Politburo sobre as emendas regimentais deixa de lado o palavreado habitual a respeito do marxismo-leninismo e do Pensamento de Mao Tse-tung, que adaptava as teorias originais do marxismo, criadas na Europa industrial, para as condições predominantemente rurais da China de 1949, época em que Mao venceu a guerra civil chinesa e implantou o comunismo.

"É muito significativo", disse Zheng Yongnian, diretor do Instituto da Ásia Oriental, da Universidade Nacional de Cingapura. "Antes da queda de Bo Xilai, essa direção (das reformas) não estava tão clara. Mas agora ficou bastante clara. Quero dizer: menos maoísmo, mais denguismo."

Bo, dirigente regional que era considerado um expoente da "esquerda" chinesa, foi deposto neste ano, após ser envolvido no maior escândalo político da China nas últimas duas décadas.

Ao retirar o Pensamento de Mao dos comunicados, a liderança chinesa sinaliza um ímpeto reformista, disse Zheng, da mesma forma como o líder Deng introduziu no final da década de 1970 as reformas de mercado que levariam a então atrasada China a se tornar uma potência econômica global.

Um comunicado partidário anterior, que marcava a data do congresso comunista, já deixara de citar o pensamento maoísta.

Diferenças doutrinárias entre facções reformistas e esquerdistas refletem um debate interno sobre os rumos da nova liderança chinesa, que começa a assumir as rédeas do país no congresso do PC chinês a partir do próximo dia 8 em Pequim.

O debate desperta atenções desde a ascensão e subsequente queda de Bo, que, como chefe do partido em Chongqing (sudoeste), recebia apoio de esquerdistas insatisfeitos com alguns aspectos das reformas de mercado.

A China chega ao congresso com sua economia prenunciando o menor ritmo anual de crescimento em pelo menos 13 anos, enquanto inquietações sociais --por causa de corrupção, confiscos fundiários e reivindicações de mais benefícios-- geram protestos.

"IMPOSSÍVEL"

A imprensa estatal e especialistas próximos ao governo têm feito apelos cada vez mais estridentes por reformas ousadas que evitem uma crise, embora ninguém preveja seriamente a adoção de uma democracia plena.

Nesta semana, por exemplo, o jornal Tempos de Estudo, publicado pela Escola Central do Partido, elogiou Cingapura por sua democracia com forte controle estatal.

"Se você deseja conquistar o coração das pessoas e seu apoio, precisa ter um governo que sirva ao povo", escreveu o jornal.

No período em que governou a China, Mao adotou políticas cruéis, que resultaram na morte de dezenas de milhões de pessoas. Mas o retrato do "Grande Timoneiro" continua dominando a praça da Paz Celestial, a principal de Pequim, e ele ainda é visto como um governante carismático, que se contrapôs aos estrangeiros e unificou o país.

O legado de Mao na China segue sendo avidamente preservado por líderes comunistas que veem nisso um reforço à sua própria legitimidade, já que a atual cúpula é de uma geração que não foi forjada na guerra.

Em 2003, na celebração dos 110 anos de Mao, Hu declarou que "o estandarte do Pensamento de Mao Tse-tung será sempre erguido no alto, em todos os momentos e em todas as circunstâncias".

Na fachada da sede da liderança máxima, no centro de Pequim, um enorme slogan declara de forma ousada: "Longa vida ao invencível Pensamento de Mao Tse-tung".

Alguns alertaram que pode ser cedo demais para descartar o legado de Mao.

"Isso é simplesmente impossível", disse Wang Zhengxu, pesquisador da Escola de Estudos Contemporâneos Chineses da Universidade de Nottingham, na Grã-Bretanha, comentando especulações de que as alusões ao maoísmo e ao marxismo-leninismo poderiam ser eliminadas do estatuto partidário.

Apesar da censura na internet chinesa --as expressões "Mao Tse-tung" e "Pensamento de Mao Tse-tung" estão bloqueadas nas buscas em microblogs--, alguns usuários conseguiram discutir a questão, e as opiniões sobre a retirada das alusões a Mao dividiram opiniões.

"O pensamento de Mao Tse-tung é a alma da República Popular da China..., e é uma luz que leva as pessoas à justiça", escreveu um usuário.

Mas Zheng, de Cingapura, acha que as visões de Mao se tornaram irrelevantes, e que muitos chineses se mostram apáticos em relação a ele. Para o estudioso, a doutrina maoísta pode ser menos enfatizada na nova versão do estatuto partidário a ser aprovada no congresso.

"Só a esquerda liga para isso", afirmou. "Para a maioria das pessoas, para a nova geração, eles não ligam para isso. A lembrança foi embora."

(Reportagem adicional de Ben Blanchard)

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