Misha Friedman/The New York Times
Misha Friedman/The New York Times

Fim de campanha no Equador tem oposição dividida

Analistas acreditam que legado e desgaste do presidente Rafael Correa influenciarão mais do que as denúncias de corrupção

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

05 Fevereiro 2017 | 05h00

Em meio a denúncias de corrupção que envolvem a empreiteira Odebrecht, o Equador se prepara para eleger em duas semanas o sucessor de Rafael Correa, no poder há 10 anos, e renovar 137 assentos da Assembleia Nacional. O candidato presidencial governista, Lenín Moreno (Aliança País), lidera as pesquisas em parte pela divisão entre os opositores.

Diante do favoritismo do candidato governista, a renovação do Parlamento ganhou peso especial. “A governabilidade depende da formação da próxima Assembleia. Desde 2007, o governo tem obtido a maioria, o que permitiu levar adiante seus projetos”, afirma a socióloga Tatiana Larrea. O consultor político Oswaldo Moreno ressalta que, apesar de a aliança governista provavelmente continuar com a maioria no Congresso, o cenário será diferente. 

“Uma das vantagens de Correa foi ter ampla maioria na Assembleia Nacional, de mais de 100 parlamentares. Ele governava no automático. Por isso, o próximo cenário parlamentar vai resultar no debate nacional de muitos temas.”

Para o consultor, essa diferença resulta do processo eleitoral e do fato de a aliança governista não ter conseguido formar uma liderança capaz de reunir votos de diferentes regiões do país. “A campanha para a Assembleia Nacional é mais local. Há bons quadros opositores em nível regional, mas nacionalmente ninguém se consolidou”, explica.

A consultora explica que a divisão entre os opositores pode dificultar o objetivo de ampliar o número de cadeiras. “As tentativas de unidade de vários setores da oposição não tiveram êxito, por isso que sete dos oito candidatos (presidenciais) são opositores ao governo e nenhum supera muito a casa dos 20% das intenções de voto.” 

A última pesquisa feita pela Cedatos, em janeiro, mostra Lenín Moreno com 34,3% das intenções de voto, Guillermo Lasso, do partido Creo, com 22,9% e Cynthia Viteri, do PSC-MG, com 11,4%. Se Lenín tiver mais de 40% dos votos e uma diferença de 10 pontos ou mais para o segundo lugar, vence no primeiro turno. Oswaldo Moreno usa a frase “o movimento de Correa compete contra ele mesmo” justamente para explicar como a oposição não conseguiu se consolidar nos últimos 10 anos.

Imagem. No início da campanha, analistas questionavam se Lenín faria propaganda atrelada ao nome de Correa ou se ficaria mais afastado em razão da crise econômica que afeta o país desde 2015 e do momento político vivido na América Latina, com partidos mais alinhados à esquerda perdendo espaço no poder. Ele escolheu a primeira opção. Fez diversos comícios com a presença de Correa e afirma que dará continuidade ao programa de seu antecessor, com o lema “vamos por mais”. 

“Sempre considerei o caso equatoriano diferente dos outros países latino-americanos. Correa tem altos índices de aprovação e os candidatos governistas lideram as pesquisas”, opina Tatiana. Como estratégia para obter a vitória, o opositor Lasso se aproveita justamente da decisão do governista e centra as críticas na atual gestão, usando o lema “vamos por mudanças”.

O Departamento de Justiça dos EUA revelou em dezembro que a Odebrecht pagou, entre 2007 e 2016, US$ 33,5 milhões a funcionários públicos no Equador. Não há indiciados no país. No poder há 10 anos, Correa expulsou a empresa em 2008 por irregularidades na construção de uma hidrelétrica. A empreiteira voltou em 2010 ao país. 

"O caso Odebrecht tem impacto não apenas nas eleições do Equador, mas em muitos países da América Latina. No caso equatoriano, se somou a uma série de acusações e denúncias de corrupção, um tema que, em geral, afeta todos os atores”, explica Tatiana a respeito do impacto da divulgação de informações do caso nas últimas semanas.

Para Oswaldo Moreno, o caso terá menos e feito do que a situação política do país. “Lenín Moreno tem um problema mais sério que o caso da Odebrecht, é o desgaste do governo. O oficialismo não admite que faltou investir em pontos de infraestrutura, a base do ‘correismo’ não reconhece erros que cometeu.” 

No dia 19, além da troca na presidência e no Parlamento, os equatorianos responderão em consulta popular se políticos eleitos devem ser proibidos de possuir dinheiro ou bens em paraísos fiscais. O atual governo defende essa consulta como algo importante para combater a corrupção. “(Os paraísos fiscais) são os piores inimigos de todos os Estados: distorcem a economia mundial, produzem crises financeiras e fomentam o crime organizado. Mais de US$ 30 bilhões saíram das mãos privadas do Equador para esses lugares”, afirma a presidente da Assembleia Nacional e candidata Gabriela Rivadeneira.

3 perguntas para Gabriela Rivadeneira, presidente da Assembleia Nacional do Equador

1. Como foi recebida a informação do caso Odebrecht?

Com toda seriedade. Tomamos medidas exigindo que a Procuradoria-Geral investigasse as denúncias. A empresa não possui contratos vigentes com o governo federal. No entanto, precisamos ter uma posição crítica. Não podemos aceitar denúncias vindas de rumores.

2. Como o governo está agindo sobre os casos?

Diferente de governos anteriores, agora os poderes trabalham juntos. A luta do nosso governo contra a corrupção começou há quase uma década com a criação da Secretaria de Transparência de Gestão, a tipificação do enriquecimento ilícito no Código Penal e a aprovação da Lei contra a Lavagem de Ativos e Enriquecimento Ilícito.

3. Em suas campanhas, o que falam sobre Correa?

Rafael Correa deixa um país radicalmente diferente e as pessoas reconhecem.

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