RODRIGO CAVALHEIRO/ESTADÃO
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Fim de ciclo político forja militantes de ocasião

Na disputa entre voluntários, Macri requer fiscais de urna e Scioli, panfletagem

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente / Buenos Aires, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - A história da primeira campanha presidencial sem um Kirchner em 12 anos será contada com capítulos inéditos. Os argentinos, apresentados hoje a um segundo turno, surpreenderam-se com alternância de favoritos, erros em prognósticos e fraudes em votações. A sensação de que se já aconteceu de tudo qualquer coisa pode ocorrer hoje tirou milhares da passividade. Forjou militantes de ocasião.

Elena Homps e Horacio Almirón não se conhecem mas provavelmente já se cruzaram na rua. Vivem a 200 metros um do outro, em Palermo Chico, região de Buenos Aires cobiçada por estar rodeada de parques. 

Aos 59 anos, a corretora de imóveis acostumada a alugar apartamentos de alto padrão como o dela estará hoje em uma escola de um bairro pobre de Malvinas Argentina, cidade de 321 mil habitantes na região metropolitana de Buenos Aires. Como no primeiro turno, tirará as joias, colocará suas roupas mais simples e levará o marido e dois filhos para serem fiscais da coalizão Cambiemos, do conservador Mauricio Macri. 

Elena não é fanática por Macri. Votou em peronistas antes, mas não confia na capacidade de Daniel Scioli administrar sem a influência de Cristina Kirchner, que deixará o poder em 18 dias. “Vivemos em uma bolha. Pagamos por serviços que o Estado deveria dar e acho que é preciso uma mudança”, afirma.

Elena decidiu romper a zona de conforto depois de ver em agosto a fraude na eleição para governador da Província de Tucumán, no norte do país. A votação, que chegou a ser anulada depois de urnas terem sido queimadas, foi validada em razão da ampla margem obtida pelo candidato kirchnerista. “Tucumán mudou tudo.” A coalizão de direita reuniu mais de 100 mil fiscais voluntários depois disso.

No primeiro turno, Elena levantou-se às 6 horas. De um domingo. Preparou a comida, foi das primeiras a votar em Buenos Aires e partiu com a família de carro para Malvinas Argentinas, localidade dominada pelo kirchnerismo a 35 quilômetros da capital. “Nos perdemos na chegada com o GPS, foi tenso. Agora levaremos mapa de papel.” 

Chegaram às 9 horas, diante do olhar desconfiado dos fiscais dos adversários. “A única coisa que pedimos quando nos registramos como voluntários foi ficar na mesma escola, por segurança”, lembra. Trabalharam até as 22 horas. Embora as urnas fechem às 18 horas, é na hora da contagem das cédulas de papel e transmissão dos dados que costuma haver problemas. 

Como Scioli teve três vezes mais votos que Macri em sua mesa, Elena chegou em casa às 23 horas com a sensação de dever cumprido e derrota eleitoral. Só no dia seguinte soube que Macri ficara a só 3 pontos de Scioli. 

A margem estreita mudou de lado o favoritismo, até então da coalizão kirchnerista Frente para a Vitória (FPV). Mudou também a atitude do engenheiro Almirón, um peronista que se gaba de ter nascido e criado dentro de uma estatal. Viveu até o fim do ensino médio em um conjunto de casas da petrolífera YPF no extremo sul do país, onde trabalhava seu pai. 

Férreo defensor de Néstor (2003-2007) e Cristina Kirchner (2007-2015), Almirón nunca havia brigado por um voto. “Era muito tímido, mas o que está em jogo me fez perder o medo do ridículo. Já não tenho vergonha que me vejam com esse boné”, explica. O chapéu tem na frente a marca YPF bordada e um pin com a bandeira argentina. No lado esquerdo há um segundo círculo de metal, mais largo, onde se lê “Eu voto Scioli”. 

Os adornos o acompanham desde que passou a distribuir panfletos em estações de trem. “Nunca tinha feito porque as eleições anteriores foram mais fáceis. Os meninos acham que pela minha idade me respeitam mais”, diz, referindo-se aos outros voluntários. Um de seus filhos, economista, passou a colar cartazes de madrugada.

Viúvo há dois anos, Horacio dedica seu tempo a evitar a vitória de Macri. Liga e manda e-mails para parentes em dúvida. “Sei que alguns estão com raiva por pagar impostos em excesso, mas estamos num momento crucial, de escolha entre dois modelos. As pessoas votaram mal no primeiro turno”, diz, desmerecendo voluntários macristas. “Muitos são pagos e explorados. Não fazem de coração.” 

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