REUTERS/Carlo Allegri
REUTERS/Carlo Allegri

Fim de conflito na Colômbia é marco para paz mundial

Fim do conflito de 52 anos representa um hemisfério inteiro rumando para a paz, seguindo o exemplo de outras grandes regiões

STEVEN PINKER & JUAN MANUEL SANTOS* / THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

27 Agosto 2016 | 05h00

O acordo de paz anunciado nesta semana entre o governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) representa mais que o fim de uma guerra. É um marco para a paz nas Américas e no mundo.

A guerra de 52 anos entre o Estado colombiano e as Farc é a mais antiga e, atualmente, o único conflito armado no Hemisfério Ocidental, e também o último conflito remanescente da Guerra Fria. Do Alasca à Terra do Fogo, a guerra – no sentido clássico de conflito violento envolvendo disputa de governo ou território, protagonizado por ao menos um Exército nacional – desapareceu. Embora a violência ligada ao narcotráfico na América Latina continue, o fim de conflitos políticos armados num hemisfério inteiro merece destaque. Basta olhar para as últimas décadas para se ver o quão importante é esse avanço.

Em Guatemala, El Salvador e Peru, como na Colômbia, grupos armados esquerdistas combateram governos apoiados pelos EUA. Na Nicarágua, o conflito foi em sentido inverso: rebeldes com apoio dos EUA lutaram para derrubar um governo esquerdista. Com os EUA e a União Soviética apoiando materialmente cada lado, o conflito se potencializou. Na Argentina, a “guerra suja” também foi entre direita e esquerda, causando a morte de dezenas de milhares de pessoas.

Na época, guerras entre países também ocorriam com regularidade. Nos anos 80, os EUA invadiram o Panamá e Granada para derrubar seus governos. Em 1982, Grã-Bretanha e Argentina lutaram pelas Malvinas.

A região também se tornou militarizada em consequência de frequentes golpes. Em 1981, a lista de países governados por regimes autoritários ou militares incluía Guatemala, El Salvador, Honduras, Panamá, Suriname, Brasil, Bolívia, Paraguai, Chile, Uruguai e Argentina.

Hoje não há governos militares nas Américas. Nenhum país está lutando contra outro. E nenhum governo está enfrentando grandes insurgências.

Esse avanço, de um hemisfério inteiro rumando para a paz, seguiu o caminho de outras grandes regiões do mundo. Na Europa Ocidental, séculos de guerras sangrentas que culminaram em dois conflitos mundiais deram lugar a sete décadas de paz. Na verdade, as guerras atuais estão concentradas quase exclusivamente numa zona que vai da Nigéria ao Paquistão e contém apenas um sexto da população mundial. Longe de ser um “mundo em guerra”, como muita gente acredita, habitamos um planeta em que cinco em cada seis pessoas vivem em regiões totalmente ou amplamente livres de conflitos armados.

A América Latina pode agora juntar-se a esse grupo. Administrar a paz pode ser quase tão difícil quanto fazer a guerra e, para a Colômbia, os desafios que ficam são consideráveis. O progresso rumo à paz é lento e incerto, mas é impulsionado pela determinação, engenho e vontade de milhões – e pela constatação de que paz não é um ideal utópico, mas algo alcançável. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

*PINKER É PROFESSOR DE PSICOLOGIA EM HARVARD. SANTOS É PRESIDENTE COLOMBIANO

 

Mais conteúdo sobre:
ColômbiaJuan Manuel SantosFarc

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.