REUTERS/Enrique de la Osa
REUTERS/Enrique de la Osa

Fim de embargo encarecerá obras americanas em Cuba

Filmes, livros e CDs, que são vendidos de forma pirateada em Cuba, entrarão na ilha pelo mercado formal

Claudia Müller, O Estado de S. Paulo

24 Abril 2016 | 05h00

O fim do isolamento de Cuba, quando os EUA levantarem o embargo econômico, trará mudanças culturais à ilha, mas também encarecerá livros, filmes e músicas aos quais os cubanos têm acesso de modo informal.

Desde 2011, o governo autorizou diversas práticas até então consideradas ilegais, como a venda de obras piratas de origem americana. O chamado “pacote semanal” de cópias e reproduções de músicas, livros e filmes dos EUA é vendido para cubanos em domicílio ou nas ruas, legalmente. Além disso, o governo subsidia cinemas, teatros e apresentações de dança.

“Vai ser difícil oferecer produtos e programações baratas para a população com o fim do embargo e com Cuba supostamente mais incorporada ao mercado global”, afirma a diretora associada do Instituto de Estudos Cubanos e do Caribe da Universidade de Tulane, Louisiana, Carolina Caballero. 

Cuba também não paga direitos autorais quando traduz uma obra para ser publicada na ilha, porque o isolamento do país protege o material, diz Carolina. Mas, com o fim do embargo, dificilmente Cuba continuará publicando sem permissão, o que provocará o encarecimento dos produtos. “Com isso, menos pessoas vão poder consumir livros ou ir ao cinema, por exemplo”, explica Carolina.

Mas a formalização do mercado dará a possibilidade de a população cubana ter acesso a mais opções de obras. Segundo a escritora cubana Daína Chaviano, os cubanos sempre receberam a cultura americana de braços abertos. “As influências dos EUA enriquecem nossa cultura, mas sempre conseguimos nos apoderar delas e transformá-las para criarmos algo próprio”, afirma. 

A consolidação dessa nova realidade deve levar cinco anos ou até menos para ocorrer, acredita o professor do departamento de Estudos Internacionais da Universidade de Miami, Bruce Bagley. “Isso será bom para a população, principalmente para os jovens, e para uma abertura da cultura, sociedade e políticas cubanas na próxima década”, ressalta.

A partir dos anos 90, com o Período Especial em Tempos de Paz, quando Cuba entrou em crise após o fim da União Soviética, o país se abriu para influências estrangeiras. Assim, os cubanos e cubano-americanos que visitavam parentes na ilha traziam CDs, filmes e livros de maneira informal. Até mesmo transmissões televisivas ilegais de canais dos EUA se difundiram pelo país. 

“Em uma certa época, escutar música ou usar jeans americanos era quase um delito”, conta Carolina. Apenas a partir de 2000, os canais oficiais da TV cubana começaram a transmitir filmes e séries americanos. 

Para a escritora Daína Chaviano, que foi embora da ilha em 1991 por medo de que seus livros fossem censurados, os irmãos Castro temem valores americanos: “O governo cubano sempre sentiu medo diante da liberdade de pensamento, com tudo que isso implica”.

A sociedade americana, por sua vez, já possui bastante acesso aos produtos culturais de Cuba. Para Carolina, isso se deve ao mito do proibido, ao tabu, que o embargo criou. Ele despertou interesse em relação ao que era feito na ilha. Mas, com a formalização do mercado, ela teme que os artistas se moldem às preferências dos EUA. “Sempre há o perigo de que algum produto cultural seja criado ou alterado para melhor refletir os gostos e expectativas do consumidor estrangeiro”, ressalta.

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