Francisco Munoz/AP
Francisco Munoz/AP

Fim de era Kirchner é desafio para peronismo

Família presidencial tem ações judiciais pendentes e futuro de Cristina é incerto

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente, O Estado de S.Paulo

23 de novembro de 2015 | 03h00

BUENOS AIRES - Às 22h30 desse domingo, a presidente Cristina Kirchner ligou para Mauricio Macri e felicitou seu sucessor. O receberá nesta terça e, no dia 10, a faixa presidencial trocará de mãos e linha política. A concessão a um inimigo político foi algo raro nos 12 anos do movimento que nos últimos 8 se enraizou em torno do culto à personalidade de Cristina.

O kirchnerismo competiu contra Macri com um candidato, Daniel Scioli, que nunca foi o preferido de sua base – um peronista que começou na ala mais conservadora do partido. Isso ocorreu também porque ninguém do setor mais duro do movimento criado por Néstor Kirchner (2003-2007) cresceu à sombra da presidente.

Cristina termina seus dois mandatos com aprovação de 40% e preferiu não se candidatar a nada. Seus críticos acreditavam que ela recorreria a algum cargo parlamentar para se proteger de eventuais ações na Justiça. A causa mais importante envolvendo sua família é a Hotesur, que investiga lavagem de dinheiro.

Há indícios de que diárias do hotel Alto Calafate foram pagas por um empresário amigo dos Kirchners, Lázaro Báez, sem que os quartos estivessem efetivamente ocupados. A Justiça investiga se as licitações que ele obteve têm relação com esses pagamentos.

Não há consenso entre analistas se as investigações atingirão Cristina. Entre os que acreditam que não, o principal argumento é o de que há uma certo pacto tácito na Argentina para não julgar ex-presidentes – porque logo isso pode ocorrer com o que está no poder.

Entre os indícios apontados pelos que preveem como inevitável uma investigação a fundo, estão a presença no governo de Ernesto Sanz, presidente da União Cívica Radical (UCR), futuro ministro da Justiça, e da deputada Elisa Carrió, a crítica mais estridente do kirchnerismo dentro da oposição.

Depuração. Independentemente do futuro de Cristina na Justiça, o consultor político Raúl Aragón prevê um impacto positivo no peronismo, do qual o kirchnerismo é uma corrente. “Acredito que vai ser um peronismo melhor. O kirchnerismo é uma doença do peronismo”, diz.

“Em alguma medida, o peronismo clássico aproximou a Argentina branca e europeia, em sentido genérico, da Argentina mestiça, colonial, do campo. O kirchnerismo voltou a abrir essa divisão”, acrescenta Aragón.

A posição combativa que caracterizou o kirchnerismo, escolhendo inimigos de turno – produtores rurais, o Grupo Clarín e, ultimamente, a Justiça, – foi mantida no dia da eleição. Ao votar em Río Gallegos, berço político da família, Cristina falou 28 minutos em tom de campanha, destacando pontos positivos de seus governos e de seu marido. A lei argentina proíbe manifestações do tipo com a votação em curso e uma denúncia chegou à Justiça Eleitoral.

“Eu era senadora e tive de sair (em 2001) à meia-noite do Congresso com o ex-presidente Raúl Alfonsín porque o Parlamento estava cercado por gente enfurecida. Só a essa hora conseguimos sair, com um cordão de isolamento. Jogaram garfos, colheres, panelas. Os políticos não podiam sair de casa”, disse a presidente a vários canais de TV, que transmitiram seus comentários ao vivo, na cidade que fica a 2,5 mil quilômetros de Buenos Aires.

Em um tom provavelmente diferente do usado para cumprimentar Macri, a presidente acrescentou que havia diferença clara entre os dois projetos e “nada é para sempre”. “O futuro depende das políticas públicas do Estado. Durante todos esses anos o Estado acrescentou coisas. Antes, tirava coisas”, afirmou. Em abril, Cristina disse que esperava não ter de voltar em 2019, porque seu lugar seria ocupado por alguém melhor do que ela.

“Acho que quando passe o tempo e suas características mais irritantes se diluam, ficarão alguns legados importantes, principalmente na ampliação dos direitos civis”, disse ao Estado o sociólogo Carlos de Angelis, da Universidade de Buenos Aires.

Na opinião dele, Carlos Menem (1989-1999) concentrou mais poder do que Cristina. “Não só teve a seu favor o Congresso, os governadores e a Corte Suprema, mas também uma população despolitizada. Mesmo assim, ele se tornou um fantasma. Deve ser o destino pessoal dela.”

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