Jamil Chade , CORRESPONDENTE / GENEBRA , O Estado de S.Paulo

15 de julho de 2015 | 02h03

O levantamento das sanções contra o Irã significará a volta ao mercado da quarta reserva de petróleo do mundo. Será a maior economia a reingressar ao sistema financeiro e de negócios global desde a queda da União Soviética, há mais de duas décadas. Após o anúncio do acordo nuclear, o Irã começou a se preparar para uma possível explosão de negócios e investimentos que afetará toda a região.

Instantes depois de o acordo ter sido anunciado, o mercado começou a reagir e o preço do barril de petróleo caiu. A reação foi um sinal de que investidores apostam numa produção cada vez maior do Irã e um fornecimento importante no mercado mundial.

Ontem, o barril foi negociado a menos de US$ 57 e a previsão de analistas é a de que o impacto da produção iraniana no médio prazo signifique que os preços mundiais do petróleo deverão continuar relativamente baixos.

Nos últimos meses, empresas como a Shell, Eni e Glencore viajaram até Teerã para iniciar negociações de exploração, diante da possibilidade de um acordo. "A volta do Irã ao mercado vai manter os preços baixos por mais tempo", alertou o banco suíço Julius Baer. "Não haverá escassez."

Mas essa nova fonte de petróleo promete provocar tensões com a Arábia Saudita e com a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep, o cartel dos maiores exportadores). "Se os sauditas não reduzirem sua produção para acomodar a entrada do Irã, os preços cairão para todos", alertou a consultoria Petromatrix.

Antes das sanções de 2011, o Irã conseguia produzir um total de 3,6 milhões de barris por dia. Hoje, essa produção não chega a 2,8 milhões. As exportações foram reduzidas em 50% em apenas quatro anos e o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad deixou o governo em 2013 com uma contração na economia de mais de 6%.

Agora, o mercado estima que investimentos de cerca de US$ 100 bilhões poderiam chegar no médio prazo ao país, que ainda tem em estoque mais de 40 milhões de barris esperando para serem comercializados.

Na semana passada, o chefe da Organização de Planejamento e Gerenciamento iraniano, Mohamed-Baqer Nobakht, afirmou que, para o plano de desenvolvimento para o período entre 2016-2021, o país precisará de US$ 361 bilhões. Ele estimou que apenas US$ 204 bilhões poderiam ser obtidos domesticamente, deixando o restante para fontes externas.

O acordo é a grande aposta de dezenas de multinacionais para abrir o que é considerada a última grande fronteira no mercado mundial. Com uma economia do tamanho da Tailândia, com mais da metade da população abaixo de 35 anos e precisando de praticamente tudo, o Irã começa a ser alvo de uma série de comitivas de empresários em busca de negócios, incluindo de americanos.

Em nota aos investidores, o banco de investimentos Renaissance Capital estimou que mais de US$ 1 bilhão em novos investimentos poderão ser anunciados apenas nos primeiros meses de 2016 em razão do fim das sanções. "A abertura do Irã será um dos desenvolvimentos mais positivos para mercados emergentes e novas fronteiras em muitos anos", indicou. "O Irã é a maior e mais importante economia ainda fechada para investidores institucionais."

Analistas dizem acreditar que o impacto desse acordo poderá ser sentido no próximo ano. Para o maior banco de Dubai, Emirates NBD PJSC, existe a possibilidade de que a expansão seja de 7,9%.

Outro impacto seria a liberação progressiva de US$ 100 bilhões em ativos bloqueados pelo mundo, o que representaria 25% de toda sua economia. Desde 1979, contas, ativos e empresas iranianas passaram a ser congelados em bancos pelo mundo, como forma de pressionar o governo. Com o novo acordo, a esperança é a de que parte desse dinheiro comece a voltar ao país.

"Esse dinheiro não é um empréstimo, não é um pacote, nem um programa do FMI (Fundo Monetário Internacional). É dinheiro do Irã que por anos esteve bloqueado", explicou Randa Slim, do Instituto do Oriente Médio, em Washington. Só na Índia, os bancos locais têm US$ 8 bilhões em ativos iranianos congelados. "Hoje, entramos em uma fase importante de nossa história e de nossa revolução", comemorou Hassan Rohani, o presidente que em 2013 foi eleito prometendo acabar com o isolamento do país.

Com 80 milhões de habitantes, o Irã tem a maior população dos seis países exportadores de petróleo do Golfo combinados com o Iraque. Na última década, esses países se desenvolveram enquanto a economia iraniana foi estrangulada pelas sanções. Agora, analistas estimam que esse padrão pode mudar radicalmente.

"Irã poderá ligar os motores do crescimento econômico para toda a região", afirmou o chefe da consultoria financeira Turquoise Partners, em Teerã, Ramin Rabii. Com centenas de milhares de residentes iranianos e descendentes, Dubai, em particular, deverá ser ponto de partida para as companhias voltarem para a república islâmica.

Omã também deverá ser outro beneficiário. Com alta demanda por energia, no ano passado fechou acordo com Teerã para importar gás construindo um gasoduto de cerca de US$ 1 bilhão. Com o fim das sanções, o projeto parece garantido.

Companhias regionais de logística e transporte também poderão se beneficiar. As ações da operadora portuária DP World Dubai e as da sede no Kuwait da gigante de logística Agility subiram ontem 1,4%, e 1,5% respectivamente. / COM REUTERS

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