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Primeiro teste atômico da então União Soviética foi feito em 29 de agosto de 1949, em uma área do Casaquistão, encerrando o monopólio dos EUA e dando início à Guerra Fria  AP

Fim de tratados eleva risco de guerra nuclear, mas medo de conflito diminui

Apenas 9 países possuem 14,5 mil armas nucleares, capazes de destruir a humanidade mais de 7 vezes; apesar do cenário sombrio, pesquisas apontam que preocupação com hecatombe atômica é muito menor do que a ameaça que ela representa

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

Em 1947, dois anos depois de os EUA lançarem bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, cientistas criaram o Relógio do Juízo Final. Seus ponteiros simbólicos se aproximam da meia-noite sempre que o risco nuclear é iminente. Pela primeira vez desde 1953, quando EUA e União Soviética testaram bombas de hidrogênio destrutivas, o relógio indica que faltam dois minutos para a meia-noite. 

Para cientistas e analistas, uma guerra nuclear é cada vez mais provável – e perigosa. Hoje, apenas 9 países possuem as cerca de 14,5 mil armas nucleares da Terra. Isso está abaixo do pico de 70,3 mil em 1986, segundo a Federação de Cientistas Americanos. Mas estudos mostram que o uso de apenas 2 mil armas nucleares emitiria 150 milhões de toneladas de fumaça na atmosfera, o suficiente para a extinção dos seres humanos.

Para Entender

O tratado nuclear entre EUA e Rússia

Saiba quais são as implicações de americanos e russos deixarem o acordo sobre mísseis de médio alcance (INF), assinado no final da Guerra Fria

Apesar do cenário sombrio, a preocupação com uma guerra nuclear é muito menor do que a ameaça. Como escreveu o físico nuclear Chapin Boyer no Boletim dos Cientistas Atômicos: “Não consigo me lembrar de uma época em que a ameaça de armas nucleares parecesse real.”

Uma pesquisa do Pew Research Center de 2017 mostrou que uma guerra nuclear preocupava apenas 23% dos americanos de até 30 anos, perdendo para desemprego, recessão e guerra comercial com a China. No início dos anos 80, o movimento antinuclear foi estimulado pela retórica e expansão militar dos EUA. Em junho de 1982, 700 mil pessoas bloquearam o Central Park, em Nova York, pedindo o fim das armas nucleares. A última manifestação do tipo nos EUA reuniu 5 mil pessoas.

“Como a última arma nuclear foi usada contra pessoas em 1945, nos acostumamos a achar que as bombas atômicas continuarão inativas, mas isso não é suficiente”, disse ao Estado Paul Bracken, professor de ciências políticas da Universidade Yale. “Não foi apenas a lógica da dissuasão nuclear que evitou o desastre, mas o estabelecimento e cumprimento dos tratados que controlaram a corrida armamentista. Vemos hoje uma nova corrida armamentista e o fim de acordos que controlaram a proliferação. Essa é uma ameaça real.”

“O risco de uso de armas nucleares é o maior desde a 2.ª Guerra e uma questão urgente que o mundo deveria levar mais a sério”, disse Renata Dwan, diretora do Instituto para Pesquisa de Desarmamento da ONU. “Os arranjos tradicionais de controle de armas também estão sendo corroídos pelo surgimento de novos tipos de guerra e conflitos. Todos os Estados com armas nucleares têm programas de modernização nuclear, o que representa um risco cada vez maior.”

“Se tivesse de apostar que pelo menos uma arma nuclear será usada enquanto eu viver, minha aposta seria que sim”, disse ao Estado Matthew Kroenig, da Universidade Georgetown. “Falar sobre guerra nuclear era como falar sobre dinossauros – algo distante. Essa perspectiva mudou com a profusão de conflitos internacionais e a saída de potências nucleares de tratados que limitam testes e uso.”

Escalada de tensões

Há um ano, o presidente russo, Vladimir Putin, anunciou que seu país estava desenvolvendo armas capazes de atingir qualquer ponto do globo e escapar de um escudo antimíssil dos EUA. Em dezembro, Putin confirmou o bem-sucedido teste de um novo míssil hipersônico que, segundo o Kremlin, é capaz de contornar qualquer sistema de defesa antimíssil.

Em janeiro, o presidente Donald Trump retirou os EUA do Tratado de Proibição de Mísseis Intermediários (INF), assinado com a União Soviética em 1987 e considerado um pilar na prevenção de uma guerra nuclear. Moscou também deixou o pacto, formalmente encerrado em agosto. Hoje, russos e americanos estão em rota de colisão. A Rússia avança para a Europa e invade espaço da Otan. Há até o temor de que Putin possa autorizar a invasão de um país báltico que já foi parte da União Soviética, hoje na Otan. Se isso ocorrer, os EUA estariam obrigados a responder, iniciando um conflito bélico.

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Ásia convive com risco de confronto atômico

Guerra provocada por Coreia do Norte com EUA e países asiáticos poderia terminar com milhões de mortos

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

Além da nova corrida armamentista, há outros temores palpáveis. O potencial conflito nuclear entre EUA e Coreia do Norte preocupa a maioria dos especialistas. Os dois países passaram a maior parte de 2017 ameaçando se bombardear com armas nucleares

Uma guerra provocada pela Coreia do Norte envolvendo os EUA e países asiáticos poderia ter um desfecho com milhões de mortos, mesmo que Pyongyang usasse poucas ogivas nucleares. Isso porque os EUA teriam de enviar 200 mil soldados para destruir o arsenal de Kim Jong-un. Seul, capital da Coreia do Sul, estaria em ruínas em razão da grande capacidade de artilharia da Coreia do Norte.

Bruce Klingner, um veterano da CIA especialista em Coreia do Norte, escreveu para a Heritage Foundation que o líder norte-coreano não seguiria os passos do iraquiano Saddam Hussein, que permitiu a invasão do Iraque. “Achávamos que a Coreia do Norte usaria armas nucleares apenas como parte de um último suspiro”, escreveu Klingner. “Mas a análise de documentos do país mostra que Kim usaria armas nucleares nos estágios iniciais de um conflito, não nos últimos.”

Tensão entre Índia e Paquistão

Índia e Paquistão são outra preocupação. Os dois países entraram em guerra três vezes desde 1947 e ambos são potências nucleares. Preocupações desse tipo levaram muitos a pressionar por um mundo não nuclear. 

Beatrice Fihn, líder da Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 2017. Ela e sua equipe ajudaram 69 países a adotar o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares na ONU, embora nenhuma das nações nucleares tenha assinado o pacto.

Serão necessários 50 países para ratificar o tratado para que ele se torne lei internacional. Até agora, apenas 19 o fizeram. Enquanto Beatrice espera ver outros 31 países ratificarem o tratado, ela acha que já está havendo um efeito. “O tratado vai mudar uma lógica de dissuasão e as expectativas de comportamento”, afirmou em uma entrevista de 2018. “Pressionará os países a não buscar armas nucleares e outras armas de destruição em massa. É como um sinal de não fumar.”

Políticos e teóricos mais realistas discordam dessa visão. Elbridge Colby, ex-subsecretário do Pentágono, escreveu em outubro na revista Foreign Affairs que “os EUA deveriam considerar as armas nucleares como ferramenta-chave para enfrentar os desafios globais apresentados por Rússia e China”. 

“Imagine que todos os países democráticos concordassem em acabar com seu arsenal: o que garantiria que algum tirano ou ditador não mantivesse suas ogivas? Se é paz que você quer, prepare-se para a guerra nuclear.”

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Jovens distantes da velha ameaça nuclear

Mudança climática é considerada hoje principal risco e o nuclear não está entre preocupações

Beatriz Bulla, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

WASHINGTON - O medo de ameaças nucleares passa longe do topo da lista de maiores preocupações da geração atual nos EUA. A saída do país do Tratado de Proibição de Mísseis Intermediários (INF), um dos acordos de redução de armas nucleares mais bem-sucedidos da História, não mudou a perspectiva dos americanos. 

Uma pesquisa do Pew Research Center, feita em 26 países em 2018 mostra que há uma concordância mundial de que as mudanças climáticas são um risco real. Em 13 dessas nações, mudanças climáticas são a primeira das ameaças globais. Em oito delas, o terrorismo ligado ao Estado Islâmico é a principal. Os ciberataques aparecem como grande temor em quatro países e em um deles o medo maior é da influência russa.

O temor a uma ameaça nuclear vinda da Coreia do Norte não está em primeiro ou segundo lugar em nenhum dos países – nem mesmo na vizinha Coreia do Sul. Outros institutos de pesquisa, como o Gallup, confirmam que a ameaça nuclear não chega ao topo da lista das preocupações recentes quando se fala em questões mundiais.

Deverrick Holmes, de 28 anos, graduado em história, se preocupa com o fato de sua geração não temer uma guerra nuclear – o que o levou a publicar um manifesto sobre o assunto para o Centro para Controle e Não Proliferação de Armas. “Certamente estudar história abriu meus olhos sobre o que aconteceu no passado. Não há uma garantia de que uma guerra nuclear nunca acontecerá. Infelizmente, não acho que os mais jovens e as pessoas da minha geração se importam com isso, provavelmente porque não está nas manchetes o tempo todo. Há outras questões que as pessoas da minha idade se importam mais, como mudança climática”, afirma Holmes.

Com o tratado INF em vigor, a assinatura em 2010 do New Start e sem ter nunca visto o uso de uma arma nuclear, a geração de Holmes cresceu com a sensação de que o problema estava resolvido. Na visão do historiador, o maior problema é a falta de engajamento. Segundo ele, se houvesse maior consciência da sociedade sobre os riscos de um ataque nuclear, provavelmente os EUA seriam mais pressionados a não deixar o INF.

No site Bulletin of The Atomic Scientists, Chapin Boyer, morador da Califórnia, descreve as razões pelas quais acha que sua geração não se importa com as ameaças nucleares. “Pode ser impossível dar a minha geração o contexto para temer armas nucleares, mas não é impossível ensinar minha geração e vincular esse conhecimento ao que nos interessa. Dizemos que nos preocupamos com o meio ambiente, por exemplo, mas como uma pessoa pode se chamar ambientalista e não reconhecer os perigos que as armas nucleares representam para o mundo natural?”, questiona Boyer.

Holmes tem uma preocupação concreta: que a falta de engajamento provoque novos retrocessos na não proliferação de armas. “Me preocupo com o fato de a minha geração não se importar com isso, porque o Congresso só age quando acha que as pessoas acompanham um assunto”, diz ele.

Dois anos mais velho, o economista Cameron Harwick, que mora no Estado de Nova York, discorda. Segundo ele, o benefício de ter armas nucleares é maior do que o risco. “Sou bastante grato pelos benefícios de ter as armas e a sua ameaça, que são maiores do que o risco de que elas sejam usadas. Antigamente, a única coisa que faria dois países não entrarem em guerra seria a distância, que não importa mais. Hoje temos mísseis, drones, aviões. Se esperaria mais guerras, mas é uma era de extrema paz”, afirma Harwick.

Impressão contrária

John Mueller, pesquisador do Cato Institute e da Ohio State University, ainda vê muito alarmismo nas preocupações atuais. “As pessoas continuam preocupadas com armas nucleares e não acho que deveriam estar. É mais baixa (a preocupação) do que era nos anos 80, quando o medo de uma guerra nuclear era a maior preocupação da sociedade”, afirma ele. 

“Há 75 anos as pessoas falam sobre isso e dizem que é necessário controlar essas armas, e nada aconteceu. O problema é que as pessoas ficam falando e se aterrorizando sobre isso”, completa o pesquisador. Em artigo publicado na revista Foreign Policy, Mueller defende que “compreender o impacto real” das armas nucleares e seu contexto permitirá a formuladores de políticas “ver as questões nucleares” de outra maneira. “Isso significaria trabalhar com a Coreia do Norte para estabelecer uma condição normal na região e se preocupar em reduzir suas capacidades nucleares posteriormente”, afirma.

Para Strobe Talbott e Maggie Tennis, do instituto de pesquisa Brookings, à medida que o governo de Donald Trump aumenta investimentos em armamentos para fazer frente ao que considera ameaças vindas da Rússia ou da China, também contribui para “corroer” um sistema de restrições e limitações. “As políticas de Trump prejudicaram os acordos de controle de armas e de não proliferação que regulam essas ameaças”, afirmam.

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Americanos viveram rotina de treinamentos durante a Guerra Fria

Programa mais intenso era na capital Washington, que deveria servir de exemplo para outras cidades dos EUA

Beatriz Bulla, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2019 | 05h00

WASHINGTON - A propaganda americana nos primeiros anos da Guerra Fria tinha uma missão cívica: convocar os cidadãos para treinos obrigatórios de corrida a abrigos em caso de ataque nuclear. O temor deveria ser suficiente para engajar a sociedade, mas não a ponto de fazer os americanos concluírem que não estavam a salvo em caso de uma explosão atômica.

A rotina de exercícios e construção de abrigos se espalhou pelos EUA, mas foi mais intensa em algumas cidades. Uma delas foi Washington, que deveria ser o símbolo nacional de preparação para um ataque nuclear e de um plano para que servidores federais continuassem trabalhando, mesmo no cenário mais adverso.

“Washington deveria ter o melhor programa, para servir de exemplo para as outras cidades”, afirma David Krugler, historiador e autor do livro This is only a Test: How Washington D.C. Prepared for Nuclear War (“Isso é apenas um teste: como Washington D.C. se preparou para a guerra nuclear”, em tradução livre). “Especialmente durante o governo de (Dwight) Eisenhower esses planos incluíam estabelecer locais remotos próximos da capital, mas fora do alcance de uma explosão, para que servidores federais continuassem trabalhando. E, por último, havia o sentimento de que se Washington estivesse preparada seria um sinal de que toda a nação estava preparada. Então, era útil promover Washington como local de defesa civil”, afirma Krugler.

Os planos de retirada eram mais do que uma preparação real, eram uma gestão de imagem. Em 1955, o governo americano chegou a simular um plano de retirada simultânea em 61 cidades. A primeira etapa da preparação foi por incentivo para que os cidadãos aprendessem a lidar com remédios e atuar como enfermeiros, no caso de ataque. Depois, começaram os treinamentos obrigatórios

“É importante lembrar que nos locais onde as pessoas treinavam, em Washington ou Nova York, não havia chance de sobreviver a um ataque nuclear da União Soviética. Mas as pessoas eram convocadas a fazer esse tipo de treinamento”, explica o historiador.

Em Washington, havia simulação para civis e outra para servidores do governo, que treinavam a ida a abrigos. “Era uma forma de mostrar que o governo estava preparado para uma guerra, ainda que não desejasse que isso acontecesse. A ideia era a de que, se a União Soviética soubesse que estávamos preparados, poderia se tornar menos propensa a atacar”, diz Krugler.

Para ele, Eisenhower sabia das falhas nos planos de proteção da sociedade civil. “Por isso ele escreveu o quão assustadora a possibilidade de uma guerra nuclear era, que a única forma de sobreviver era nunca se envolver em uma.”

No início dos anos 60, espalhou-se nos EUA a ideia de abrigos contra os efeitos radioativos. “Tenho certeza de que nenhuma cidade nos EUA manteve o programa de abrigos depois dos anos 70”, afirma. Parte dos locais, com mantimentos para que famílias fossem capazes de permanecer por algum tempo, sobrevivem até hoje, abandonados. Embaixo de uma escola no bairro de Adams Morgan, em Washington, um abrigo permanece intacto, ao fim de um longo corredor de concreto, no porão do prédio. “É tão difícil chegar até ele que os mantimentos foram deixados lá”, afirma o pesquisador.

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