REUTERS/Vicente Gaibor del Pino
REUTERS/Vicente Gaibor del Pino

Fim do martírio para quem buscava seus mortos durante a pandemia no Equador

Centenas de corpos de vítimas da covid-19 estão sendo identificados após meses; muitas famílias não haviam sido informadas pelo hospital sobre a morte ou a causa da morte do parente

Redação, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2020 | 04h00

QUITO - É o fim da agonia para Colón Ramírez. Após quase quatro meses de busca, no final recuperou e sepultou sua avó que morreu em Guayaquil, foco da pandemia no Equador, cidade que sofre com a dureza dos estragos do novo coronavírus.

O corpo da mulher de 83 anos de idade, assim como o corpo de 215 outras pessoas não identificadas, estavam perdidos entre os cadáveres empilhados em contêineres refrigerados, enquanto os hospitais colapsavam com pessoas doentes e mais mortos. 

A última vez em que Colón viu sua avó, Emilia Villón, havia sido em 29 de março, quando ela foi internada em um sanatório local. "Ela estava com febre, seus ossos doíam. Depois ficou sem fôlego", conta a jovem, que também perdeu outros seis parentes por causa da pandemia, que foi identificada no Equador em 29 de fevereiro. 

Embora os parentes nunca tenham sido informados pelo hospital sobre a morte de Villón ou sobre a causa, no atestado de óbito a avó aparece como vítima da covid-19. A mulher foi identificada a partir das suas impressões digitais, e porque sua família a reconheceu entre as fotos de cadáveres que estão na polícia judiciária, local onde Ramírez foi na última quinta-feira para recolher o corpo em um caixão. 

Segundo a defensora pública Zaida Rovira, essa instituição ficou responsável por 216 corpos extraviados durante a pandemia, dos quais 116 foram identificados. Entre segunda e quinta-feira, cerca de 30 corpos foram entregues aos seus respectivos parentes.

Ramírez, de 26 anos, afirma que depois de três dias da internação da avó, a família parou de ter notícias de Villón, fazendo com que todos se mobilizassem para tentar localizá-la até mesmo nos necrotérios e nos contêineres com corpos. 

"Um primo entrou para procurá-la (em um contêiner). Foi horrível, ele saiu quase louco porque havia muitos mortos", relata. 

Foco na América Latina

No Equador, com 17,5 milhões de habitantes, até o momento a pandemia já registrou mais de 71.300 casos, incluindo 5.207 mortos (30 a cada 100 mil habitantes). Além disso, há também 3.355 suspeitos de morte pela covid-19.

Guayaquil se tornou um dos primeiros focos do coronavírus na América Latina. Com mortes ocorridas dentro de casa e nas ruas, em meio a um sistema de saúde em colapso, a cidade portuária com quase 2,7 milhões de habitantes enfrentou a pior fase da pandemia entre março e abril. 

Na província costeira de Guayas, cuja capital é Guayaquil, de acordo com dados oficiais, foram registradas 25.177 mortes por  causas diversas entre janeiro e junho deste ano, em comparação com os 10.884 notificados no mesmo período em 2019. 

Quando os serviços de urgência tiveram um certo alívio, as famílias apareceram procurando seus parentes mortos não-identificados e cadáveres em decomposição. 

Por isso, a Defensoria Pública entrou com uma ação de proteção contra o Estado pela violação do direito à dignidade humana, à integridade pessoal e ao recebimento dos serviços públicos de qualidade. 

O recurso judicial foi aceito no dia 26 de junho, e as autoridades legais começaram a identificar os corpos, usando como recurso testes de DNA. 

"Há 216 corpos que foram objeto de uma não observância dos protocolos (no que se refere ao manuseio de corpos) e, por esse motivo, houve uma falta de identificação", disse Rovira. / AFP

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