Carol Guzy / Washington Post
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Fim do Muro de Berlim

Graças à queda do muro, a Europa e o mundo inteiro são melhores do que naquele tempo

Mario Vargas Llosa *, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 03h00

Trinta anos atrás, quando caiu o Muro de Berlim, eu estava imerso na voragem de uma campanha eleitoral, na qual era candidato, e mal percebi a importância do evento. Dias depois, recebi um envelope sem remetente contendo uma pedrinha daquele muro derrubado pelos cidadãos da Alemanha Oriental. Durante muitos anos a guardei em minha mesa, como um símbolo de liberdade.

Foi apenas um tempo depois, quando li o famoso artigo de Francis Fukuyama, que os polemistas entenderam absurdamente ao pé da letra com O Fim da História (algo que ele nunca pretendeu provar), que fui compreendendo o valor simbólico daquele evento e as extraordinárias ocorrências que, de alguma forma, representava: a unificação da Alemanha, o colapso e o desaparecimento da União Soviética, a conversão da China de ditadura comunista em ditadura capitalista e, por fim, a mais importante para o mundo inteiro, a morte e o desaparecimento do maior desafio que a cultura democrática havia enfrentado ao longo de sua história: o comunismo. 

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Era isso que o livro (nascido daquele artigo) de Fukuyama estabeleceria com aguda precisão. É verdade que, em sua justa avaliação das consequências do desaparecimento do comunismo, ele não assinalou que nas democracias, mais uma vez convertidas no único sistema capaz de garantir a liberdade, o progresso e a convivência com a diversidade, emergiram outros demônios destrutivos, como o nacionalismo, o racismo, o supremacismo e suas consequências inevitáveis: o terrorismo e a Ação Direta.

Mas quanto ao desaparecimento do comunismo Fukuyama estava certo. Os regimes comunistas que sobrevivem são caricaturas e espantalhos do velho sonho que desencadeou tantas revoluções frustradas, pelas quais milhões de pessoas em todo o mundo foram mortas. Na América Latina, por exemplo, durante meio século, jovens de todos os confins se esconderam nas montanhas para construir o paraíso comunista, dando o pretexto ideal para que os regimes militares se consolidassem e perpetrassem os hediondos massacres que conhecemos. Só agora o continente de esperanças sempre frustradas percebe como estavam errados os imitadores de Fidel Castro e seus barbudos. Alguém em sã consciência ainda acredita que Cuba, Venezuela, Nicarágua ou Coreia do Norte sejam um modelo para a justiça e o desenvolvimento de um país? Os poucos fãs que se apegam a essa fantasia ilusória são a melhor demonstração da irrealidade em que vivem.

Passei boa parte do ano de 1992 em Berlim, como membro do Wissenschaftskolleg, um centro de ensino superior, e fui várias vezes explorar o que restava do famoso muro. Lembro-me da explosão – uma explosão, literalmente – de cultura na velha cidade, que ocorria sobretudo nas ruas tristes e ásperas da antiga capital da Alemanha Oriental, onde uma multidão de jovens de origens muito diferentes fazia poesia, música, teatro, fundava galerias e rodava filmes, dando à cidade uma extraordinária vitalidade criativa. 

A liberdade recuperada estava lá e parecia que viria a operar milagres tanto no campo cultural quanto na vida política. Infelizmente, não foi o que aconteceu, mas não há dúvida de que Berlim é a cidade mais interessante da Europa, ou talvez do mundo, desde o ponto de vista da renovação e da popularidade das artes e da literatura. Graças à queda do muro e a tudo o que ela passou a representar, a Alemanha, a Europa e o mundo inteiro são melhores do que naqueles tempos em que a URSS e seus satélites pareciam avançar de maneira irresistível sobre o restante da Europa.

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O desaparecimento do comunismo não foi obra de seus adversários. Pelo contrário, até a ascensão ao poder de Margaret Thatcher no Reino Unido, de Ronald Reagan nos EUA e de João Paulo II no Vaticano, os países ocidentais haviam se resignado à presença desse fantasma, como expressou melhor que qualquer outro Henry Kissinger, alguns meses antes da queda do muro, com a frase lapidar: “A URSS chegou para ficar”. Não foi bem assim. A URSS entrou em colapso sozinha, em razão de sua incapacidade de criar os paraísos de igualdade, decência e prosperidade prometidos pelo marxismo, atolada na pobreza, na corrupção, na ditadura e, acima de tudo, como Hayek previu em seu famoso ensaio, na total impossibilidade de um sistema comunista reconhecer o custo de produção de bens em uma economia que rejeita o livre mercado. 

Os espectadores da maravilhosa série sobre Chernobyl – o terrível acidente sobre o qual todos mentiram em seus relatórios e, por isso, foi impossível saber em que consistiu e quantas foram suas vítimas – têm uma ideia aproximada das razões pelas quais as sociedades comunistas fracassaram. O êxito que alcançaram na aplicação do terror e na manipulação em massa tampouco durou muito: no final, a rejeição frontal de suas vítimas, que se tornaram a maior parte da sociedade, acabou enterrando o sistema, que sobrevive apenas em certos arremedos patéticos da realidade latino-americana e africana.

Quando se olha ao redor, é difícil aceitar que estamos melhores agora. Para confirmar, basta dar uma olhada nos países que se libertaram da órbita soviética, como Polônia, Checoslováquia, Hungria ou a sofrida Ucrânia, onde os russos, agora sob o mando de Putin, resistem a permitir que todo o país desfrute da liberdade e induziram três províncias ao secessionismo. É precisamente nesses países que escaparam do comunismo que a democracia se deteriora mais rapidamente, por um autoritarismo com apoio popular que traz um desequilíbrio lamentável, pois desnaturaliza a democracia e aproxima essas sociedades das antigas ditaduras de triste lembrança.

Nacionalismo

Não devemos nos render ao desespero. Os sintomas do nacionalismo que, com diferentes nomes, como o Brexit, por exemplo, ameaçam a cultura da liberdade não acabarão com a União Europeia. Apesar dos excessos de burocratismo de que é acusada, ela continua sendo o projeto mais ambicioso e realista de um futuro em que o berço da liberdade que é a Europa se faz presente ao lado dos gigantes chinês e americano. Nela, a democracia se nutre mais que em qualquer outra parte dos conteúdos sociais indispensáveis para que exista certa igualdade de oportunidades e para que a liberdade, as eleições e a imprensa livre não apareçam como fenômenos solitários em sociedades profundamente divididas pela desigualdade econômica. 

O nacionalismo é um câncer, como demonstrado pelo nazismo e pelo fascismo, e devemos enfrentá-lo como o inimigo natural da liberdade e como fonte de terror e racismo diante dos quais a liberdade sempre acaba perecendo. Que o diga a Espanha, por exemplo, onde o secessionismo catalão semeou o caos em um país que havia surpreendido o mundo, após a morte de Franco, graças a uma transição na qual direita e esquerda deixaram de lado parte de seus ideais para salvar a coexistência. Esse pacto está quebrado agora, por causa do nacionalismo, e o futuro da Espanha é incerto. Felizmente, pertencer à UE impede que ela se precipite em um distúrbio político semelhante ao produzido pela Guerra Civil e pela ditadura de Franco. / Tradução de Renato Prelorentzou

* É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA © 2019 EDICIONES EL PAÍS, SL. DIREITOS RESERVADOS. PUBLICADO SOB LICENÇA.

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