Fim do regime cubano não acabará com antiamericanismo

Ressentimento vem desde a Guerra Hispano-Americana

É AUTOR DO LIVRO MÉXICO: BIOGRAFIA DO PODER, DE REDEEMERS: IDEAS AND POWER IN LATIN AMERICA, ENRIQUE, KRAUZE, BLOOMBERG NEWS, É AUTOR DO LIVRO MÉXICO: BIOGRAFIA DO PODER, DE REDEEMERS: IDEAS AND POWER IN LATIN AMERICA, ENRIQUE, KRAUZE, BLOOMBERG NEWS, O Estado de S.Paulo

04 de dezembro de 2011 | 03h04

O apego romântico da America Latina à ideia da revolução começou em Cuba e foi lá que atingiu sua máxima força. E é também na ilha que ele pode perfeitamente se apagar. A Guerra Hispano-Americana de 1898 (chamada de "Esplêndida Guerrinha") foi um importante capítulo na afirmação americana do Destino Manifesto, em que os EUA reivindicaram seu direito de determinar os governos e as políticas para seus vizinhos latino-americanos.

Por todo o mundo de língua espanhola, na América Latina e na própria Espanha, o conflito foi vivido como uma tragédia histórica. Durante grande parte do século 19, as elites liberais latino-americanas adotaram os EUA como modelo e inspiração política.

No entanto, após a derrota da Espanha e o fim de praticamente todos os vestígios de seu império colonial, os liberais, seus inimigos locais, as elites conservadoras e católicas encontraram um tema consensual: eles passaram a defender um novo nacionalismo continental explicitamente antiamericano.

O intelectual uruguaio Jose Enrique Rodo escreveu um ensaio chamado Ariel, em que qualificou a oposição entre o mundo anglo-saxão e a América Latina como um conflito de civilizações. Os EUA eram o "Caliban" (bárbaro, ganancioso e materialista) tentando, sem sucesso, dominar o continente retratado como "Ariel" (civilizada, espiritualizada e inerentemente superior).

Ruben Darío, da Nicarágua, maior poeta latino-americano da época, escreveu Ode a Roosevelt, nos anos 1900, alertando o presidente americano de que "mil crias foram geradas pelo leão espanhol" e rotulou a dominação americana como "garras de ferro".

A profecia de Ruben Darío se cumpriu em 1959. O líder da Revolução Cubana contra a ditadura de Fulgencio Batista pode ser descrito exatamente como uma das "crias" do leão espanhol. O pai de Fidel Castro, Angel, foi um veterano (do lado espanhol) da guerra de 1898.

Após a derrota da Espanha, ele se fixou na ilha e se tornou um membro rico e importante da classe média rural. A conversão de Cuba, para todos os fins, em um protetorado americano criou o ressentimento.

Em 1922, o historiador mexicano Daniel Cosio Villegas previu que "o ódio aos americanos se tornaria uma religião para os cubanos". Em 1947, o mesmo intelectual liberal escreveu que na América Latina havia "uma densa camada de desconfiança e rancor em relação aos EUA". E previu que um dia "não mais do que quatro ou cinco agitadores nos principais países da América Latina lançariam uma campanha de difamação e de ódio contra os americanos", que o continente "fervilharia de agitação e estaria pronto para qualquer coisa".

Prudência. A amizade e o consenso entre Che Guevara e Fidel Castro não foram apenas táticos e militares, mas ideológicos. Che vinha de uma tradição de antiamericanismo cultural predominante no Cone Sul, uma região que mantinha pouco contato direto com os EUA, mas que, como resultado de um forte crescimento econômico nos anos anteriores a 1929, considerava os americanos como concorrentes.

O antiamericanismo caribenho de Castro teve origens mais políticas. Carregava o peso da guerra de 1898 e as consequentes intromissões americanas na vida da ilha. No entanto, a revolução que Fidel e Che armaram não foi inspirada apenas pelo nacionalismo. Eles também buscavam uma salvação política por meio de uma repetição entusiástica da Revolução Russa.

Pelo menos desde 1956, o sistema soviético passou a ser criticado dentro da própria União Soviética. No entanto, em Cuba, os ressentimentos latino-americanos com relação aos EUA excederam qualquer medida de precaução. E não menos do que três gerações de jovens latino-americanos de quase todos os países da região dedicaram a vida (e, com frequência, pagaram com a morte) para repetir as aventuras redentoras do "Davi latino-americano" contra o "Golias americano".

Ninguém pode prever como será a transição cubana após a morte de um dos irmãos Castro. Os cenários possíveis vão desde mudanças pacíficas e ordenadas até uma transformação violenta e apocalíptica. Os EUA, porém, atentos às duas revoluções do passado, têm de reconhecer que a Cuba moderna não é simplesmente uma relíquia da Guerra Fria, mas também o produto de um profundo e arraigado nacionalismo ibero-americano.

Seria extremamente prudente, da parte dos EUA, fechar a prisão de Guantánamo, revogar o embargo comercial e elaborar uma política apropriada para a terceira era dessa história enredada, uma história que pode se reiniciar a qualquer momento. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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