Fim dos olhos que piscaram a tortura

Americano Jeremiah Denton morre aos 89 anos

O Estado de S.Paulo

29 de março de 2014 | 02h08

Jeremiah Denton, exemplo de heroísmo e resistência nos Estados Unidos por passar oito anos como prisioneiro da Guerra do Vietnã, morreu ontem aos 89 anos na cidade litorânea de Virginia Beach.

Ele se tornou conhecido por piscar a palavra "tortura" em código Morse, durante uma entrevista de televisão, denunciando ao mundo o tratamento a que era submetido.

Contra-almirante da reserva, Denton sofreu as torturas em prisões do antigo Vietnã do Norte, entre 1965 e 1973, e passou metade do total de tempo de cativeiro no isolamento, o que lhe levou ao limite da sanidade e a quase morrer de fome.

Denton desafiou seus sequestradores na entrevista, preparada pela propaganda vietnamita. Ao mesmo tempo em que dizia a seu entrevistador que era tratado adequadamente, denunciava a tortura, piscando os olhos, em código Morse. Para se justificar, dizia que a luz o incomodava.

Graças a essa aparição, transmitida em 1966 e na qual se vê um temeroso Denton com seu uniforme de prisioneiro e aspecto frágil, o governo americano testemunhou diretamente de um preso da Guerra do Vietnã a confirmação de que era submetido a tratamento cruel.

O avião que Denton pilotava foi derrubado ao sul de Hanói (capital do antigo Vietnã do Norte), em julho de 1965. Ele conseguiu saltar de paraquedas a tempo, mas foi capturado por forças comunistas. Denton tinha 41 anos.

O piloto, nascido no Estado do Alabama e pai de sete filhos, passou pela temida prisão de Hoa Lo, também conhecida como o 'Hanói Hilton', onde também esteve preso o senador e ex-candidato presidencial republicano John McCain.

Denton era um dos oficiais de mais alta patente detidos pelos vietnamitas e, após seu retorno, foi promovido a contra-almirante e agraciado várias vezes com medalhas militares à coragem.

O presidente Barack Obama afirmou ontem, em comunicado, que Denton "deixou para trás um legado de serviço heroico ao seu país". "O valor que ele e seus companheiros prisioneiros de guerra demonstraram foi profundamente inspirador para nossa nação naquele tempo e continuou a inspirar nossos bravos homens e mulheres que servem (às Forças Armadas) hoje", afirmou.

Após ser libertado, Denton declarou que as torturas aumentaram incrivelmente depois da entrevista. Ele passou quatro anos em solitária e, dois deles, em uma cela do tamanho de uma geladeira.

"Nós estamos honrados por ter tido a oportunidade de servir nosso país sob difíceis circunstâncias", declarou Denton assim que saiu do avião que o levou a uma base americana nas Filipinas, após sua libertação. / EFE e REUTERS

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