Final confuso para uma grande manifestação na argentina

Cerca de 100 mil manifestantes saíram nesta sexta em passeata do Congresso Nacional até a histórica Praça de Maio, em Buenos Aires, no 30º aniversário do golpe que afundou a Argentina na mais cruenta ditadura de sua história (1976-1983). Sob o lema "Trinta anos: memória, justiça, verdade", os manifestantes, ligados a 370 organizações sociais e políticas além de outros setores, condenaram o golpe. Na grande manifestação, foram mostradas fotos dos 30 mil desaparecidos durante a ditadura. "A convocação foi fantástica. É o produto da maturidade do povo e do pedido do presidente Néstor Kirchner para mantermos nossa memória. É um dia muito importante", disse a líder da Associação Avós de Praça de Maio, Estela de Carlotto. Levando uma enorme bandeira com as fotos de centenas de desaparecidos, as Avós e Mães da Praça de Maio lideraram a mobilização. Ao chegar à Praça, testemunha silenciosa do golpe, artistas e integrantes das organizações leram a Carta Aberta à ditadura militar escrita pelo jornalista desaparecido Rodolfo Walsh. Nela, Walsh denunciava diversas atrocidades cometidas na época. Documento gera divergência Representantes das organizações leram um documento de forte tom político, reivindicando "prisão comum e perpétua para os genocidas", a "anulação dos indultos" e a restituição "dos 500 meninos apropriados ilegitimamente" durante o regime militar. O documento criticou o pagamento da dívida ao Fundo Monetário Internacional (FMI) concretizado em 2005, reivindicou que não sejam assinados acordos de livre-comércio como a Alca (Área de Livre-comércio das Américas) e questionou "as novas formas de repressão" exercidas durante mobilizações recentes, entre outros pontos. Ao fim da leitura, representantes das Avós e Mães se aproximaram do microfone do palco para esclarecer que elas "não estavam de acordo com o documento", mas no meio do discurso no qual tentavam explicar suas razões, foi desligado o microfone pelo qual falavam. "Queremos esclarecer que nós não assinamos este documento", disse uma das representantes das Avós, o que provocou um efusivo aplauso do público que participava da mobilização, em memória dos 30 anos do golpe. "É uma fraude. A dor foi utilizada politicamente. Houve um aproveitamento da data que é injusto e sem ética", sustentou Carlotto, que se retirou do palco e classificou o episódio como "desagradável". Carlotto acrescentou que alguns setores foram à Praça para "exacerbar os ânimos" e definiu o documento como "violento e injusto". Divergências à parte, ela se emocionou com "a resposta do povo" que se foi à manifestação e que encheu vários quarteirões da Avenida de Maio, que separa a Praça do Congresso. "Isso é muito importante para o país. E é bem diferente do que acontece em outros lugares. Além disso, são milhares de pessoas se mobilizando por um motivo nobre", comentou Brandon, um estudante americano de 20 anos. Vigília A Praça de Maio também foi testemunha da vigília organizada pela Associação Mães da Praça de Maio, e que foi até as 3h (3h de Brasília) da madrugada, mesma hora do golpe que iniciou a última ditadura militar do país, chefiado pelo general Jorge Rafael Videla. O 30º aniversário do golpe começou a ser lembrado há uma semana, com manifestações, exposições de obras artísticas, publicação de livros e atos em todo o país.

Agencia Estado,

24 Março 2006 | 23h02

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