Finalmente, o orgulho de ser japonês

Catástrofe do terremoto seguido de tsunami fez ressurgir o sentimento [br]patriótico do Japão, que havia desaparecido após a derrota na 2ª Guerra

Hiroki Azuma, O Estado de S.Paulo

19 de março de 2011 | 00h00

Embora previsões e avaliações devam esperar, há uma coisa que podemos afirmar uma semana após o terremoto: o povo japonês começou a ver sua nação sob uma luz mais positiva do que estava acostumado há 20 anos. Os japoneses são um povo desafortunado que raramente sentiu orgulho do seu país após a derrota na 2ª Guerra. Isto ficou claro durante a prolongada recessão depois do estouro da bolha econômica. Os premiês mudaram, a política sofreu sérios impasses e o ceticismo é enorme.

Após o tremor de Kobe, em 1995, o governo se mostrou tão incompetente que foi energicamente criticado. Desta vez, porém, é diferente. Claro, a mídia questiona o governo e as empresas de eletricidade pelo tratamento dado aos acidentes nucleares. Por outro lado, as vozes de apoio a essas empresas têm sido fortes. O secretário de gabinete, Yukio Edano, tornou-se um herói da internet e as operações de resgate das Forças de Autodefesa estão sendo elogiadas.

Até recentemente, o povo e o governo japonês eram considerados indecisos e egoístas, desnorteados entre tantas queixas e brigas. Agora, estão unidos na defesa da nação como se tivessem sofrido uma transformação. Curiosamente, os japoneses agora sentem orgulho de ser japoneses. Evidentemente, podemos argumentar que essa mudança, provavelmente, levará ao nacionalismo. Na internet, vejo sempre essa preocupação. Gostaria, porém, de ver alguma esperança nesse fenômeno.

Antes do sismo, o Japão era uma nação tímida, preocupada com seu declínio. As pessoas não esperavam nada e a ajuda mútua entre as gerações e a confiança nas comunidades locais começavam a se desfazer. Talvez o povo japonês possa usar a experiência da catástrofe para reconstruir uma sociedade ligada pela renovação da confiança.

Embora muitos devam voltar a se fechar em suas indecisões, a descoberta do nosso ser patriótico voltado para o bem público provavelmente não desaparecerá. Vi que a imprensa estrangeira noticiou com assombro a calma e o comportamento ético dos japoneses diante do desastre, mas, na realidade, essa foi uma surpresa para os próprios japoneses.

Até onde essa emoção pode se estender em termos temporais e sociais? Dessa pergunta dependerá o sucesso da recuperação, não apenas da calamidade, mas também da prolongada estagnação e do desespero das duas últimas décadas.

É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE WASEDA

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