LEON NEAL / AFP
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'Financial Times' pede que parlamentares britânicos 'removam' Boris Johnson

Em editorial, tradicional jornal britânico, alinhado ao pensamento dos conservadores, criticou primeiro-ministro por decisão de suspender Parlamento por cinco semanas

Redação, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2019 | 11h56

O jornal Financial Times, um dos mais tradicionais veículos da imprensa britânica e representante do pensamento liberal desde 1888, criticou duramente a tentativa do primeiro-ministro britânico Boris Johnson de suspender o Parlamento do Reino Unido por cinco semanas, e conclamou os partidos a “removerem Boris Johnson”.  

A manobra seria uma tentativa de Johnson de impedir que os parlamentares de oposição tomassem medidas para tentar bloquear uma saída do Reino Unido da União Europeia sem um acordo, antes do dia 31 de outubro, prazo final para o Brexit.

Boris Johnson detonou uma bomba sob o aparato constitucional do Reino Unido. O pedido do primeiro-ministro à rainha Elizabeth 2ª para suspender o Parlamento por até cinco semanas (...) é uma tentativa intolerável de silenciar o Parlamento até que ele não possa mais impedir uma saída desastrosa do Reino Unido da União Europeia em 31 de outubro”, escreveu o jornal, em editorial.

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“A sede da democracia britânica, há muito admirada em todo o mundo, está sendo impedida de dar sua opinião sobre a decisão mais importante que o país enfrenta em mais de quatro décadas.” 

O jornal também afirma que Johnson fala em nome da população britânica como desculpa para agir em interesse próprio e dos conservadores que defendem um Brexit sem acordo.  

“Se ele está confiante no apoio da população, deveria se dispor a testar isso com os eleitores em uma votação —em vez de fazer uma tentativa arrogante de frustrar a democracia parlamentar que tem sido a base da prosperidade e da estabilidade no Reino Unido.”

“Não há justificativa legal ou administrativa para uma completa interrupção de cinco semanas das atividades do Parlamento antes de um discurso da rainha. Johnson está usando um artifício constitucional para frustrar um Parlamento que ele sabe ter maioria contra sua política preferida”, afirmou em jornal, em referência ao Brexit sem acordo apoiado por Johnson.

Em seguida, o tradicional jornal defende que os parlamentares atuem com firmeza para impedir a manobra e remover Johnson do poder.

“É hora de os parlamentares derrubarem seu governo em um voto de desconfiança, abrindo caminho para uma eleição na qual a população possa expressar sua vontade”, defendeu o editorial.

“O governo representativo do Reino Unido é um exercício de democracia deliberativa que envolve discussão, negociação e concessões inevitáveis. Ele atribui aos parlamentares o poder de tomar decisões em nome dos eleitores e permite que eles deliberem sobre questões minuciosas — e, no caso do Brexit, a cisão mais complexa na história do pós-guerra, detalhes importam”, escreveu o Financial Times.

O jornal também disse que Johnson está mal acompanhado na história. “A história mostrou que charlatães, demagogos e pretensos ditadores têm pouco tempo para o governo representativo. Eles buscam caminhos para contornar o Parlamento antes de concluir que é um inconveniente. Johnson pode não ser um tirano, mas criou um precedente perigoso. Ele e a cabala ao seu redor que escolheram esse caminho revolucionário devem tomar cuidado com o que desejam.

Johnson obteve suspensão do Parlamento por cinco semanas

O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pediu na quarta-feira, 28 – e a rainha Elizabeth II aceitou – um prolongamento do recesso parlamentaraté o dia 14 de outubro. A manobra regimental diminuiu a janela para debate e aprovação de qualquer medida sobre a saída do Reino Unido da União Europeia com o Brexit, previsto para 31 de outubro.

O Parlamento britânico já está de recesso, mas voltará a funcionar na semana que vem. Normalmente, haveria uma nova pausa de alguns dias para que os deputados voltassem a seus distritos, organizassem convenções e realizassem consultas à população. O que Johnson fez foi esticar essa folga por cinco semanas. 

Agora, a oposição e os conservadores que são contra um Brexit sem acordo terão apenas duas semanas para agir. Assim que a rainha aceitou o pedido de Johnson, muitos britânicos protestaram nas ruas. Diversas manifestações foram registradas em várias cidades, entre elas Edimburgo, Cardiff, Manchester, Bristol, Cambridge e Durham.

 

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