Físico brasileiro convidado para reconstrução do Iraque

Técnicos brasileiros especializados no desenvolvimento de redes de comunicações por fibras óticas de alta velocidade construíram no Iraque, a partir de 1994, um sistema de 3.500 quilômetros destinado a multiplicar a capacidade de fogo da defesa antiaérea do regime de Saddam Hussein. Recebendo salários médios de US$ 8.500 mensais, pelo menos 12 físicos e engenheiros formados em São Paulo, Rio e Porto Alegre integraram uma equipe de cerca de 140 estrangeiros que trabalharam no processo. Dois deles, o físico José de Oliveira e sua mulher, a engenheira Elizabeth Rossi, estão se preparando para voltar a Bagdá, convidados para recuperar a rede destruída pelos bombardeios da coalizão anglo-americana. Inutilizar o conjunto era um objetivo estratégico da forças lideradas pelos Estados Unidos. Para comemorar a meta atingida, no dia 4 de abril, um domingo de sol, o general Vincent Brooks trocou por uma lata de cerveja e sanduíches de carne as rosquinhas com café e bolo oferecidos aos jornalistas na entrevista coletiva de todas as manhãs no Comando Central em Doha, no Catar. "Esta noite, foi definitivamente neutralizada a terrível ameaça da defesa antiaérea do Iraque" anunciou o general, com um grande e incomum sorriso no rosto. "Temos o que comemorar: era a única possibilidade de defesa do inimigo que preocupava o comando da coalizão", concluiu o militar. Para atingir a meta foi necessário um ataque coordenado de alta intensidade, no qual foram utilizadas 3.094 bombas inteligentes e mísseis de precisão disparados contra as centrais de coordenação e estações controladoras de unidades de combate. Os registros estão no levantamento cronológico da 2.ª Guerra do Golfo - divulgado parcialmente pelo Pentágono, semana passada, em Washington. Para anular as conexões entre centenas de canhões e mísseis terra-ar iraquianos, as armas especializadas da coalizão atravessaram camadas de concreto com quatro metros de espessura e destruíram no subsolo as conexões entre sofisticados cabos feitos de vidro flexível que conduzem feixes de luz invisível - cada deles um capaz de conduzir 500 mil sinais de informação. O sistema de comunicações militares por fibras óticas foi montado pelo regime de Saddam Hussein ao longo de oito anos. Dois dos brasileiros envolvidos no empreendimento, o casal Oliveira, deixaram a cidade de Ambar no dia 13 de março, uma semana antes do primeiro ataque da aviação americana. Até quinta-feira da semana passada estavam em Siwah, no Egito. "Esta é a antiga cidade dos embalsamadores reais egípcios; esperamos que eles possam nos trazer de volta à vida", disse Oliveira ao Estado, por telefone. Ele e Elizabeth foram convidados a voltar a Bagdá para recuperar a rede que ajudaram a montar. "Não posso revelar quem nos convocou, mas posso dizer que é oficial, porque qualquer que seja o governo, vai precisar de comunicações de defesa eficientes." O salário somado pago ao casal pelo regime de Saddam era da ordem de US$ 17 mil mensais. Havia benefícios extras, como atendimento médico fora do país - Elizabeth quebrou o joelho em 1998; foi operada na Alemanha - uma casa bem equipada e um carro trocado a cada 36 meses. "Isso acabou. Vivemos todo o tempo em uma redoma, fora da realidade iraquiana", conta Elizabeth Rossi. Na opinião da engenheira, "o regime deposto tinha pretensões expansionistas, mas não tinha condições de executá-las; só poderia dissuadir seus vizinhos mais agressivos, Síria e Israel, de tentar uma aventura". José e Elizabeth não consideram a possibilidade de retornar ao Brasil. Ambos concordam que "viver a experiência iraquiana está sendo fascinante".

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