REUTERS/ Manauarte Quintero
REUTERS/ Manauarte Quintero

Flórida enche prateleiras da Venezuela

Brechas na lei fazem produtos americanos inundarem mercados que só aceitam dólares

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2019 | 07h00

C ARACAS - Enquanto os EUA tentam derrubar Nicolás Maduro com sanções, a Venezuela é inundada por produtos americanos. Artigos de higiene pessoal, comida e outros importados, antes impossíveis de serem encontrados, mas agora enchem as prateleiras de novas biroscas que só aceitam dólares, conhecidas como “bodegones”, propiciando um alívio ao chavismo.

O motivo? Empresários venezuelanos aproveitaram que o governo abandonou o controle de preços e importações e compram produtos diretamente de atacadistas americanos, entre eles Costco e Walmart.

As mercadorias são enviadas por serviços de entrega com sede na Flórida, administrados por venezuelanos, e chegam por transporte marítimo, também feito por empresas da Flórida, que desfrutaram de isenção de 100% de taxa de importação. “Tudo que nossos clientes desejam dos EUA conseguimos oferecer”, disse Hector Mambel, que dirige um bodegón em Puerto Cabello, batizado de “Mini Walmart”. A mudança mostra como a economia da Venezuela se adapta para sobreviver às sanções.

O comércio não viola as sanções americanas, que afetam apenas os negócios com o governo – e não com empresários privados. No entanto, as importações confundem os venezuelanos acostumados à retórica anti-imperialista. “Não entendo, esse governo fala mal dos ‘gringos’ e agora vemos produtos americanos nas lojas e tudo está em dólar”, disse a professora Ligia Martínez, de 38 anos, segurando uma sacola com cereais, atum e mistura para bolo.

No ano passado, quando o bolívar se depreciou, Maduro suspendeu uma antiga proibição de transações em dólar. Embora os produtos ainda estejam fora do alcance da maioria dos venezuelanos, uma elite endinheirada é capaz de sustentar os bodegones. A Reuters encontrou 120 novas lojas em Caracas, principalmente em áreas de classe média, muito mais que os 27 supermercados que existem nas mesmas regiões.

Os donos dos bodegones compram online ou se associam a serviços de entrega. “Nossos clientes nos pedem para comprar no Costco ou no Sam’s Club (do grupo Walmart) nos EUA – e importamos tudo o que eles pedem”, disse o operador de uma empresa de transporte que importa suprimentos de Miami.

Pelo menos metade das lojas visitadas pela Reuters vende produtos da Members Mark, marca do Sam’s Club. Entre os itens mais populares estão mix de panquecas, Pringles, ketchup e cereais, geralmente vendidos por mais que o dobro do preço americano. Alguns bodegones compram de importadores atacadistas, o que significa que precisam aumentar os preços para ter lucro – o mix de panqueca que custa US $ 6,50 no Costco dos EUA chega a valer US$ 20 na Venezuela.

Alguns oferecem produtos importados via Instagram. “Vendo tudo que trago de Miami”, disse um pequeno comerciante. “Hoje, há mais concorrência, mas ainda é um bom negócio.”

Felipe Capozzolo, diretor da câmara de comércio Consecomercio, disse que os bodegones se tornaram uma parte não oficial da “política do Estado” para permitir que a Venezuela continue a ser abastecida mesmo sob as sanções, aliviando a pressão sobre o governo.

O próprio Maduro reconhece que as transações em dólar são “válvula de escape” para o sofrimento econômico. Embora os dados sejam escassos, o centro de estudos Econalítica estima que, em outubro, 54% das transações nas grandes cidades foram em moeda estrangeira.

Deisy Ruiz, secretária de 47 anos, contribuiu para essa estatística, comprando Nutella para o aniversário de seu filho de 20 anos em uma loja de Los Palos Grandes, em Caracas. “Só um pouquinho, para fazer um agrado”, disse. / REUTERS

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