Octavio Jones/NYT
Octavio Jones/NYT

Flórida vira terra sem lei em meio a busca por vacina e disparada de casos

Esforço bem intencionado do Estado, que abriu as portas do programa de vacinação para todas as pessoas a partir dos 65 anos, gerou longas filas, confusão e decepção

Patricia Mazzei, Eric Adelson e Kate Kelly, The New York Times

12 de janeiro de 2021 | 05h00

MIAMI – Linda Kleidienst Bruns se inscreveu no final de dezembro para tomar a vacina contra a covid-19, no primeiro dia em que o Departamento de Saúde de Tallahassee, na Flórida, passou a receber os pedidos das pessoas da sua idade. Apesar de ter 72 anos, com o sistema imunológico suprimido por medicamentos que mantêm o câncer de mama em remissão, ela passou dias esperando uma resposta sobre uma consulta.

“É uma coisa tão desorganizada”, disse. “Eu esperava que criassem um sistema que tivesse alguma lógica.”

Phyllis Humphreys, de 76 anos, na semana passada, aguardou com o marido numa fila de automóveis em Clermont, perto de Orlando, em uma estrada de acesso à Rodovia 27. Eles se apressaram a pegar o carro e percorreram 35 quilômetros depois de receber uma mensagem de texto dizendo que as doses da vacina estavam disponíveis. Mas às 9h43 da manhã, o site já estava com capacidade esgotada, e o casal voltou para casa sem nenhuma vacina.

“Estamos falando de vacinas”, disse Phyllis, ex-enfermeira de UTI. “Não estamos falando de mandar pessoas para a Tempestade no Deserto (Guerra do Golfo)”.

A Flórida se encontra em uma espiral de crescimento do número de casos, com quase 20 mil registrados só na sexta-feira e mais de 15 mil no sábado. Mas o esforço bem intencionado do Estado, que abriu as portas do programa de vacinação para todas as pessoas a partir dos 65 anos, gerou longas filas, confusão e decepção.

Em todo o país, os Estados, que correm para terminar a vacinação dos trabalhadores da saúde, os residentes das casas de repouso e os trabalhadores nas unidades de emergência, estão sendo pressionados pelos moradores para ampliar a vacinação a uma parcela maior do público. A Flórida, que já priorizou uma grande parcela da população para receber a vacina, mostra as dificuldades da expansão de um programa de vacinação que está sendo realizado com uma rapidez recorde e com uma assistência federal limitada.

“Como é que você faz algo tão enorme e o põe em prática?” perguntou Leslie M. Beitsch, presidente do departamento de ciências do comportamento e de medicina social da Universidade Estadual da Flórida. “Não surpreende – para quem o acompanhou de perto, evidentemente – que tenha havido uma espécie de processo e erros para pôr em marcha uma coisa desta magnitude, quer estejamos falando da Flórida ou do país como um todo”. 

As diretrizes dos Centros de Prevenção e Controle de Doenças recomendam que se dê a próxima prioridade, depois dos primeiros grupos, aos trabalhadores essenciais e às pessoas acima dos 75 anos. Alguns estados, como Flórida, Texas, Oklahoma e Alasca decidiram vacinar as pessoas a partir dos 65 anos, antes mesmo dos trabalhadores mais essenciais, e outros Estados seguiram o seu exemplo. 

Mas nos Estados e condados que precisarão estabelecer logística por conta própria, as coisas não estão tão tranquilas.

Muita gente acampou no gélido inverno da Flórida em Fort Myers e Daytona Beach, esperando que as vacinas fossem administradas na base de quem chegasse em primeiro lugar, e fosse atendido antes, num espetáculo que mereceu as manchetes nacionais. As repartições do Departamento de Saúde, em Sarasota e em vários outros condados, não estavam equipadas para marcar horários de vacinação das pessoas em seus sites, e tiveram de usar o Eventbrite, um serviço em geral usado para convites para jantares e mostras de arte.

O Condado de Palm Beach só aceitava solicitações de vacina por e-mail, disse a administradora de saúde do condado, Alma Alonso, depois que o sistema telefônico do condado “morreu definitivamente”.

As pessoas na fila foram avisadas de que talvez tivessem de esperar meses para a vacinação. No meio tempo, algumas pessoas ricas bem relacionadas em alguns hospitais conseguiram a vacina com maior facilidade. 

Além destas complicações, a Divisão de Gestão de Emergências da Flórida anunciou no domingo que o seu site para os testes de coronavírus e vacinação no Hard Rock Stadium, em Miami Gardens – o cenário das recentes filas intermináveis de pessoas à espera da vacinação – ficaria fechado na maior parte da segunda-feira para a realização da final do campeonato nacional de futebol americano universitário.

Especialistas afirmam que a Flórida é um exemplo do que acontece quando as autoridades tentam distribuir uma vacina cuja oferta é ainda muito limitada a um amplo espectro da população. Em um estado com cerca de 4,4 milhões de habitantes a partir dos 65 anos, até a sexta-feira foram administradas mais de 402 mil doses, segundo dados oficiais, o total mais alto da nação em termos de porcentagem. Mas a Flórida usou apenas cerca de 30% das doses que recebeu, ficando atrás de outros 29 Estados.

Algumas pessoas conseguiram, como Janice e Walter Greer, que estavam na mesma fila do casal Humphrey em Clermont, na quarta-feira. Janice Greer ligou para o condado de Lake várias vezes, na esperança de conseguir alguma informação sobre a disponibilidade da vacina. 

Walter Greer tem um irmão em Ohio com covid-19. “Não pude vê-lo”, disse chorando. “Ele está com pneumonia”.

No Texas, até a sexta-feira, cerca de 527 mil habitantes haviam recebido pelo menos a primeira dose da vacina, segundo o Departamento de Serviços de Saúde do Estado. Cerca de 107 mil deles tinham mais de 65 anos, do total de mais de 3,7 milhões de texanos desta faixa etária. Mas houve problemas semelhantes aos da Flórida.

Bob Kelly, um veterinário aposentado de Austin, Texas, com 77 anos, disse que fez mais de 20 telefonemas à procura de uma vacina antes de, finalmente, uma noite, às 3 horas da madrugada, conseguir marcar a imunizaçaõ em um hospital que ofereceu uma data vários dias mais tarde.

Ele e a esposa dirigiram mais de 40 quilômetros para chegar ao local, onde foram informados de que os estoques eram tão limitados que a vacina só seria dada às pessoas que apresentassem agravamento das condições de saúde. Portanto, agora estão de volta à estaca zero, e seus nomes estão em cinco listas de espera em farmácias, hospitais e no consultório de um médico.

“É isto que está acontecendo”, disse Kelly. “O processo é lento, o método da administração não é eficiente, e a coisa mais arbitrária é quem será vacinado”. 

Na Flórida, o governador Ron De Santis, republicano, admitiu que o começo da vacinação apresentou dificuldades.

Mas ele defendeu firmemente a decisão do Estado de abrir as portas a todos os idosos, afirmando que, em sã consciência, ele não poderia ver um jovem de seus 20 anos com as sacolas das compras sendo vacinado antes de um avô, pelo menos não em um Estado onde dos mais de 22 mil mortos pelo coronavírus, 83% tinham a partir de 65 anos.

A maior parte das doses de vacina destinou-se até o momento a pessoas entre os 65 e 74 anos e não para as de mais de 75, que são as mais vulneráveis ao vírus.

Parte do atraso nos números pode ser decorrência do fato de que pessoas idosas estão se mostrando excessivamente cautelosas para receber uma nova vacina produzida em tempo recorde. Mas os mais idosos também podem estar em desvantagem porque o processo exige frequentemente certo grau de habilidade no manuseio de um computador, que em geral não é claro ou coerente, disse Beitsch.

“Cada um dos nossos 67 condados aparentemente está tomando um caminho ligeiramente diferente – e isto é notável, porque nós temos um único Departamento de Saúde que deveria cobrir todo o Estado", afirmou Beitsch. O seu irmão, de 71 anos, com conhecimento de tecnologia, foi vacinado em Orlando depois de preencher um questionário, tarefa que lhe tomou cerca de 40 minutos.

O Departamento de Saúde da Flórida está trabalhando em um sistema de marcação de horários online para todos os condados, mas ainda não está pronto, embora o governo DeSantis afirme que vem se preparando para a vacinação desde julho. O Estado estocou milhões de equipamentos e contratou mais de 270 provedoras para receberem as doses assim que estivessem disponíveis.

O mais preocupante para as autoridades são as instituições particulares, que distribuem a vacina a pessoas que não constam em nenhum grupo prioritário.

O MorselLife Health System, uma casa de repouso e para idosos em West Palm Beach, está sendo investigado pelo inspetor geral da Flórida e pelo Departamento de Saúde depois de os jornais The New York Post e The Washington Post divulgarem que as vacinas eram desviadas para doadores ricos.

Perri Young, uma médica de Miami, disse que o processo de distribuição é desorganizado e ineficiente. Mesmo sendo profissional de saúde, afirmou, o seu acesso às informações é mínimo.

“Aqui é uma loucura,” declarou. “Parece que não há uma lei”.

No final da semana, Linda Kleindienst Bruns de Tallahassee recebeu boas notícias. O seu médico conseguiu algumas doses de vacina. Ela gostaria de tomar?

Tomou no sábado. “Foi tão fácil”, comentou. / Tradução de Anna Capovilla

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