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REUTERS/Thomas Peter
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Foco em origem do coronavírus em laboratório na China evidencia uso político da pandemia

Casa Branca foi informada de que uma grande quantidade de informações que ainda precisam ser examinadas pode lançar luz sobre as origens da pandemia

Annie Linskey, Shane Harris e David Willman / Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de maio de 2021 | 15h14

WASHINGTON POST - Os democratas do Senado dos Estados Unidos alinharam-se ao senador Josh Hawley, um dos republicanos mais radicais da casa, para apoiar uma medida que instava o governo de Joe Biden a divulgar informações sobre se o novo coronavírus se originou em um laboratório em Wuhan, na China. Um subcomitê da Câmara liderado pelos democratas está prometendo uma investigação ampla sobre as origens do vírus, incluindo o histórico de segurança do laboratório.

E o presidente Joe Biden, em uma declaração pública incomum, instruiu as agências de inteligência dos EUA a "redobrarem seus esforços" para determinar a causa da pandemia, sugerindo que, embora o vírus pudesse ter passado de animais para humanos, também poderia ter escapado do laboratório.

A Casa Branca foi informada de que uma grande quantidade de informações que ainda precisam ser examinadas pode lançar luz sobre as origens da pandemia, de acordo com um alto funcionário do governo.

A rápida evolução dos acontecimentos marcam um novo esforço dos democratas para mostrar que estão se esforçando para descobrir como a pandemia começou e, no processo, considerando uma teoria que alguns inicialmente atribuíram aos teóricos da conspiração: que a pandemia que custou cerca de 3,5 milhões de vidas em todo o mundo teve origem de erro humano no Instituto de Virologia de Wuhan.

Novas evidências desafiam cientistas

Essa tese está longe de ser conclusiva: nenhuma nova evidência significativa surgiu para apoiá-la, e as origens da pandemia podem nunca ser definitivamente conhecidas. Muitos cientistas ainda acreditam que o vírus passou naturalmente dos animais para os humanos. Mas alguns pesquisadores que rejeitaram a teoria no início começaram a reavaliar seus pontos de vista, e novas avaliações foram apresentadas em um artigo recente no Bulletin of the Atomic Scientists.

Os republicanos, que se sentem vingadores porque apontaram para o laboratório logo no início, têm pressionado a teoria do vazamento de laboratório de forma mais agressiva em audiências no Congresso e nos meios de comunicação conservadores. E os democratas dizem que a saída do ex-presidente Donald Trump, que sempre falava sobre a pandemia em termos racialmente carregados, torna mais fácil considerar a teoria sem tons potencialmente ofensivos.

O ressurgimento da discussão mostra o quanto o debate inicial sobre as origens do vírus foi influenciado pela política tribal que tomou conta dos Estados Unidos e do mundo, já que Trump e seus apoiadores insistiram na responsabilidade da China e muitos democratas rejeitaram a ideia imediatamente.

A polarização, que deixou muitos sentindo que deveriam abraçar uma teoria ou outra, foi exacerbada pela tendência de alguns da direita de fundir a teoria do vazamento de laboratório com ideias mais facilmente descartáveis, como a noção de que o coronavírus era parte de uma arma biológica chinesa.

“Como tudo o mais, essa investigação se politizou muito cedo”, disse o deputado Jamie B. Raskin, democrata, membro do subcomitê da Câmara para a crise do coronavírus.

Gestão da pandemia melhora nos EUA

Biden tem obtido altos índices de aprovação, pelo menos entre democratas e independentes, por sua forma de lidar com a pandemia. Ele aprovou um pacote de estímulo de US$ 1,9 trilhão, acelerou um programa de vacinação que começou sob a administração de Trump e começou a conduzir o país à normalidade após quase 600.000 mortes de americanos.

Durante grande parte desse esforço, os democratas se concentraram menos - pelo menos publicamente - na necessidade de determinar a origem da pandemia. Isso agora está levando a um esforço republicano para recuperar o mantra “siga a ciência” que os democratas usaram efetivamente em 2020 para se posicionar como o partido mais bem equipado para acabar com a pandemia.

Os republicanos também estão tentando usar o episódio para semear dúvidas sobre a capacidade de Biden de confrontar a China, com alguns dizendo que a relutância ostensiva de Biden em se concentrar no laboratório de Wuhan mostra que ele é indulgente com a superpotência em ascensão.

Depois que Biden anunciou na quarta-feira que deu aos funcionários da inteligência 90 dias para apresentar uma imagem mais clara das origens do vírus, os republicanos não perderam tempo alegando justificativa.

“A única razão pela qual Biden está fazendo isso é que está se tornando insustentável não verificar se o vírus se originou ou não em um laboratório chinês”, disse o senador Lindsey Graham.

Os democratas rejeitam as declarações do Partido Republicano como uma postura radical.

Cientistas menos céticos

Alguns legisladores democratas também disseram que nunca descartaram a teoria do vazamento do laboratório de Wuhan e que simplesmente se tornaram mais receptivos à medida que cientistas e epidemiologistas fizeram o mesmo.

“Os próprios pesquisadores estavam céticos sobre a possibilidade do vazamento do laboratório”, disse a deputada Diana DeGette, democrata, que preside um poderoso painel de supervisão no Comitê de Energia e Comércio da Câmara.

DeGette disse que nos últimos dias tem conversado com o principal republicano de seu subcomitê para determinar a melhor forma de investigar as origens do vírus. Ela disse que seu painel até agora se concentrou em questões de emergência, como vacinar americanos.

Não tivemos realmente o luxo de sentar e dizer:‘ Ok, agora o que aconteceu naquele laboratório?’”, disse DeGette. “Mas acho que precisamos chegar a esse problema.”

Alguns democratas argumentaram que a ênfase renovada dos republicanos na teoria do laboratório foi um esforço para mudar o foco da manipulação da pandemia pelo governo Trump.

“Os democratas se interessaram desde o início”, disse Raskin. “Mas também reconhecemos a maneira pela qual essa pergunta pode ser usada como uma distração das próprias falhas miseráveis da administração Trump em lidar com o vírus.”

Falta de consenso na investigação

A decisão de Biden de revelar publicamente uma divisão dentro das agências de inteligência sobre as origens do coronavírus pode refletir sua frustração por ainda não terem chegado a um consenso, segundo ex-funcionários da inteligência afirmaram ao Post.

Biden inicialmente pediu à comunidade de inteligência para examinar as origens da pandemia em março. Cerca de duas semanas atrás, ele recebeu os resultados dessa investigação em seu briefing diário presidencial, de acordo com um funcionário da Casa Branca.

Enquanto Biden e seus principais assessores digeriam os resultados da análise inicial da inteligência, altos funcionários da Casa Branca perceberam que havia mais perguntas que eles poderiam tentar responder. Biden então solicitou a desclassificação de pelo menos alguns dos resultados iniciais, o que mostrou que a comunidade de inteligência estava dividida sobre se o vírus veio da natureza ou do laboratório de Wuhan.

O presidente decidiu dar o passo incomum de revelar um debate inconclusivo entre as agências de inteligência por causa do interesse público em entender as origens do vírus, mas também por causa do “turbilhão em torno do assunto”, disse o funcionário da Casa Branca, referindo-se ao a renovada conversa pública em torno da teoria do vazamento do laboratório.

Outro fator, disse o funcionário, foi a decisão da China de sinalizar em uma reunião da Organização Mundial da Saúde que não apoiaria os próximos passos em uma investigação internacional sobre as origens. “A parte da China foi concluída”, disse um delegado chinês na reunião.

Isso "acelerou e intensificou nosso desejo de divulgar o que sabíamos de nossa própria investigação e compartilhá-lo o mais rápido possível", disse o funcionário da Casa Branca.

Especialistas que têm pressionado por mais escrutínio da hipótese de vazamento de laboratório aplaudiram o apelo de Biden por mais investigação. Jamie Metzl, funcionário do Conselho de Segurança Nacional na administração Clinton e membro de um painel consultivo da Organização Mundial da Saúde, chamou a declaração de "sólida e razoável".

Ainda assim, Metzl, que ajudou a organizar uma carta aberta pedindo mais escrutínio do laboratório de Wuhan sem restrições pelas autoridades chinesas, disse que a declaração "não vai longe o suficiente" ao pedir à OMS que ordene uma investigação completa.

A declaração de Biden veio depois que os republicanos do Congresso pressionaram a teoria do laboratório com vigor renovado por vários meses. O senador republicano Rand Paul pressionou Anthony Fauci, o principal especialista em doenças infecciosas do governo, quando ele compareceu a um painel do Senado no início deste mês, dizendo que os funcionários do governo foram inequívocos sobre as origens do vírus.

“Sou totalmente a favor de qualquer investigação posterior do que aconteceu na China”, respondeu Fauci.

O senador John Neely Kennedy, republicano, também pressionou Fauci em uma audiência diferente, questionando-o sobre por que os Estados Unidos forneceram financiamento por meio de um subcontrato para o laboratório de Wuhan. Fauci respondeu que “a China é um lugar lógico para obter financiamento para estudar os coronavírus, já que foi lá que eles surgiram”.

Cerca de dois meses atrás, os líderes republicanos do Comitê de Energia e Comércio da Câmara começaram a buscar detalhes sobre a origem da pandemia em agências federais e cientistas financiados pelos EUA que colaboraram com pesquisadores chineses.

Eles escreveram uma carta de 11 páginas com mais de 30 perguntas e solicitando uma série de documentos do National Institutes of Health, principalmente em relação ao trabalho realizado por beneficiários de financiamentos que colaboraram com o laboratório de Wuhan.

O laboratório fez experiências com muitas espécies de morcegos e as várias cepas de coronavírus que eles carregam, e os primeiros casos de covid-19 foram relatados no final de 2019 na cidade de Wuhan e arredores.

Embora assessores dos republicanos na Câmara tenham procurado por um período de semanas obter apoio bipartidário para uma investigação sobre a causa da pandemia, nenhum dos democratas se apresentou. Mas em 14 de maio, uma democrata, a deputada Anna G. Eshoo (Califórnia), concordou em se alinhar aos republicanos.

Eshoo emitiu um comunicado aplaudindo um grupo de 18 cientistas que tinham acabado de escrever, na revista Science, que uma investigação "transparente, objetiva e baseada em dados" é necessária para determinar a origem da pandemia. “Se você pegar uma política partidária e misturá-la com a ciência, é uma combinação tóxica”, disse Eshoo em uma entrevista. “Um não combina com o outro.”

 

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