Fogo e racismo no futebol de Israel

Incêndio na sede do clube Beitar Jerusalém ocorre após contratação de dois jogadores muçulmanos

O Estado de S.Paulo

09 de fevereiro de 2013 | 02h06

Um incêndio ontem na sede do principal clube de futebol de Jerusalém trouxe à tona o debate sobre o crescente racismo anti-islâmico na sociedade israelense. A polícia suspeita que torcedores do próprio Beitar Jerusalém atearam fogo ao prédio revoltados com a contratação de dois jogadores muçulmanos da Chechênia. O time era o único de Israel a manter uma política de colocar em campo apenas atletas judeus e seus torcedores são conhecidos pela violência e radicalismo de extrema direita.

Até o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, entrou na história ao condenar o "vergonhoso" ataque. "Não podemos aceitar esse comportamento racista", afirmou o premiê. "O povo judeu, que sofreu perseguições e expulsões, deve ser um exemplo." Grande parte da torcida do Beitar Jerusalém vota no partido de Netanyahu, o direitista Likud.

O fogo que tomou o prédio no amanhecer de ontem consumiu toda a sala de troféus do time. Camisas históricas, fotos, bandeiras e livros sobre a história do time também foram destruídos. "Toda a história do Beitar Jerusalém", lamentava o porta-voz do clube, Asaf Shaked. Ele prometeu que a diretoria do clube "continuará a lutar contra esses torcedores" e "abraçará os dois novos atletas".

No último jogo da equipe, quando já havia sido confirmada a contratação dos dois jogadores chechenos, a torcida abriu uma bandeira na arquibancada com um recado: "Beitar puro para sempre". A frase, semelhante às usadas na Alemanha nazista para justificar a expulsão de judeus de clubes esportivos, foi motivo de amplo debate nos jornais israelenses. Quatro torcedores foram indiciados por incitação ao ódio.

O pior caso envolvendo a torcida ocorreu no ano passado. Aos gritos de "Morte aos árabes", fãs do Beitar Jerusalém invadiram um shopping center e atacaram funcionários árabes.

Um dos jogadores chechenos está machucado e o outro deve entrar em campo pela primeira vez contra um time de Sakhnin, cidade árabe-israelense, no domingo. A ministra da Cultura e dos Esportes de Israel, Limor Livnat, prometeu comparecer ao estádio.

Eli Abarbanel, procurador israelense e torcedor do Beitar, disse que o ataque de ontem representa "um fenômeno sério de racismo na sociedade israelense". Para Itzik Kornfein, presidente do clube, o caso "tem ramificações na sociedade de Israel e na forma como israelenses veem o mundo". / NYT

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