Stephen Lam/ Reuters
Stephen Lam/ Reuters

Fogo nos EUA castiga região de idosos

Pelo menos 29 dos 44 mortos são moradores de Paradise, cidade conhecida por abrigar aposentados; há mais de 200 desaparecidos

Scott Wilson,  THE WASHINGTON POST, O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2018 | 22h22

Os que se mudam para Paradise, Califórnia, geralmente esperam viver o restante de suas vidas na paz das colinas. O que 29 deles não esperavam era que suas vidas seriam tão violentamente encurtadas pelas chamas que os surpreenderam em casa, no carro e até caminhando.

A cidade-santuário de aposentados foi carbonizada. Sobreviventes estão dispersos pela Califórnia, alojados em abrigos, hotéis e casas de famílias situadas longe das chamas. Dirigindo por oito quilômetros a partir da cidade, sob um inquietante céu alaranjado, não se encontra mais de meia dúzia de construções que escaparam do fogo. 

“As pessoas fogem e depois voltam para pegar o que sobrou”, disse Mike Conaty, capitão do Departamento Florestal e de Proteção contra Incêndios (CalFire) da Califórnia. 

Na segunda-feira, Conaty despachava equipes de resgate para percorrer casa por casa à procura dos mais de 200 moradores ainda desaparecidos. O mais provável é que sejam encontrados corpos carbonizados em lugar de sobreviventes.

O incêndio florestal avançou para oeste na manhã de quinta-feira por meio do vale do Rio Feather, nos limites da cidade. Atiçadas por ventos de 80 km/h, as chamas avançaram tão rapidamente que muitos moradores foram simplesmente tragados por elas. Com a descoberta de mais 13 corpos, 10 deles em Paradise, o número de mortos na região chegou a 44, o que faz deste incêndio o mais mortífero da história do Estado. 

O incêndio ganha uma feição particularmente cruel ao se considerar a demografia da cidade. Paradise é uma velha cidade com uma população de idosos. A média de idade local é 50 anos, mais de uma década mais alta que a média estadual e nacional. Comunidades de aposentados e órgãos que cuidam da saúde dessas pessoas são a base da economia de Paradise. 

Cinco pessoas morreram na Edgewood Lane. Ainda saem chamas de um transformador destruído e de bases de postes telefônicos. Apenas as chaminés de tijolos continuam de pé, como estranhos marcos entre as cinzas em um Estado em que a estação dos incêndios parece não ter fim. 

Sol Bechtold procurava havia cinco dias pela mãe, Joanne Caddy, de 75 anos. Betchtold, que mora na Bay Area, em São Francisco, disse que tentou falar com ela na quinta-feira à noite, mas o telefone estava mudo. Joanne vivia em Magalia, perto de Paradise. 

Ele já visitou 15 abrigos. Pede a todos os policiais que procurem informações nos registros. Distribuiu folhetos. Mas ainda não encontrou vestígios da mãe. “Sinto-me totalmente impotente”, disse Bechtold. “Ela está aqui há 52 anos e como não saía de casa obviamente pensei no pior. Mas me recuso a aceitar que seja o fim. Quero acreditar que minha mãe conseguiu fugir do fogo.” 

O Escritório dos Serviços de Emergência do Condado de Butte decidiu alertar apenas aqueles que optaram pelo sistema de alerta do condado em lugar de se informar pelas difusões de maior alcance. Não se sabe ainda se os que morreram receberam os alertas.

A causa do incêndio ainda não foi determinada, mas a PG&E, empresa responsável pelo fornecimento de gás e energia elétrica, informou que havia problemas em linhas elétricas perto de Paradise dias antes de o fogo começar. 

A empresa, cujos equipamentos foram considerados a causa de focos de incêndio no ano passado, procurou neste ano aprovar uma lei que a isenta de incêndios causados por seus equipamentos. A legislatura estadual não aprovou a lei. A PG&E diz que enfrentará enormes problemas financeiros se tiver de continuar pagando indenizações por incêndios. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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