Robert Oerlemans/AP
Robert Oerlemans/AP

Austrália usa navio para retirar população isolada pelo fogo em zona turística

Milhares de pessoas terão de abandonar áreas da costa sudeste do país; 18 já morreram desde setembro por causa de incêndios que estão fora de controle

Redação, O Estado de S.Paulo

02 de janeiro de 2020 | 08h41

SYDNEY  - As condições climáticas – ventos fortes e altas temperaturas – agravaram os incêndios florestais na Austrália. O governo autorizou ontem o uso de um navio da Marinha para resgatar até 4 mil pessoas cercadas pelas chamas que castigam o litoral e provocaram mortes, especialmente em pequenas cidades costeiras entre Sydney e Melbourne.

A situação em Mallacoota, uma praia conhecida por receber famílias durante a época de feriados, é tão dramática que equipes de resgate passaram ontem o dia checando quem é capaz de subir escadas de pequenos botes até a embarcação militar. Aqueles não aptos que desejarem fugir serão retirados de helicóptero, mesmo que a fumaça – que já atingiu a Nova Zelândia – tenha tornado os voos mais perigosos.

O governo australiano recomendou a milhares de habitantes que deixem algumas zonas turísticas da costa sudeste do país até amanhã, quando as condições de combate incêndios no país devem piorar, com rajadas de vento e temperaturas superiores a 40ºC.

Os bombeiros do Estado de New South Wales pediram aos turistas que abandonem duas zonas costeiras de quase 300 quilômetros de comprimento, da cidade de Nowra (200 km ao sul de Sydney) até o Estado de Victoria. 

As chamas provocaram pelo menos oito mortes apenas nos últimos dois dias e reduziram a cinzas centenas de hectares de florestas no primeiro dia do ano. Desde setembro, 18 pessoas morreram em razão dos incêndios. Há pelos menos 17 desaparecidos.

Nas cidades de Ulladulla, Milton, Nowra e Bateman’s Bay era possível observar ontem longos engarrafamentos nas estradas que levam a Sydney e Melbourne. Os bombeiros de várias pequenas localidades já afirmaram quem não têm condições de apagar ou controlar os incêndios. O objetivo agora é não deixar ninguém em áreas atingidas pelas chamas. 

Desde o início da temporada de incêndios, que começa entre agosto e setembro, mais de 1.300 casas foram destruídas pelas chamas e uma área de 5o mil quilômetros quadrados foi devastada, uma superfície maior que o Estado do Rio de Janeiro. 

Ontem, pela segunda noite consecutiva, turistas permaneceram isolados em áreas sem energia elétrica e sinal de celular, com poucas reservas de alimentos. “A retirada de pessoas da zona restrita aos turistas será a mais importante já feita na região”, declarou Andrew Constance, ministro dos Transportes de Nova Gales do Sul.

O premiê australiano, Scott Morrison, foi xingado por moradores durante uma visita à cidade de Cobargo. Surpreendido com as ofensas, Morrison pediu “paciência” à população. “Eu sei que muita gente está vivendo com os filhos dentro de carros. Há muita ansiedade e estresse. O trânsito não se move. Mas a melhor coisa a fazer é ter paciência”, disse.

Muitos australianos culpam Morrison pela falta de reação aos incêndios. Recentemente, o premiê reiterou seu apoio à lucrativa, mas poluente indústria do carvão australiana, responsável por boa parte das emissões de carbono do país. Nos últimos dias, Morrison tem tentado dissociar o aquecimento global da mais catastrófica temporada de incêndios da história da Austrália.

Incêndio fora de controle

O vice-comandante dos bombeiros de Nova Gales do Sul, Rob Rogers, afirmou que a corporação não tem condições de apagar ou controlar os incêndios do país. "Há tantos incêndios nesta região que não conseguimos contê-los. Temos que assegurar que ninguém fique no caminho", declarou. John Steele, 73 anos, vive nas proximidades Merimbula, na costa sul. Ele contou que algumas pessoas foram "vítimas de pânico" após as ordens de evacuação. Steele permanece na região com sua esposa, apesar da situação caótica, como descreve, com a falta de alimentos e gasolina. 

"Ficamos felizes de ver que todos deixam a cidade", disse, antes de afirmar que optou pela "prudência" e já preparou as malas. As autoridades não conseguiram entrar em contato com todos os moradores das regiões rurais mais isoladas. Mais de 400 casas foram destruídas nos últimos dias, número que deve aumentar à medida que os bombeiros consigam chegar às localidades mais remotas. /AFP e AP


 

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