AP-23/4/2004
AP-23/4/2004

'Foi a década perdida dos EUA'

Guerra ao terror fez Washington se ocupar em conciliar sunitas e xiitas, pashtuns e tajiques, e perder de vista seu maior desafio hoje: construir uma ordem que acomode novas potências - como China, Índia e Brasil

Roberto Simon, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Entrevista

Fareed Zakaria

Acadêmico e jornalista indiano-americano

Nascido em Mumbai, doutor por Harvard, Fareed Zakaria é colunista da revista "Time" e apresentador da CNN. Ele escreveu livros sobre as potências emergentes e o futuro da democracia no mundo

Quando o segundo avião atingiu o World Trade Center, Fareed Zakaria cruzava a ponte de Manhattan a caminho da praia dos Hamptons, onde pretendia se enfurnar por um mês para escrever um livro. Um CD de Mozart tocava alto no carro, enquanto ele seguia viagem perfeitamente desinformado. Por volta das 9h30, Zakaria caiu em um congestionamento e sintonizou o rádio. "Escutei o impensável", relembra.

O intelectual indiano-americano de Harvard deu meia-volta, mas a ponte para Manhattan já estava fechada. Teve de seguir até os Hamptons, entre telefonemas desesperados à mulher - com quem só conseguiu falar 18 horas depois. Seu melhor amigo desapareceu nos escombros do que viria a ser chamado de "Marco Zero".

Hoje, ao analisar o mundo desde que cruzou aquela ponte de Manhattan, Zakaria repete uma palavra - "exagero" - para descrever tanto a forma como os EUA à época perceberam a ameaça da Al-Qaeda quanto a reação americana aos ataques. Ao superestimar o 11 de Setembro, defende, Washington perdeu de vista seu real desafio hoje: moldar uma nova ordem internacional em meio à emergência de potências como China, Índia e Brasil. A seguir, trechos da conversa por telefone com o Estado.

Em 11 de setembro de 2001, havia um sentimento geral de que estávamos vendo uma guinada na História, mas o sr. diz que essas previsões foram exageradas. Por quê?

Quando olharmos para trás na História, veremos dois grandes exageros. O primeiro, quanto ao poder da Al-Qaeda. Eles tiveram sorte e, para nos atacar, conseguiram se aproveitar de brechas num mundo caracterizado pela desordem no comércio, troca de informação e tecnologia. Respondemos de forma vigorosa à ameaça - não falo do Afeganistão e Iraque, mas de medidas de contraterrorismo. Rapidamente rastreamos os líderes e seu dinheiro. Com isso, o que temos hoje são pequenos grupos terroristas ao redor do mundo, mas que só conseguem operar dentro de suas áreas e, ironicamente, perdem apoio local ao matar sua própria população.

O segundo ponto é que lembraremos do 11 de Setembro mais pela reação exagerada dos EUA do que pelos atentados. Foram lançadas duas amplas guerras - Afeganistão e Iraque -, longas e custosas demais. A resposta aos ataques mudou mais o mundo do que os próprios atentados.

Como essa reação "exagerada" enfraqueceu os EUA - da perda de legitimidade internacional ao endividamento que vemos hoje?

Há várias formas de considerar o impacto de US$ 2 trilhões gastos no Afeganistão e no Iraque sobre o poder americano. Mas é preciso atentar para um custo muito maior: a perda de foco da política externa dos EUA, que se prendeu na chamada "guerra ao terror", em vez de encarar o desafio principal, que é a ascensão de novas potências. Há uma falta de estratégia para assegurar que os EUA permaneçam competitivos e economicamente viáveis nesse novo mundo. Vejo estes dez últimos anos como a década perdida dos EUA.

Uma década perdida também em âmbito político e diplomático?

Sem dúvida. Nosso maior desafio é construir laços estratégicos com países como China, Índia e Brasil, e criar uma nova estrutura internacional que não dependa tanto do poder americano, mas que seja capaz de atrair essas novas potências para dentro do sistema. Assim, elas se sentirão obrigadas a respeitar e manter as regras. Ainda estamos na velha ordem, com os EUA - e em menor medida, a Europa - a prover os recursos, enquanto países como Índia e Brasil limitam-se a perseguir interesses individuais. Mas há um ponto de tensão: as "velhas potências" não são mais o que eram, os novos poderes são muito mais dinâmicos, mas a estrutura global permanece a mesma. Essa deve ser a principal preocupação dos EUA e não como fazer xiitas e sunitas se entenderem no Iraque, ou pashtuns e tajiques no Afeganistão.

O sr. foi aluno de Samuel Huntington, autor da teoria do "choque de civilizações" - a ideia de que, após a Guerra Fria, o embate entre culturas seria a nova fonte de conflitos no mundo. Desde o 11 de Setembro, de políticos de extrema direita ao próprio Bin Laden passaram a usar a expressão "choque de civilização" para referir-se a uma oposição inexorável entre Islã e Ocidente. Como o sr. vê isso?

O Islã realmente é a civilização mais relutante em aceitar o mundo globalizado. Mas é preciso ler a mensagem da primavera árabe: essas populações querem "alcançar" o restante do mundo. É, portanto, um erro falar na incompatibilidade entre o Islã e o mundo moderno. O choque que existe é dentro da civilização islâmica, entre uma maioria de moderados e uma minoria reacionária.

O sr. vê a primavera árabe como a resposta dos moderados aos radicais. É isso?

A maioria árabe aspira a uma vida moderna. Eles não estão fazendo manifestações por um califado do século 8, mas por democracia, justiça e dignidade. Haverá altos e baixos, e temos de ser cautelosos para aceitá-los sem dar às derrotas uma dimensão exagerada. As revoluções de 1989 fizeram belas democracias na Polônia e República Checa, mas ditaduras no Tajiquistão e Turcomenistão. Do mesmo jeito, a primavera árabe terá sucessos e fracassos. Mas a questão central do movimento é o desejo de alcançar o mundo moderno, globalizado.

Obama foi eleito com a promessa de acabar com entulhos da guerra ao terror, como Guantánamo, mas não conseguiu. Por quê?

Lidar com esses terroristas é muito complicado - e os liberais americanos parecem não entender isso. Quando as pessoas falam da ilegalidade de Guantánamo, elas se referem a um sistema com base nas Convenções de Genebra. Mas esses tratados se referem a conflitos em que o inimigo está identificado com um uniforme e tem por objetivo matar soldados, não um terrorista que se esconde na população e mata civis.

O sr. está falando que Guantánamo é moral, politica ou juridicamente justificável?

Estou falando que Guantánamo foi uma solução para um problema muito difícil. A questão principal é a seguinte: desde o 11 de Setembro os EUA de fato fizeram algumas coisas que representam violações de liberdades civis, mas houve um exagero por parte dos críticos. Mesmo com todas as medidas tomadas, os EUA não chegaram nem perto do nível de poder policial que é rotineiramente usado pela França ou Grã-Bretanha.

Daqui a dez anos, quando um jornalista telefonar ao sr. para falar sobre os "20 anos do 11 de Setembro", o que o sr. imagina que será discutido?

Mais do que qualquer coisa, acho que vamos nos perguntar "por que os EUA ficaram com tanto medo?". "Como um pequeno grupo de malucos nos assustou tanto e como eles conseguiram sequestrar nossas políticas externa e econômica?" Deveríamos ter ficado mais tranquilos e mantido o foco nos grandes desafios do mundo. Provavelmente ainda não é tarde demais para mudar. Mas, dentro de dez anos, ou teremos feito os ajustes para voltar à realidade e à sanidade, ou testemunharemos o inevitável declínio dos EUA.

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