William Lopez/NYT
William Lopez/NYT

'Foi a religião', diz mãe de acusado de terrorismo em NY

Segundo ela, José Pimentel, era 'amigável e extrovertido' antes de conversão

LUCIANA ANTONELLO XAVIER , CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 03h05

NOVA YORK - A notícia de que seu filho queria promover ataques terroristas nos EUA ainda parece um pesadelo para a dominicana Carmen Sosa, de 55 anos. Em entrevista ao Estado em Nova York, Carmen disse que não consegue acreditar na prisão de seu caçula, José Pimentel, de 27 anos, e não pode dormir pensando nisso.

"A cabeça fica dando voltas", afirmou, com ar meio aéreo, olhar sempre baixo. Carmen disse ter passado mal durante o depoimento do filho, na segunda-feira, no Tribunal Criminal de Manhattan. Ela teve de ser retirada do local, não trabalhou no dia seguinte e vem pedindo "um pouco de sossego".

Na frente do prédio onde mora, uns 25 jornalistas da imprensa americana tentam subir ao seu apartamento e são contidos pela polícia. "Eu não tenho como segurar essas pessoas se ela (Carmen) os convida para entrar", disse o policial Ahmed.

Dominicano naturalizado americano, Pimentel foi preso no domingo acusado de conspiração por comprar material para construir uma bomba caseira com propósitos terroristas. Ele vinha sendo observado pela polícia havia cerca de dois anos. Sua prisão ganhou destaque em todos os canais de TV e jornais dos EUA e do mundo. Pretendia testar suas bombas em caixas de correio e carros da polícia e, então, partir para ataques maiores em agências postais, postos policiais e contra soldados que lutaram no Afeganistão e no Iraque e já retornaram aos EUA. Se condenado, poderá pegar de 15 anos de prisão à prisão perpétua. Ele deveria depor novamente hoje.

Carmen afirmou que seu filho se converteu ao islamismo há cerca de quatro anos e, desde então, seu comportamento mudou. De moço extrovertido, "amigável", passou a ser um homem fechado, de um ou dois amigos. Nada mais de dançar salsa ou ouvir as canções românticas do mexicano Cristian Castro. "Foi a religião", acredita. "Ele tem muitos conhecidos, mas ninguém vinha em casa. Tinha dois amigos, se tanto, embora conhecesse muita gente."

Pimentel não tinha namorada. Ele teve um casamento breve, que resultou num filho hoje com 3 anos e terminou no início de 2010. Foi quando ele voltou a morar no apartamento da Rua 137 do bairro Hamilton Heights, perto do Harlem - com a mãe, o tio, irmão de Carmen, e a avó, de 92 anos, que tem doença de Alzheimer. Carmen disse que Pimentel não tinha contato com o filho e a ex-mulher. Ela tampouco via o neto. Aliás, Carmen pouco via o próprio filho.

A mãe trabalha como gerente numa ONG, sete dias por semana, segundo ela. "Chegava em casa, cansada. Conversávamos um pouco sobre qualquer coisa e nunca vi nada de anormal no seu quarto, como estão mostrando na TV agora." Carmen contou que compartilhava o computador com o filho. "Mas ele é muito reservado e não queria que eu tivesse acesso ao que ele escrevia. Então, fazia questão que cada um tivesse sua senha."

Pimentel não trabalhava havia mais de dois anos. Estudou nas escolas públicas da vizinhança até o ensino médio e seu último trabalho foi em 2008, num supermercado. "Agora ele estava atrás de um novo trabalho", garante a mãe. Os outros filhos de Carmen, uma de 28 e outro, de 30 anos, trabalham e levam uma vida pacata. A filha trabalha como gerente numa loja e o filho mais velho, numa companhia de seguros. Todos nasceram na Republica Dominicana. A mãe de Carmen chegou aos EUA nos anos 70. Carmen veio com os três filhos em 1987. Pimentel tinha 3 anos na época.

Moradores do prédio no qual a família mora comentam sobre a aparência gentil de Pimentel. "José sempre foi muito amável. Quanto à religião, ele disse que gostava e era maior de idade. Eu respeitei", explicou a mãe.

"Às vezes a gente quer mudar os filhos, mas depois que se tornam maiores eles não querem mais obedecer. Eles vão fazer o que pensam que é bom para eles", disse. "Ele começou a gostar das ideias do Islã. No princípio ele só ficava lendo coisas sobre isso. Depois, entrou na religião. Frequentava uma mesquita na Rua 96th, esquina com a 3.ª Avenida. Mas não havia nada estranho. Eu o via como uma pessoa normal, sempre rezando. Cada vez que ia comer rezava, cada vez que ia sair, rezava."

Carmen disse que todos os demais parentes são católicos. Quando soube da operação contra Osama bin Laden, em maio, Pimentel disse não acreditar na versão de que ele estava morto, segundo a mãe. Mas ela afirma que ele não ficava falando sobre Bin Laden ou a Al-Qaeda com ela. Pimentel completou 27 anos no dia 8. Sem festa, sem bolo, sem parabéns. "Ele não gostava que fizessem nada, que dessem parabéns." / AGÊNCIA ESTADO

Tudo o que sabemos sobre:
TerrorismoJose Pimentel

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.