'Foi criminosa a retirada da ONU', diz general sobre operação em Ruanda

Responsável pela intervenção da França culpa a ONU por não ter evitado a morte de 800 mil pessoas

Entrevista com

Andrei Netto, Correspondente - O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2014 | 02h01

PARIS - As acusações feitas pelo presidente de Ruanda, Paul Kagame, contra a França indignaram políticos e militares do país. Entre os mais ofendidos está um general, Jean-Claude Lafourcade, comandante da Operação Turquesa, intervenção militar feita pelas Forças Armadas da França, com o aval da ONU, em 1994. Em entrevista exclusiva ao Estado, Lafourcade defendeu incondicionalmente a operação.

Paul Kagame vem acusando a França de ter sido um "ator" do genocídio ruandês em 1994. O que o sr. pensa a respeito?

Essas acusações são graves, infundadas e inaceitáveis. A França participou da Operação Turquesa, que comandei em 1994, sob estrito mandato das Nações Unidas. Por responsabilidade da comunidade internacional, chegamos a Ruanda dois meses e meio depois do início do genocídio, portanto, um pouco tarde. A operação, porém, salvou pelo menos 15 mil vidas e permitiu proteger outras tantas - o que não é pouco. A operação foi exercida no quadro da legislação internacional, com toda transparência, com muitos observadores internacionais e mais de 300 jornalistas. Nenhuma acusação grave foi feita à época.

A Operação Turquesa foi humanitária ou militar?

Podemos questionar. A França enviou a Ruanda uma força militar robusta, bem equipada e bem treinada. No entanto, é preciso lembrar a razão. Em outubro de 1993, alguns meses antes, portanto, os EUA haviam enfrentado a Batalha de Mogadíscio, que resultou em confrontos e na morte de soldados, o que teve consequências graves e pôs fim à operação americana na Somália. Em Ruanda, meses depois, a Frente Patriótica Ruandesa (FRP) fez ameaças às Forças Armadas francesas e, por isso, deslocamos uma força poderosa.

O Exército francês é acusado de ter protegido ou permitido a fuga de líderes políticos responsáveis pelo massacre.

Nós chegamos em 22 de junho de 1994, dois meses e meio após o início do massacre. Depois das semanas de discussão e da decisão da ONU, todos os principais responsáveis políticos pelo genocídio haviam fugido para o Zaire (atual República Democrática do Congo). Só havia um segundo escalão no país. Não tínhamos ordens das Nações Unidas para agir além das fronteiras estabelecidas.

Que poderia ter sido diferente?

Nenhuma outra nação quis ir a Ruanda proteger a população ameaçada. Para mim, foi criminoso a ONU retirar seus soldados semanas antes do genocídio. A França havia prestado assistência militar ao presidente Juvenal Habyarimana, mas não se pode dizer, de forma alguma, que os que cometeram o genocídio tenham sido os soldados treinados pela França. Os que praticaram o genocídio eram jovens, pessoas comuns com facões à mão e não armas de grosso calibre.

A França também retirou seus soldados de Ruanda dias antes do genocídio.

Quando a rebelião do FPR, vinda de Uganda, atacou o governo, em 1990, Habyarimana pediu ajuda à França. Então, houve o Acordo de Arusha, assinado em agosto 1993, que garantiu o compartilhamento do poder entre as duas etnias, hutus e tutsis. A França cumpriu sua parte nesse acordo, retirando suas tropas. Por isso, não havia soldados franceses em Ruanda durante o genocídio. Eis um fato importante: se os soldados franceses tivessem permanecido, não teria acontecido genocídio.

Olhando para os fatos 20 anos depois, que impressão fica?

O genocídio foi uma explosão incontrolável de uma violência que vinha crescendo havia dois ou três anos, por meio de ataques da FPR e de enfrentamentos entre rebeldes e forças de ordem. Havia ainda o fator histórico da dominação de uma etnia pela outra, que deixara marcas profundas nos dois lados. Essa tragédia inaceitável foi fruto de um cenário muito complexo em Ruanda. Toda simplificação é perigosa.

Qual o papel da França na África hoje?

Ele está sempre dentro das operações aprovadas pela ONU, em socorro às populações locais. A França vai a países onde a população civil tem lutado entre si e não entra em choque contra as Forças Armadas de nenhum país.

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