'Foi massacre de civis desarmados, crianças e mulheres'

Premiado fotógrafo do 'NYT' estava ao lado do shopping quando teve início o ataque e registrou primeiras imagens

Entrevista com

James Estrin, O Estado de S.Paulo / The New York Times

24 de setembro de 2013 | 02h06

O fotógrafo do New York Times Tyler Hicks, nascido em São Paulo, no Brasil, estava perto do shopping center Westgate, em Nairóbi, quando militantes somalis abriram fogo e mataram dezenas. Hicks, veterano de coberturas em países como Afeganistão e Iraque, ganhador de vários prêmios importantes, entrou no centro de compras, onde registrou as primeiras imagens da carnificina que correram o mundo.

Como você chegou tão perto?

TYLER HICKS - Estava numa loja de molduras perto do shopping center para buscar algumas fotos que recebi de presente de casamento de amigos fotojornalistas. Estava muito perto, mas não tinha comigo todo meu equipamento, somente uma pequena câmera que sempre carrego para o caso de algo inesperado ocorrer. Corri para o shopping e consegui fazer algumas fotos até minha mulher, que também é fotojornalista e estava em casa, trazer-me meu capacete e câmeras profissionais. Quando saí da loja de molduras, percebi que algo sério estava ocorrendo, pois havia muitas pessoas deixando às pressas do shopping. Corri para lá e vi pessoas feridas na perna ou no estômago sendo ajudadas por outros civis. Isso durou cerca de 30 minutos. O shopping center em questão é o mais luxuoso de Nairobi, não deixa nada a desejar a similares nos EUA e Europa, com cinemas, belos cafés, supermercados e um cassino. Tem tudo o que você precisa. Estive lá e conhecia todo o espaço interno. Logo de início procurei alguns seguranças dentro do shopping. Conseguimos encontrar uma entrada por onde pessoas que haviam se escondido estavam saindo. Entramos por ali e passamos a acompanhar alguns policiais, enquanto realizavam uma varredura nas lojas - similar ao que os soldados fazem quando entram num vilarejo.

Tive uma nítida visão do que ocorria ali. Vi muitos corpos sem vida espalhados pelo chão. Algumas vítimas provavelmente estavam almoçando.

As forças militares não sabiam onde estavam os terroristas, de modo que continuaram na sua busca. Existia o temor de bombas caseiras ou que (os militantes) lançassem granadas ou atirassem. No shopping, há inúmeros locais onde se esconder.

Quanto tempo você permaneceu no local?

TYLER HICKS - Estive ali perto a maior parte do dia. Dentro do shopping, fiquei cerca de duas horas.

O que se estava ocorrendo exatamente durante essas duas horas?

TYLER HICKS - Ficamos ao lado de um grupo de policiais quase todo o tempo. Houve momentos em que me afastei deles. E se você ficasse para trás e eles continuassem, acabava completamente sozinho - e ninguém sabia onde os atiradores se escondiam. Assim, era importante ficar ao lado dos policiais. Que andavam de um lado para o outro, corriam, às vezes precisavam desobstruir áreas, algo muito parecido com uma operação de guerra. Eles tinham dois objetivos pelo que entendi: um era encontrar os atiradores. E, em segundo lugar, tirar os civis do local. Muitas pessoas procuraram se esconder dentro de lojas, de cinemas, restaurantes, salões de beleza. Em todos os lugares cada vez mais pessoas surgiam de todo o canto.

Viu algum dos atiradores, vivo ou morto?

TYLER HICKS - Não vi nenhum. Apenas vítimas feridas e mortas. Creio que vi entre 10 e 12 pessoas mortas.

Em que pensou naquele momento? Cobrir um ataque terrorista onde você vive é diferente do que cobrir a guerra no Afeganistão ou na Síria?

TYLER HICKS - Quando ocorre alguma coisa dessa magnitude, é tão perigoso - talvez até mais - do que trabalhar no Afeganistão ou em algum outro país em guerra. Você tem de pensar onde ficar, onde fazer a cobertura, os obstáculos que pode colocar entre você e os potenciais atiradores. Muitas das mesmas regras se aplicam quando a polícia faz uma varredura num prédio como esse.

Esse ataque foi, simplesmente, o assassinato de pessoas civis desarmadas. Não se trata de uma guerra. Esses terroristas entraram no shopping e executaram pessoas: mulheres e crianças, qualquer pessoa que surgisse na sua frente. Isso não é normal numa guerra.

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