Meridith Kohut/The New York Times
Meridith Kohut/The New York Times

Fome aperta e venezuelanos apelam ao saque

Em dois meses, ocorreram mais de 50 saques na Venezuela, afundada em crise política e econômica

Nicholas Casey, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S. Paulo

21 Junho 2016 | 05h00

CUMANÁ, VENEZUELA - Com caminhões de entrega sujeitos a constantes ataques, os alimentos na Venezuela agora são transportados sob proteção de guardas armados. Soldados patrulham padarias. A polícia dispara balas de borracha em grupos desesperados que invadem armazéns, farmácias e açougues. Uma menina de 4 anos foi morta a tiros quando gangues lutavam por comida. A fome está convulsionando a Venezuela.

Em Cumaná, berço de um dos heróis da independência, centenas de pessoas invadiram dias atrás um supermercado, gritando que queriam comida e avançando sobre farinha, flocos de milho, sal, açúcar – enfim, tudo que encontravam, deixando para trás geladeiras quebradas e prateleiras reviradas. E mostraram que, mesmo num país com a maior reserva petrolífera do mundo, as pessoas podem se rebelar se faltar comida.

Nos dois últimos meses, mais de 50 saques, protestos e revoltas por alimentos eclodiram na Venezuela. Um grande número de estabelecimentos foi saqueado ou destruído. Ao menos cinco pessoas morreram.

É exatamente a Venezuela que seus líderes prometeram que não existiria. Em 1989, num dos piores momentos do país, rebeliões se espalharam a partir de Caracas, deixando centenas de mortos pelas forças de segurança. Conhecido como “Caracazo”, o movimento foi deflagrado pelos baixos preços do petróleo, corte de subsídios e empobrecimento súbito da população.

O acontecimento calou na mente de um futuro presidente, Hugo Chávez. Ele afirmou que a incapacidade do país em cuidar de seu povo e a repressão à revolta eram os motivos pelos quais a Venezuela precisava de uma revolução socialista. Hoje, seu sucessor se vê em situação semelhante – talvez até pior.

O país busca desesperadamente comer. O colapso econômico dos anos recentes deixou a Venezuela incapaz de produzir alimentos suficientes ou de importar o que precisa. Cidades estão sob vigilância militar em consequência do decreto de emergência do presidente Nicolás Maduro, o homem que Chávez escolheu para dar prosseguimento a sua revolução antes de morrer, três anos atrás.

“Se não houver comida, haverá mais rebeliões”, disse Raibelis Henríquez, de 19 anos, após esperar todo o dia o fornecimento de pão em Cumaná, onde pelo 22 comércios foram atacados em um dia na semana passada.

Um assustador índice de 87% dos venezuelanos diz não ter dinheiro suficiente para comprar comida, segundo o mais recente levantamento da Universidade Simón Bolívar. Cerca de 72% do salário da população vem sendo gasto na alimentação, de acordo com o Centro de Documentação e Análise Social.

Pergunte a pessoas em Cumaná quando foi a última vez que fizeram uma refeição e muitos responderão que não foi naquele dia. 

Entre estes estão Leidy Cordova, de 37 anos, e seus cinco filhos – Abran, Deliaqnnys, Eliannys, Milianny e Javier Luis –, com idade entre 1 e 11 anos. Na noite de quinta-feira, a família não comia desde o almoço do dia anterior, quando Leidy fez uma sopa de pele de frango e gordura que conseguiu comprar mais barato no açougue.

“Meus filhos dizem que estão com fome”, disse Leidy, ante o olhar das crianças. “E tudo que posso dizer é que sorriam e aguentem.”

Outras famílias se veem na situação de ter de escolher quem vai poder comer. Lucila Fonseca, de 69 anos, sofre de câncer linfático; sua filha, Vanessa Furtado, tem um tumor no cérebro. Apesar de também estar doente, Vanessa, em muitos dias, abre mão da pouca comida que têm para que a mãe não fique sem as refeições.

“Eu era muito gorda, não sou mais”, disse Vanessa. “Estamos morrendo aos poucos.” A mãe acrescentou: “É a dieta Maduro: sem comida, sem nada”.

Economistas dizem que anos de má condução da economia, agravados pelos baixos preços do petróleo, principal fonte de divisas do país, desestruturaram o fornecimento de alimentos. Campos de cana-de-açúcar estão sem cultivo por causa da falta de fertilizantes. Sem uso, máquinas agrícolas enferrujam em fazendas estatais. Produtos básicos como milho e arroz, antes exportados, são agora importados e chegam em quantidades que não suprem a demanda.

Em resposta, Maduro apertou o cerco à rede de abastecimento. Usando decretos de emergência que assinou neste ano, o presidente pôs a maior parte da distribuição em mãos de brigadas de cidadãos leais à esquerda, medida considerada pelos críticos como reminiscente do racionamento alimentar de Cuba.

“Isso significa, em outras palavras, que se for meu amigo, meu simpatizante, você tem comida”, disse Roberto Briceño-León, diretor do Observatório da Violência Venezuelano, grupo de direitos humanos.

É uma nova realidade para Gabriel Márquez, de 24 anos, que cresceu em anos prósperos, quando a Venezuela era rica e prateleiras vazias, algo inimaginável. Ele estava parado em frente de um supermercado destruído em Cunamá, com garrafas quebradas, caixas e prateleiras espalhadas pelo chão. Algumas pessoas, entre elas um policial, reviravam os destroços à procura de algo aproveitável. “No carnaval, fazíamos guerra de ovos”, disse Gabriel. “Hoje, um ovo é como ouro.”

Na pequena cidade pesqueira chamada Boca de Uchire, centenas de pessoas se reuniram numa ponte protestando contra a falta de alimentos. Queriam falar com o prefeito. Como ele não apareceu, saquearam um bar de chineses, estourando a porta com picaretas. Por trás da ação estava embutida a raiva à potência global que nos últimos anos emprestou bilhões de dólares à Venezuela. “Os chineses não quiseram nos vender”, disse um taxista que olhava a multidão saquear. “Então, queimaram seu negócio.”

Nem sempre fica claro o que provoca as rebeliões. Será apenas a fome? Ou é uma raiva mais ampla surgida num país que está desmoronando? / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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