Fome crônica sedimenta atraso norte-coreano

Décadas de alimentação inadequada debilitam população, principalmente no interior; em busca de efetivo, Exército baixa estatura mínima para 1,45 m

LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADA ESPECIAL / PYONGYANG , O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2012 | 03h06

Em um feriado em Pyongyang, crianças andam nas ruas tomando sorvetes, adultos fazem filas em barraquinhas para comprar bolos, supermercados estão lotados de produtos importados. Mas a realidade norte-coreana começa a poucos quilômetros dali e é muito diferente do ideal que o regime quer mostrar ao mundo.

Vítimas da fome que perdura desde a década de 90, um em cada três coreanos tem baixo desenvolvimento físico e mental pela falta de alimentos. Quase metade das crianças tem desnutrição crônica, outras 23%, baixo peso. Uma herança maldita que passa de mãe para filho e afeta a própria capacidade de crescimento do país.

Dados do governo do país, verificados pelo Programa Mundial de Alimentos das Nações Unidas, mostram que dois terços da população do país vivem com o equivalente a cerca de 400 gramas de grãos diários, distribuídos pelo Estado em um sistema de cupons, a metade do mínimo necessário. Desde junho de 2011, no entanto, até vir a nova colheita, a perspectiva é ainda pior: 380 gramas por adulto, 150 gramas dos chamados meses da fome, os meses de entressafra no verão do Hemisfério Norte.

"Neste momento, não há uma crise de fome como na década de 90. Mas existe uma situação crônica de falta de alimentos", explica a coordenadora do PMA na Coreia do Norte, Claudia Von Roehl. "Eles não têm nenhuma reserva de alimentos e em um ano com o inverno mais duro, como em 2011, a estação da fome é pior."

O inverno de 2011 foi um dos piores dos últimos anos. Em abril do ano passado, o número de crianças admitidas em hospitais por desnutrição aumentou entre 50% e 100%.

Este ano, a situação da colheita deve ser melhor. Ainda assim, a falta de alimentos é permanente na Coreia do Norte. A dieta distribuída pelo governo se concentra em carboidratos, especialmente arroz, batata e milho. Crianças em idade escolar recebem um ovo por mês, mais um no dia de seu aniversário. Em muitos casos, a sua única fonte de proteína.

Os adultos às vezes conseguem alguma carne ou peixe nos aniversários dos líderes mortos Kim Jong-il e Kim Il-sung.

Em dezembro, logo depois da morte de Kim Jong-il, peixes foram distribuídos à população. Um favor do líder morto que, segundo o boletim do governo, "trabalhou com seu coração e sua alma para oferecer peixe fresco à população, oferecendo orientação sem descanso aos pescadores do país". A prioridade para receber os peixes foi dada aos moradores de Pyongyang.

Estatura. A falta de proteína tem impacto direto no crescimento dos norte-coreanos. "Sem proteína o crescimento não se completa. A falta de nutrientes resulta em pessoas que não se desenvolvem como deveriam em termos físicos e cognição", afirma o representante do Fundo das Nações Unidas para a Infância na Coreia do Norte, Bijaya Rajbhandari. "Isso tem um efeito intergeracional. Já há mais de uma geração de norte-coreanos afetados pela constante falta de alimentos."

Recentemente, as Forças Armadas norte-coreanas baixaram a altura mínima para recrutamento, de 1,55 m para 1,45 m. Aos 16 ou 17 anos, quando entram para os sete anos de serviço militar, a maior parte dos jovens já não atinge a altura inicialmente exigida. Do outro lado da zona desmilitarizada que separa as duas Coreias, os jovens do sul, com exatamente a mesma origem étnica, chegam, em média, a 1,72 m aos 17 anos.

Em alguns casos, a falta de alimentos suficientes traz ainda outra consequência. Além da baixa estatura, os jovens parecem ter a cabeça grande demais para o corpo. Isso porque, quando há falta de nutrientes, a tendência do organismo é privilegiar o desenvolvimento do cérebro.

Casos assim não aparecem muito em Pyongyang. Nos arredores, quando os jornalistas foram levados a conhecer uma plantação de maçãs, foi possível ver pelo menos três casos.

O mundo norte-coreano mostrado pelo governo a jornalistas e outros estrangeiros que visitaram o país durante uma semana, nas celebrações do centenário de Kim Il-sung - morto em 1994 - é muito diferente do que aparece nos relatórios de quem pode andar pelo país. A capital, de onde os jornalistas mal podem sair, concentra os mais leais funcionários do regime. Quem mora na cidade tem uma permissão especial, dada pelo governo. Quem pertence à famílias com alguma mancha no currículo não entra na cidade, assim como norte-coreanos com algum defeito físico.

Os salários ainda são extremamente baixos. Um funcionário de nível médio do governo recebe cerca de US$ 6. Uma professora universitária, com uma ótima renda, US$ 45. Difícil adquirir qualquer coisa nos mercados cheios de produtos chineses, malaios, alemães e brasileiros, onde um pacote de 10 maçãs custa US$ 2. Mas perfeitamente plausível numa cidade onde, mesmo proibida, a iniciativa privada já chegou na forma de mercados e pequenos restaurantes e o mercado negro de produtos chineses está em qualquer lugar.

A casa de câmbio oficial, na frente de uma loja de departamentos que só aceita wons, é a prova de que pelo menos alguns moradores estão fazendo dinheiro. Ali, apenas norte-coreanos podem trocar dinheiro. O câmbio, de 3,6 mil wons por dólar, é 36 vezes maior do que o oficial.

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