Reprodução/Divulgação
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'Fomos agredidos', diz secretário da Embaixada da Guiné Equatorial

Primeiro-secretário da representação diplomática do país diz que se o vice-presidente do país africano não fosse bom pagador, estaria morando na rua

Entrevista com

Leminio Akuben

Lu Aiko Otta, O Estado de S. Paulo

16 Setembro 2018 | 15h18
Atualizado 17 Setembro 2018 | 09h26

BRASÍLIA - Após ter sua mala de dinheiro e seus relógios apreendidos pela Receita Federal no aeroporto de Viracopos (SP), na última sexta-feira, 14, o vice-presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Nguema Obiang, foi liberado para seguir viagem para a capital paulista com R$ 10 mil em espécie para ele e toda a comitiva. 

Foi o que relatou o primeiro-secretário da Embaixada da Guiné Equatorial no Brasil, Leminio Akuben, em uma conversa exclusiva por telefone. O episódio da apreensão foi revelado no site do Estadão na tarde deste sábado, 15. Seguem os principais trechos:

É verdade que a Receita apreendeu US$ 1,5 milhão em dinheiro e uma grande quantidade de relógios trazidos pelo vice-presidente?

Efetivamente, sucedeu isso. Tínhamos autorização diplomática, avisamos que o vice-presidente chegaria. Há um artigo da Convenção de Viena que diz que sempre que viaja um dignitário, sua bagagem pessoal não é verificada. 

O que deu errado?

Chegamos ao aeroporto, a Polícia Federal nos acompanhou para receber o vice-presidente, o que fizemos com toda tranquilidade. Nos conduziram para a porta doméstica, onde o vice-presidente ia pegar um helicóptero para São Paulo. Naquele momento, fomos agredidos. Disseram que a maleta do vice-presidente teria de voltar para passar por uma inspeção aduaneira. Ficamos confusos, porque nunca foi assim. O vice-presidente ficou no carro e nós voltamos para a aduana. 

Chegando lá, o que aconteceu?

Falei para eles que o vice-presidente tem isenção de abrir as malas e passar por inspeção. Liguei para o Itamaraty, e o Itamaraty enviou um documento urgentíssimo para que a Receita pudesse liberar o vice-presidente (essa informação é desmentida por fontes do Ministério de Relações Exteriores do Brasil). Mas o documento foi prontamente denegado pelas autoridades aeroportuárias. Disseram que teríamos de abrir a mala.

Qual foi sua reação?

Pedi para não abrirem com força. Então me deram um minuto para abri-la, do contrário iriam pegá-la e rompê-la à força. Fiquei com muito medo. Eles estavam armados. Fui correndo rapidinho até o vice-presidente, acompanhado por dois policiais, quase como um preso. Pedi um minuto para explicar a situação ao vice-presidente. Ele ficou muito nervoso e me entregou a chave.

E encontraram o dinheiro e os relógios. Por que trazer essa quantidade em espécie?

O vice-presidente viria a Brasília para um atendimento médico e depois iria para Cingapura em missão oficial. Os relógios são todos usados. Todos têm as iniciais T.N.O, Teodoro Nguema Obiang. Eles prenderam tudo e me deram recibos. Depois disso, me deram um tratamento normal. Acalmaram-se.

E o vice-presidente?

Ficou no aeroporto até as 17 horas, depois foi liberado. Nós, da comitiva, fomos conduzidos a outra parte do aeroporto para sermos interrogados um a um pela Polícia Federal. Saímos de lá às quatro da manhã.

É verdade que eles ficaram perguntando sobre droga?

Pensavam que havia droga no avião. Mas não havia sequer indícios. Graças a Deus, porque o vice-presidente não usa droga. São informações falsas que o Ocidente fala, mas ele não usa nada disso.

O que aconteceu após os interrogatórios?

Nos deram R$ 10 mil, que é o único valor que o vice-presidente poderia trazer ao Brasil (sem declarar). Mas, por exemplo: onde moramos, R$ 10 mil não dá para pagar nem um minuto. Tentei explicar que ele mora em um hotel de luxo porque é um vice-presidente. 

E agora?

Estamos numa situação muito difícil, porque não temos nem como fazer depósito no hotel. Se não fôssemos bons clientes, estaríamos morando na rua. Com R$ 10 mil, você sabe… São Paulo é uma cidade imensa. Uma comitiva não pode viver com R$ 10 mil.

Ah, o dinheiro era para ele e para a comitiva.

Sim. Propus que liberassem o dinheiro, porque é do Estado. E tem pessoas a quem o dinheiro lhes corresponde. Não é todo do vice-presidente. É um dinheiro de Estado para os serviços que vai fazer depois do Brasil. 

Vocês não usam cartão de crédito?

Tenho meu cartão de crédito. Não sei explicar se o vice-presidente tem ou não. 

Do ponto de vista formal, existe alguma providência que a embaixada vá tomar, por causa da revista das malas?

Vamos reiterar que devolvam as coisas ao vice-presidente. E, como diplomatas, vamos tomar providências junto ao Ministério das Relações Exteriores.

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