Fonte que revelou rede espiã dos EUA deixa hotel em Hong Kong e busca asilo

Sem garantia de permanência em Hong Kong, o americano Edward Snowden, responsável por revelar material sobre o programa ultrassecreto de vigilância dos EUA, procura asilo político na Islândia. Ontem, ele deixou o hotel onde se hospedava havia três semanas em Hong Kong. Seu destino é desconhecido.

Denise Chrispim Marin, correspondente / Washington, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2013 | 02h08

O dano causado por ele na imagem do governo de Barack Obama já se mostra profundo. Autoridades europeias expressaram ontem ser inaceitável o acesso dos órgãos de inteligência e segurança dos EUA aos e-mails, registros na internet e telefones de seus cidadãos. Em sua visita a Berlim, na semana que vem, Obama deve ser cobrado pela chanceler da Alemanha, Angela Merkel, segundo a ministra alemã de Justiça, Sabine Leutheusser-Schnarrenberger, para quem caso é "uma razão para preocupação".

"Esta é uma circunstância que tem de ser examinada muito cuidadosamente", disse o porta-voz da chancelaria alemã, Stefan Seibert, ao confirmar o tema na conversa entre Merkel e Obama.

Em entrevista ao Guardian, de Londres, Snowden assumiu no domingo a responsabilidade pelo vazamento de material sobre o acesso da Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês) aos registros dos clientes de nove companhias americanas de internet e a pelo menos uma operadora de telefonia, a Verizon. As informações eram processadas pelo programa de inteligência Prism, da NSA, para a detecção de terroristas. Segundo Snowden, cidadãos americanos e estrangeiros residentes nos EUA não estavam a salvo, como Obama afirmou na sexta-feira.

Em Londres, a oposição trabalhista criticou duramente o governo de David Cameron por ter recebido relatórios e dados do Prism. O Parlamento Europeu convocou para hoje um debate sobre a ausência de proteção, nos EUA, dos dados de telefonia e na internet de cidadãos europeus.

"Esse caso mostra que um claro acordo legal para a proteção de dados não é um luxo nem uma contenção, mas um direito fundamental" afirmou a comissária de Justiça da União Europeia, Viviane Reding.

Snowden teria escolhido a Islândia como destino porque o país não tem acordo de extradição com os EUA - onde deve ser processado e julgado por traição nacional com base na Lei de Espionagem, de 1917. A Islândia ofereceu cidadania a Bobby Fischer, o campeão de xadrez que rompeu o bloqueio internacional ao jogar uma partida na antiga Iugoslávia, em 1992. A dificuldade de Snowden, porém, será deixar Hong Kong - seu passaporte certamente já está cancelado - e alcançar a Islândia, onde terá de se apresentar pessoalmente para pedir o asilo.

No Congresso americano, a senadora democrata Dianne Feinstein, presidente da Comissão de Inteligência, acusou Snowden de ser traidor. O presidente da Comissão de Segurança Interna da Câmara dos Deputados, o republicano Peter King, disse que Snowden é um "desertor" que tem de voltar ao país para ser julgado. "Ele (Snowden) violou o juramento (de não revelar informação confidencial), violou a lei. É traição", acusou Feinstein. "Essa pessoa é perigosa para o país. Os EUA têm de impedir que qualquer país dê asilo político a ele", afirmou King à rede de televisão CNN.

A Casa Branca preferiu não prejulgar publicamente Snowden, visto que o Departamento de Justiça já está investigando o caso.

O porta-voz do governo, Jay Carney, reiterou a posição expressa por Obama na semana passada de não haver "100% de privacidade com 100% de segurança" ao defender a existência e a continuidade dos programas de vigilância. "Os programas são julgados pelo presidente e por sua equipe de Segurança Nacional como necessários e eficazes", afirmou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.