Fora de atenção, China avança

Com o Ocidente distraído com o EI, o Irã e a Grécia, Pequim expande sua influência

Fareed Zakaria, The Washington Post

06 de julho de 2015 | 03h00

Em janeiro de 2007, pouco tempo depois de George W. Bush anunciar o envio de mais tropas para o Iraque, almocei com um amigo chinês, membro muito bem relacionado dentro do Partido Comunista.

Perguntei a ele como a notícia fora recebida em Pequim. Ele me respondeu com estas palavras: “gostaríamos que vocês enviassem todo o Exército americano e ali permanecessem por mais dez anos. Nesse ínterim continuamos expandindo nossa economia”. Lembrei-me desse episódio esta semana durante minha viagem pelo Sudeste Asiático.

Enquanto Estado Islâmico, Irã e Grécia ocupam a atenção do mundo ocidental, a China avança. E agora não vem desenvolvendo apenas sua economia, mas também uma nova geopolítica na Ásia.

Fotos de satélite tiradas esta semana mostram que a China está no final da construção de um aeroporto em uma das muitas ilhas artificiais que criou no Arquipélago de Spratly nos últimos 18 meses. Suas ações nesta região têm por objetivo consolidar as reivindicações do país a 90% do Mar da China Meridional, onde o fluxo comercial por essas águas equivale a US$ 5 trilhões por ano. (Os direitos reivindicados pela China são contestados por Filipinas, Taiwan, Vietnã, Malásia e Brunei). 

O presidente Xi Jinping afastou-se de seus predecessores ao adotar abertamente uma política externa ativa, falando sobre o “Sonho da Ásia do Pacífico” e anunciando empreendimentos como o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura e Rota da Seda Marítima. Por trás dessa retórica há uma avalanche de dinheiro. O estudioso David Shambaugh sublinha que, se somarmos todos os investimentos empenhados nesses empreendimentos regionais, o valor total chega a US$ 1,42 trilhão. O Plano Marshal, em comparação, custou US$ 103 bilhões em dólares atuais.

Um diplomata do Sudeste Asiático explicou-me que a China utiliza dinheiro e pressão para “subornar” países da região. Salientou que a ajuda é cuidadosamente direcionada, de modo que o dinheiro destinado à Malásia, por exemplo, vai especificamente para o Estado de Pahang, base política do primeiro-ministro malaio. 

“Em Mianmar e na Tailândia (os chineses) procuram se assegurar de que os generais recebam sua parte dos contratos”, afirmou ele. Em países menores, como Camboja e Laos, o dinheiro chinês domina a economia.

Pequim também vem ampliando suas opções no campo militar, com a reivindicação das Ilhas Spratly e uma forte expansão dos sistemas de mísseis em terra. Além disso, Pequim silenciosamente vem poluindo os rios que cruzam suas fronteiras - do Mekong ao Brahmaputra - o que lhe dará a possibilidade de, numa crise, cortar os suprimentos de água para o Camboja e a Índia, respectivamente. 

Políticos em Cingapura disseram-me que Pequim começou até a se aproximar dos cidadãos do país que possuem descendência chinesa para influenciar na política externa da Cidade-Estado - aliada incondicional dos Estados Unidos - de modo a se voltar mais para o lado da China. “Diplomatas da embaixada chinesa contatam meus eleitores chineses e os instruem”, disse-me um deles. “Patrocinam viagens para a China com todas as despesas pagas para jovens de descendência chinesa nascidos em Cingapura. Eles são atuantes, engajados e astutos.”

E como os diplomatas do Sudeste Asiático veem os Estados Unidos? Acham que o país está desatento e totalmente ausente. As únicas pessoas com quem conversei que reconhecem o mérito do governo Obama no caso da sua estratégia do “pivô”, acham, no entanto, que ele não deu prosseguimento a ela e a sua implementação foi medíocre. Estão animados com os avanços do Congresso americano no tocante à Parceria Trans-Pacífico (TPP, na sigla em inglês), mas preocupados com a demora excessiva diante dos avanços incessantes dos chineses.

“Susan Rice (assessora da segurança nacional) não parece conhecer muito ou se preocupar com a Ásia; John Kerry (secretário de Estado) está distraído com sua busca de paz no Oriente Médio; o presidente cancelou viagens à Ásia”, disse-me um diplomata. “Finalmente na pessoa de Ash Carter (secretário da Defesa) temos um estrategista no Pentágono e isso já provocou um certo impacto. Os chineses estão mais cautelosos.”

O que torna particularmente difícil fazer frente à crescente influência da China na Ásia é que em grande parte ela é inevitável e pode ser benigna. A China é a maior parceira comercial de praticamente todas as economias asiáticas, até a Austrália. O maior envolvimento na região poderá ser positivo para todos. Mas também é motivo de inquietação em termos de domínio político. Os países da região recorrem aos Estados Unidos para deter a China, mas se relacionam com ela.

Não querem perturbar esse ambiente de negócios, comércio e respeito mútuo que tem permitido a muitos países asiáticos prosperarem. 

“O que desejamos de Washington não é simplesmente contra-ataques, mas uma diplomacia sofisticada, persistente e sutil”, disse Kishore Mahbubani, ex-secretário de Relações Exteriores de Cingapura. “Vocês conseguiram agir assim durante a Guerra Fria, quando competiam com a União Soviética. Vocês tiveram de ouvir a sociedade local, cortejar os países e sobretudo se envolver profunda e continuamente. Não vejo isso mais.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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