Foram as sanções que trouxeram Teerã de volta ao diálogo?

ANÁLISE: Ariel Zirulnick / CS Monitor

O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2013 | 02h03

Na negociação nuclear com o Irã, o principal instrumento de barganha das grandes potências é o alívio das duras sanções que isolaram Teerã do sistema financeiro global e estrangularam suas exportações de petróleo. A maioria dos observadores diz que as medidas punitivas colocaram a economia iraniana de joelhos. Essas terríveis condições teriam sido a razão pela qual o Irã voltou a discutir um acordo nuclear após a eleição, em junho, do presidente Hassan Rohani.

Outros, porém, argumentam que o Irã está vindo de uma posição econômica muito mais forte do que as potências mundiais afirmam. O novo líder teria muito a ganhar com concessões para recuperar o acesso ao sistema financeiro global - o que cairia bem para os iranianos que querem voltar aos negócios normais.

"A economia do Irã está obviamente muito mal", diz Djavad Salehi Isfahani, um destacado economista iraniano e bolsista do Brookings Institution. "Mas a questão real é se a situação é desesperadora ou não."

Um relatório recente da Fundação para a Defesa de Democracias e da Roubini Global Economics estima que o Irã só tem recursos para mais três meses de importações cruciais e vozes americanas influentes estão soando o alarme de uma crise humanitária iminente. "A economia está realmente em maus lençóis", disse William Luers, ex-embaixador americano e diretor do Iran Project, que procura melhorar as relações entre Washington e Teerã.

"O Irã precisa que as sanções sejam afrouxadas imediatamente", disse ele, notando que o comércio no mercado negro está crescendo e o país tem dificuldade para adquirir produtos básicos, como medicamentos e equipamentos médicos. "Isso pode virar um desastre humanitário daqui a cinco anos", advertiu Luers.

Isfahani, porém, defende que a economia do Irã está longe de um colapso. Ele admite que o PIB iraniano encolheu 3% no ano passado e, provavelmente, encolherá 2% até o fim deste ano. Além disso, os iranianos estão sentido essa contração na alta dos preços e na queda de suas rendas reais. No entanto, seus líderes não vieram para a mesa de negociações por desespero econômico, contesta o pesquisador. Aliás, empurrar o Irã para fora do sistema financeiro pode instigar um renascimento industrial à medida que a república islâmica, dependente de petróleo, começar a produzir bens que vem importando da Europa e de outros países industrializados há décadas.

Os novos líderes estão pressionados para remover as sanções por uma razão diferente, argumenta Isfahani: um setor privado, com influência crescente, que está cansado do isolamento econômico. "Essa é uma grande economia e muito complexa. Realmente, não compro os argumentos de que a economia iraniana está à beira de um abismo e prestes a ser empurrada pelas sanções. Ela ainda precisa descer muito para se ter coisas como fome, doenças - geralmente identificadas com o colapso econômico", acrescenta.

Segundo o relatório conjunto citado antes - que ajudou a traçar a legislação sobre sanções e cujo objetivo declarado é "impedir os líderes iranianos de adquirir armas nucleares, continuar apoiando atos terroristas e oprimir seu próprio povo" -, as reservas em divisas estrangeiras do Irã estão encolhendo rapidamente. O relatório diz que elas caíram de US$ 100 bilhões, em 2011, para US$ 80 bilhões, em julho. Somente US$ 20 bilhões desse montante, contudo, são acessíveis.

A maior parte das reservas estrangeiras do Irã, cerca de US$ 50 bilhões, está presa em contas parcialmente acessíveis em países que compram seu petróleo, mas não podem transferir os pagamentos para o Irã em razão das sanções bancárias. Com isso, o Irã está acumulando rapidamente uma receita de petróleo não gasta na China, Índia, Japão, Coreia do Sul e Turquia. As reservas estrangeiras servem de amortecedor, caso um país fique sem receita para cobrir suas importações. Segundo Rachel Ziemba, da Roubini Global Economics, o Irã vem pagando por importações faz algum tempo com suas reservas.

O Irã poderia usar seu superávit no exterior para cobrir os custos de bens humanitários, como alimentos e remédios, mas optou por não fazê-lo para não solapar a produção doméstica, afirma o estudo. Por isso, suas reservas estrangeiras parcialmente acessíveis continuam aumentando. Em média, o Irã produz US$ 3,4 bilhões por mês em receita do petróleo, US$ 1,5 bilhão dos quais se acumula sem ser usado em contas nos exterior mensalmente. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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