Andreas Starr/Pacific Northwest National Laboratory via NYT
Andreas Starr/Pacific Northwest National Laboratory via NYT

Cientistas tentam desvendar mistério sobre cubos de urânio nazistas

Cubos foram parar em laboratórios nos Estados Unidos

Jesus Jiménez, The New York Times, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2021 | 14h00

ANNAPOLIS, EUA - O fracasso do programa nuclear da Alemanha nazista é bem estabelecido no registro histórico. Como um punhado de cubos de urânio possivelmente produzidos pelos nazistas foi parar em laboratórios nos Estados Unidos, porém, foi menos documentado.

Cientistas do Laboratório Nacional do Noroeste do Pacífico e da Universidade de Maryland estão trabalhando para determinar se três cubos de urânio em sua posse foram produzidos pelo fracassado programa nuclear da Alemanha durante a Segunda Guerra.

A resposta poderia levar a mais dúvidas, tais como se os nazistas tiveram urânio suficiente para criar uma fissão nuclear. E, se os nazistas tivessem sido bem-sucedidos na fabricação de uma bomba atômica, o que isso teria significado para a guerra.

Cientistas do laboratório acreditam que conseguirão descobrir a origem dos cubos até o fim de outubro. Até agora, a maior evidência é anedótica, na forma de histórias contadas por outros cientistas, de acordo com Jon Schwantes, o principal pesquisador do projeto.

O laboratório não possui evidência científica ou documentação capazes de confirmar que a Alemanha nazista fabricou os cubos negros, que medem cerca de 5 centímetros de lado. Os nazistas produziram entre 1 mil e 1,2 mil cubos, e cerca de metade foi confiscada pelos Aliados, afirmou ele.

“O paradeiro da maioria desses cubos é desconhecido atualmente”, afirmou Schwantes, acrescentando que “muito provavelmente esses cubos foram incorporados ao nosso estoque de armamentos”.

“O cerne do nosso esforço é primeiramente confirmar a procedência desses cubos”, afirmou ele. “Acreditamos que eles venham do programa nuclear da Alemanha nazista, mas o que estamos tentando, na realidade, é provar isso cientificamente.”

Quando foram fabricados, os cubos eram essencialmente urânio puro. Com o passar do tempo, o elemento foi decaindo, em parte, transformando-se em tório e protactínio. Para determinar a idade dos cubos, cientistas planejam usar um processo chamado radiocronometria, que é capaz de separar e quantificar a composição química dos cubos.

“O urânio decai a uma taxa constante”, afirmou Schwantes. “Então, quando medimos a proporção de tório em relação ao urânio no cubo, isso afere essencialmente a quantidade do tempo que passou.”

E estabelecer um período de tempo para a fabricação dos cubos ajudaria a determinar se eles puderam ser fabricados no início da década de 1940, na Alemanha. Essa conclusão também traria mais dúvidas: os nazistas poderiam ter fabricado a bomba, prolongando a guerra ou até mudando seu resultado?

No fim das contas, as forças alemãs foram derrotadas pelos Aliados em maio de 1945, o que pôs fim à guerra na Europa e no Pacífico. O Japão assinou sua rendição apenas em setembro, após os EUA jogarem bombas atômicas nas cidades de Hiroshima e Nagasaki, matando dezenas de milhares de pessoas.

Schwantes, que disse ter gravitado entre a matemática e a química na época da escola, afirmou que prefere não especular a respeito de como a história poderia ter sido diferente e que era surreal “ter esse tipo de material histórico nas mãos e pensar a respeito de onde isso passou e quem mais o possuiu”.

Alguns historiadores pensam que, mesmo com poderio nuclear, os nazistas não teriam sido capazes de alterar o resultado da guerra.

Kate Brown, que leciona história ambiental e da Guerra Fria no MIT, especulou que a produção de armas nucleares pelos nazistas provavelmente não teria grande impacto na guerra.

“Eles estavam em modo de guerra total, cada vez mais”, afirmou ela. “Eles poderiam ter fabricado uma 'bomba suja', que não é tão difícil de fazer como a bomba nuclear.”

Um ingrediente-chave que os alemães precisavam para fabricar a bomba atômica era água pesada, que é uma água feita de um isótopo de hidrogênio chamado deutério, que tem o dobro da massa do hidrogênio comum.

Em sua busca para a fabricação da bomba atômica, os alemães queriam usar um método no qual o urânio é submergido em água pesada, afirmou a professora Brown. Mas os Aliados deram “um grande golpe” nesses planos quando bombardearam uma fábrica na Noruega que era o único lugar onde os alemães conseguiriam o ingrediente-chave, acrescentou ela.

Além disso, para esses esforços serem bem-sucedidos, a Alemanha nazista teria precisado de grandes fábricas para produzir as bombas, vastos espaços abertos para testá-las e segurança contra ataques aéreos, para que os inimigos não conseguissem espioná-los do alto, afirmou a professora Brown.

Adam Seipp, professor de história da Universidade Texas A&M, afirmou que faltavam recursos à Alemanha nazista porque o país “ia muito mal em termos de produção industrial”.

“Essa foi uma das razões que fizeram os nazistas perderem a guerra tão catastroficamente”, afirmou ele.

A professora Brown afirmou que mesmo se os nazistas tivessem conseguido fabricar uma bomba suja, precisariam se um avião capaz de voar sem ser detectado por uma longa distância.

“Eles não teriam tido aviões capazes de alcançar cidades como Moscou”, afirmou ela. “Na realidade, o único alvo que eu acho viável seria Londres”, disse ela.

De acordo com a professora Brown, mesmo que a bomba atômica nazista não pudesse ter grande influência na guerra, os nazistas produziram o cenário da Guerra Fria simplesmente ao tentar fabricá-la. Os soviéticos, que na época eram aliados dos EUA, estavam cientes de que os americanos tiraram esse urânio da Alemanha “bem de baixo de seus narizes”, afirmou ela.

“Isso virou um verdadeiro motivador das suspeitas que formavam a Guerra Fria quase imediatamente”, afirmou a professora Brown.

Depois da guerra, tanto a União Soviética e quanto os EUA estavam interessados nos cientistas alemães e seu equipamento, afirmou o professor Seipp. Os EUA até lançaram um esforço secreto, a Operação Paperclip, com objetivo de “trazer valiosos cientistas alemães para os EUA e com frequência ignorando francamente seus problemáticos passados de tempos da guerra, para que eles ficassem longe do alcance soviético”.

“Isso ajudou a aumentar as diferenças entre os dois ex-aliados”, afirmou ele.

O que se seguiu foi uma corrida armamentista entre EUA e URSS (os americanos demonstraram sua força quando bombardearam o Japão, em 1945), que foi seguida de uma corrida espacial entre os ex-aliados.

Até o momento, Schwantes afirmou que os resultados preliminares da análise de dois cubos parecem promissores. A ciência empregada para datar os cubos não é nova, afirmou ele, acrescentando que a radiocronometria é a mesma técnica que cientistas usaram para estabelecer a idade da Terra em 4,5 bilhões de anos.

“No nosso caso, a mesma ciência é aplicada a problemas diferentes”, afirmou Schwantes. Enquanto os cientistas que estabeleceram a idade da Terra trabalharam com escalas de tempo de bilhões de anos, afirmou ele, “Nós estamos interessados nos regimes temporais entre 0 e 100 anos.”

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