Henry Nicholls / Reuters
Henry Nicholls / Reuters

Força antiterrorismo britânica confirma novo caso de envenenamento por agente neurotóxico

Um homem e uma mulher, ambos com cerca de 40 anos, foram internados em estado crítico no hospital de Salisbury; em março, o ex-espião russo Serguei Skripal foi vítima de um atentado com arma química em um local próximo

O Estado de S.Paulo

04 Julho 2018 | 09h17
Atualizado 04 Julho 2018 | 22h32

LONDRES - O chefe de contra-terrorismo do Reino Unido, Neil Basu, confirmou nesta quarta-feira, 4, que o casal encontrado desacordado no dia 30 de junho foi exposto ao agente neurotóxico Novichok, o mesmo utilizado contra o ex-espião russo Sergei Skripal e sua filha, Yulia Skripal.

Ele acrescentou que os dois – identificados como Charlie Rowley e Dawn Sturgess, estão em estado crítico e ainda não se sabe como a substância tóxica os atingiu. O homem e a mulher, ambos britânicos e na casa dos 40 anos, foram encontrados inconscientes em Amesbury, cidade a 11 quilômetros de Salisbury, onde os Skripal foram atacados. Não há indício de que as novas vítimas tenham alguma relação com os serviços de espionagem. 

A investigação sobre um possível atentado com agente neurotóxico começou ontem. A polícia inicialmente informou ao grupo antiterrorismo de que havia um casal afetado por uma substância “desconhecida”.

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“Em razão dos recentes acontecimentos em Salisbury, agentes da rede antiterrorismo estão trabalhando com os colegas da polícia do Condado de Wiltshire em relação ao incidente em Amesbury”, explicou a polícia em um comunicado.

Em um primeiro momento, as autoridades acreditaram que os dois haviam sido vítimas de uma overdose por heroína ou crack, mas depois de quatro dias a polícia informou que estavam sendo realizados exames adicionais “para estabelecer a natureza da substância que afetou os pacientes”.

 

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O laboratório da cidade vizinha de Porton Dow confirmou o uso do agente criado na União Soviética. Os cientistas agora deverão determinar se o agente pertence ao mesmo lote usado contra os Skripal.

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Segurança. Cordões de segurança isolam as áreas onde as vítimas podem ter passado, e o contingente da polícia foi reforçado em Amesbury e Salisbury. As autoridades fecharam ao público o parque Queen Elizabeth de Salisbury, segundo a rádio local Spire. A polícia reforçou a presença diante da Igreja Batista de Amesbury, informou o jornal The Guardian. Autoridades acreditam que as vítimas compareceram a um culto antes de serem encontradas inconscientes.  

 

A agência estatal de Saúde Pública avaliou que o caso “não representa um risco significativo de saúde para o público em geral”. Mas esta constatação será “continuamente reavaliada, em função das informações obtidas”, afirmou um porta-voz da agência de Saúde Pública, citado pela agência Press Association. Robert Yuill, vereador do condado de Wiltshire, disse que “a reação é menos intensa” do que no atentado contra os Skripal. “Não se pode comparar”, afirmou.

Natalie Smyth, de 27 anos, que mora na mesma zona de Amesbury das vítimas, afirmou que, no sábado, viu “caminhões de bombeiros, ambulâncias e a rua fechada”, além de agentes com trajes de proteção contra ameaças bioquímicas. “Disseram que era um incidente químico e depois que tinha relação com drogas. É muito estranho, este é um lugar muito tranquilo”, afirmou Natalie.

Caso Skripal

No dia 4 de março, Skripal e sua filha, Yulia, foram encontrados inconscientes e levados para um hospital de Salisbury em estado crítico depois de beber uma cerveja em um pub e almoçar em um restaurante italiano. As autoridades concluíram que a dupla foi vítima de uma tentativa de assassinato com um agente neurotóxico. 

Os dois foram tratados durante semanas, recuperaram-se e receberam alta médica. Londres acusou Moscou de estar por trás do caso Skripal, um ex-coronel do serviço secreto militar russo condenado por traição por repassar segredos para o governo britânico, e que se mudou para a Inglaterra após uma troca de espiões.

O Kremlin negou qualquer envolvimento, mas o governo da primeira-ministra britânica, Theresa May, denunciou que o ataque foi cometido com um agente da variedade Novichok, fabricado em laboratórios militares russos.

O incidente provocou uma crise diplomática entre os dois países e uma onda de expulsões cruzadas de diplomatas por parte do Reino Unido e países aliados, de um lado, e da Rússia, do outro. / AFP e REUTERS

Para entender:

O nome Novichok significa “recém-chegado” em russo e aplica-se a um grupo de agentes nervosos avançados desenvolvidos pela União Soviética nas décadas de 70 e 80. Eles eram conhecidos como armas químicas de quarta geração.

Estima-se que um dos grupos de produtos químicos conhecidos como Novichok - A 230 -seja 5 a 8 vezes mais tóxico do que o agente nervoso VX. Embora as principais variantes de Novichok sejam líquidas, há quem acredite que existem em forma sólida e também podem ser dispersos por meio de um pó.

Se uma pessoa ingerir o Novichok, ele começa a produzir efeitos em um intervalo de 30 segundos a 2 minutos. Em forma de pó, os sintomas podem aparecer depois de 18 horas após a exposição. Os sintomas por agente neurotóxico incluem intoxicação, convulsões e, nos piores casos, coma, insuficiência respiratória e morte.

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