Força do tráfico faz Sendero renascer

Associada a máfias, a mais cruel guerrilha da região dá sinais de vida

Ruth Costas, O Estadao de S.Paulo

11 de maio de 2009 | 00h00

O ressurgimento do grupo que espalhou o terror pelo Peru nos anos 80 e 90 ameaça desatar um novo conflito em algumas regiões do país. Fortalecidos pela associação com o narcotráfico, remanescentes da guerrilha Sendero Luminoso voltaram a agir principalmente no Vale dos Rios Apurimac e Ene - conhecido como VRAE . Seu objetivo não é mais substituir as "instituições burguesas" por um regime comunista camponês, como no passado. Nos últimos meses, porém, seus líderes estão tentando revalorizar o componente ideológico do grupo para dar ares de "guerra popular" ao que hoje não passa de uma luta pelas rotas da droga. O nome da operação que o governo peruano pôs em prática para combater o novo Sendero no VRAE é "Excelência 777". Trata-se da maior operação militar da última década no Peru. Ela começou em agosto, mas nos últimos meses ficou clara a necessidade de mais investimentos. Desde janeiro, 32 militares já morreram em 11 emboscadas na região. Na sexta-feira, no mais recente ataque, dois militares foram mortos por senderistas nas selvas do Peru. O chefe do Exército, Otto Guibovich, admitiu que o número de integrantes do Sendero pode chegar a 600 - o dobro do que as autoridades reconheciam até então. "O Sendero Luminoso conseguiu mudar sua relação com a população e está avançando tanto que lembra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc)", disse Guibovich em abril. "Não descarto que haja uma relação com esse grupo, as técnicas empregadas são muito parecidas."De inspiração maoista, na esteira da proliferações de guerrilhas na região durante a Guerra Fria, o Sendero ganhou fama como a mais feroz e sanguinária organização revolucionária da América Latina (mais informações nesta página). Chegou a ter 10 mil integrantes e foi responsável por mais de 35 mil mortes entre 1980 e 1999 - uma média de 5 assassinatos por dia.TRANSFORMAÇÃOA história que o levou de uma guerrilha comunista fanática para um grupo dedicado ao narcotráfico, mapeada em investigações recentes, começou em julho de 1999, com a prisão do segundo líder do Sendero, Oscar Ramírez Durand, o Camarada Feliciano.De 1992 a 1999, Durand havia continuado a guerra contra o Exército e milícias paramilitares locais - desobedecendo ordens vindas da prisão pelo primeiro líder e fundador do grupo, Abimael Guzmán, o Gonzalo, para que firmasse a paz com o governo de Alberto Fujimori (1990-2000).?LIMPEZA? "De 2000 a 2003, os integrantes do grupo que não se entregaram começaram uma campanha para ?limpar? seu nome, atribuindo as atrocidades do antigo Sendero a Gonzalo e Feliciano", disse ao Estado, por telefone, o especialista peruano em segurança Jaime Antezana. O comando do grupo foi assumido por Victor Quispe Palomino, o Camarada José, que se uniu ao Sendero logo nos primeiros anos do grupo.Sob a nova liderança, os laços do Sendero com o narcotráfico se fortaleceram. Num primeiro momento, o grupo dava segurança para os "mochileiros" - jovens que fazem o transporte de cocaína - e plantadores de folha de coca. Mais fortalecidos, os senderistas arriscaram o seqüestro de 71 trabalhadores da empresa argentina Techint em 2003. Daí em diante suas ações teriam objetivos mais econômicos que políticos.Logo, eles já estavam participando de toda a cadeia da produção da coca, convencendo camponeses a abandonar plantações legais para se tornarem seus fornecedores. O dinheiro da droga financiou fuzis Galil e Uzi, um soldo de cerca de US$ 200 para seus homens e até uniformes - algo que o antigo Sendero dispensava.Gustavo Gorriti, diretor do Instituto de Defesa Legal do Peru, que estuda o Sendero desde os anos 80, acha que a comparação com as Farc é apropriada. "Os dois grupos têm um passado como guerrilha, mas cresceram com a associação com o narcotráfico."Outra semelhança com o caso colombiano diz respeito às dificuldades do governo central para combater a guerrilha num terreno difícil, repleto de áreas de selva e pontos de emboscada e amplamente familiar aos rebeldes."Dependendo dos golpes que as forças oficiais sofram no VRAE, a pressão da opinião pública por um aumento da açao para conter a guerrilha tende a crescer", afirma Gorriti. "Trata-se de um tema bastante sensível para os peruanos e por isso para um governo como o de Alan García, (cujos índices de popularidade rondam os 20%) o fracasso pode significar sérios problemas."

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