Forças anti-Assad abandonam trégua e cresce temor de guerra civil na Síria

Damasco em crise. Exército Livre da Síria anuncia que não reconhece mais a validade do cessar-fogo previsto no plano de paz do ex-secretário-geral da ONU Kofi Annan e promete retomar ataques 'apenas' contra alvos militares, em defesa do 'povo sírio'

DAMASCO, O Estado de S.Paulo

05 de junho de 2012 | 03h01

Forças de oposição da Síria anunciaram ontem que não respeitarão mais o cessar-fogo articulado pelo emissário da ONU e da Liga Árabe, Kofi Annan, ampliando temores de que a última solução política para a crise síria tenha fracassado de vez. Os insurgentes acusam o presidente Bashar Assad de usar a trégua para intensificar a repressão, como no massacre de Hula, que deixou 108 mortos - quase a metade, crianças - no dia 25.

Os militantes anti-Assad prometem restringir os ataques "apenas" a alvos militares, como bloqueios em estradas e patrulhas de rua feitos por forças de Damasco. "Decidimos encerrar nosso compromisso (com o cessar-fogo)", declarou o porta-voz do Exército Livre da Síria (ELS), Sami al-Kurdi. "Nós retomamos nossos ataques, mas somente em ações defensivas", continuou, referindo-se às emboscadas contra forças de Assad. "Vamos defender o nosso povo."

O cessar-fogo era o primeiro dos seis pontos previstos no plano de paz de Annan, aprovado pelo Conselho de Segurança da ONU, por opositores sírios e pelo próprio Assad. A trégua deveria ter sido imposta no dia 12, incluindo a retirada do armamento pesado de Assad das cidades sírias, mas foi repetidamente violada.

O grupo ativista Observatório de Direitos Humanos da Síria, com base em Londres, apontou que a ofensiva dos insurgentes já havia sido retomada no fim de semana. Segundo o grupo, entre sexta-feira e domingo, 80 soldados ou policiais morreram em ataques do ELS por todo o país.

Com o endurecimento da guerrilha, vozes dentro e fora da Síria passaram a considerar que o plano de Annan já deixou de ser uma alternativa real. No fim de semana, o emissário da ONU fez um apelo e alertou que sua iniciativa é "a única opção sobre a mesa para evitar a guerra civil". Na quinta-feira, Annan falará ao Conselho de Segurança das Nações Unidas, em Nova York, sobre seus esforços de mediação.

Ontem, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, reforçou o apoio ao emissário para a crise síria. "O plano Annan continua a ser central", afirmou Ban.

No entanto, mesmo dentro da missão negociadora para a Síria, a possibilidade de o plano de paz já ter fracassado não está descartada. "(Annan) e muitos outros alertaram para o risco de a Síria entrar numa sangrenta e longa guerra civil sectária. Talvez já tenhamos chegado a esse ponto", disse em entrevista Ahmad Fawzi, o porta-voz de Annan.

Gelo suíço. A tentativa de sufocar financeiramente o regime Assad foi reforçada ontem. A pedido dos EUA, o governo suíço congelou mais de US$ 20 milhões em nome de pessoas ligadas ao ditador. No total, Berna já bloqueou cerca de US$ 70 milhões em ativos da família Assad e de colaboradores do regime.

"A Síria teve mais US$ 20 milhões bloqueados", confirmou Marie Avet, porta-voz do governo. Segundo ela, a ação foi também uma resposta ao massacre de Hula. Na lista das pessoas atingidas pelo bloqueio estão Anisa e Asma, respectivamente a mãe e a mulher do ditador. / REUTERS. COLABOROU JAMIL CHADE

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.