Forças da Colômbia matam Alfonso Cano, comandante supremo das Farc

Guerrilha cercada. Presidente Juan Manuel Santos comemora 'mais duro golpe da história' contra insurgência que há 47 anos enfrenta o Estado colombiano; guerrilheiro estava em bunker em região montanhosa e teria sido surpreendido por operação militar

BOGOTÁ, O Estado de S.Paulo

06 de novembro de 2011 | 03h03

Alfonso Cano, o número 1 das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), foi morto em uma operação do Exército e da polícia federal na sexta-feira. O anúncio do assassinato de Cano - líder máximo e ideólogo da guerrilha colombiana - foi feito ontem pelo próprio presidente Juan Manuel Santos, que visitava o balneário de Cartagena.

"Caiu o número 1 das Farc", comemorou Santos diante de jornalistas. "Esse é o mais duro golpe contra as Farc na história da guerrilha. Viva a Colômbia!" O líder guerrilheiro tinha 63 anos e havia mais de três décadas estava nos quadros das Farc.

Santos aproveitou o anúncio da morte de Cano - cujo nome verdadeiro era Guillermo León Sáenz - para exortar os guerrilheiros a aceitarem a derrota e se desmobilizarem imediatamente. Caso contrário, ameaçou, "terminarão na prisão ou em um caixão".

A queda de Cano é o mais recente golpe de uma série de assassinatos de líderes das Farc iniciados em 2008, quando Raúl Reyes, o "chanceler" da guerrilha, foi morto. A vitória do governo anunciada ontem ocorre pouco mais de um ano após o Exército colombiano ter matado o chefe militar das Farc, Jorge Briceño, conhecido como Mono Jojoy.

Analistas duvidam que o assassinato de Cano seja capaz de acabar de vez com a guerrilha, que há 47 anos trava uma sangrenta guerra contra o Estado colombiano. Estima-se que existam hoje 9 mil guerrilheiros em atividade na Colômbia. A perda de comando, porém, retiraria das Farc poder de fogo, além de seu atrativo ideológico.

Fontes da Casa de Nariño, a sede do Executivo colombiano, afirmaram que Santos viajaria ainda ontem à cidade de Popayán, para onde foi levado o corpo de Cano. A imagem do cadáver do homem mais temido da Colômbia - agora com os olhos arregalados, sem sua tradicional barba e seus óculos fundo de garrafa - foi divulgada pelo governo. Segundo o presidente colombiano, Cano foi localizado com ajuda de "pessoas de dentro da guerrilha"

Segundo autoridades, o líder das Farc estava em um vilarejo perto de Suarez, na região montanhosa de Cauca, sudoeste da Colômbia, abrigado em um bunker. O local foi bombardeado pela aviação colombiana às 8h30.

Em seguida, tropas desembarcaram no local e encontraram dentro do esconderijo objetos pessoais do chefe guerrilheiro, como seus óculos e sua carteira. De acordo com a Associated Press, no momento do ataque Cano estava com 14 rebeldes, dos quais 4 morreram, 5 foram capturados e o restante conseguiu fugir mata adentro.

Cano chegou a correr e a se esconder na selva. Mas, segundo informações extraoficiais, às 17 horas ele já estava morto.

Santos e o ministro da Defesa da Colômbia, Juan Carlos Pinzón, não explicaram se os soldados da polícia e do Exército foram recebidos com tiros pelos guerrilheiros.

As forças colombianas ainda apreenderam 7 computadores, 39 pen drives e 194 milhões de pesos (US$ 102 mil) que estavam com o líder guerrilheiro. A operação foi batizada de "Odiseo".

Cautela. Segundo o ministro da Defesa, o governo demorou para anunciar a morte de Cano porque queria ter a confirmação de autoridades forenses sobre a identidade do cadáver. A inteligência colombiana sabia que o líder das Farc abrigara-se na região norte de Cauca, entre os departamentos de Tolima e Huila, tentando encontrar um local seguro na cordilheira que corta o centro do país sul-americano.

"Alfonso Cano caiu, foi reconhecido e todo o processo forense foi concluído", anunciou Pinzón. Ele não informou se a recompensa de US$ 2,7 milhões prometida para quem desse informações sobre o chefe guerrilheiro será entregue.

"Aos grupos armados, o mais apropriado é pensar e tomar decisões históricas. Deveriam pensar em se desmobilizar e sair dessas estruturas, dando uma oportunidade para a paz e prosperidade na Colômbia", afirmou o ministro. "A força pública se imporá. O desejo de paz e prosperidade triunfará."

Tido como o principal ideólogo das Farc, Cano vinha emitindo mensagens e registrando vídeos com ofertas de negociação ao presidente Santos. No entanto, o governo exigia que, antes de qualquer diálogo, a guerrilha deveria dar sinais concretos de que buscava a paz - como a liberação de todos os sequestrados. Cano recusava-se a atender as precondições impostas por Santos.

Desde o início do ano, o governo indicava estar muito perto de chegar até o número 1 das Farc.

Víctor Ricardo, que foi um dos negociadores com as Farc durante o governo Andrés Pastrana (1998-2002), afirmou que a morte do líder da guerrilha representa um duro golpe contra a insurgência, mas não será capaz de erradicá-la.

"Certamente é preciso dizer de forma muito clara que se trata de um golpe contra a moral das Farc. Mas em nenhum caso deve-se imaginar que isso pode levar ao extermínio da guerrilha.", afirmou Rícardo / AP E REUTERS

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