AFP PHOTO / OLI SCARFF
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Forças do Brexit são as mesmas que impulsionam Trump

Para especialista, tanto Reino Unido quanto EUA têm baixo desemprego, mas muitos trabalhadores com empregos precários

Entrevista com

Michael Leigh, ex-diretor-geral da Comissão Europeia e pesquisador sênior do German Marshall Fund

Cláudia Trevisan, CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S. Paulo

27 Junho 2016 | 05h00

As forças que levaram à saída do Reino Unido da União Europeia são as mesmas que impulsionam a candidatura de Donald Trump nos Estados Unidos, afirmou ao Estado o ex-diretor-geral da Comissão Europeia Michael Leigh. “Os dois países têm baixo desemprego, mas há um grande número de trabalhadores com baixos salários ou empregos precários e a desigualdade é um problema”. Atual pesquisador sênior do German Marshall Fund, Leigh acredita que há risco do mesmo movimento em outros países. A seguir, trechos da entrevista:

O que Brexit significa para a Europa e o futuro da UE?

A saída do Reino Unido vai enfraquecer a União Europeia e mudar o equilíbrio entre seus Estados membros. No momento, a Alemanha tem um aliado sólido no Reino Unido, em favor da abertura internacional e do livre comércio. Sem o Reino Unido, a União Europeia será mais fechada, mais estatizante, mais crítica da globalização. A possibilidade de negociação da Parceria Transatlântica de Comércio e Investimento (TTIP, na sigla em inglês) fica bastante reduzida e o peso em geral da União Europeia no mundo diminuirá. O Reino Unido é a segunda a segunda maior economia do bloco e é um dos dois Estados membros que integram do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. Também há o risco de que outros Estados membros sigam o mesmo caminho. Há vários países nos quais as forças políticas podem impulsionar a realização de referendos semelhantes. Na França, Marie Le Pen, do partido de direita Frente Nacional, defendeu a realização de referendo sobre a permanência na União Europeia. A Dinamarca só entrou na União Europeia porque o Reino Unido havia entrado e há um forte movimento eurocético no país. Na Itália, a Liga do Norte defende um referendo. E há movimento semelhantes em outros países, como a Polônia. Há um risco significativo de contágio. 

E para a globalização? 

O movimento favorável à saída da UE é a versão britânica do populismo que vemos em muitos países, uma reação à globalização. Mesmo que as pessoas reconheçam que economias mais abertas e o livre comércio podem beneficiar a economia de maneira geral, há um preço a ser pago. Há ganhadores e perdedores. E os perdedores estão entre os que votaram a favor da saída. 

Qual o impacto na candidatura de Trump nos EUA?

É difícil prever. Mas desenvolvimentos políticos em um país podem contagiar outros. O movimento para sair da União Europeia é a versão britânica do trumpismo. Nós ouvimos o tom triunfante do sr. Trump em suas declarações na Escócia, congratulando os britânicos por sua decisão. Ele claramente acredita que foi fortalecido pelo resultado. Como os eleitores americanos reagirão é difícil prever. 

 

O sr. vê paralelos entre Trump e Boris Johnson?

Eu vejo paralelos entre forças na sociedade americana que levaram ao sucesso de Trump e as forças na sociedade britânica que levaram a esse voto no referendo. Os dois países têm baixo desemprego, mas há um grande número de trabalhadores com baixos salários ou empregos precários e a desigualdade se tornou um grande problema em ambos. No Reino Unido, o preço dos imóveis atingiu um patamar tão elevado que um casal normal não consegue comprar uma casa ou um apartamento em nenhuma grande cidade. Isso provocou um sentimento profundo de desencanto e frustração, o que alimentou a campanha de Trump e do "Brexit", liderada por Boris Johnson. 

Como a imigração influencia esse movimento?

As duas questões ressaltadas pela campanha a favor da saída foram imigração e soberania. Elas foram ligadas na demanda de que o Reino Unido seja capaz de controlar suas próprias fronteiras. Mas não há problemas de imigração no Reino Unidos vinda de outros Estados membros. Os números não são especialmente preocupantes, ainda que sejam mais altos do que se esperava. Há 2 milhões de cidadãos britânicos vivendo em outros Estados membros. É um processo de duas mãos. Mas a questão teve ressonância junto ao eleitorado. Em partes do Reino Unido, há o fenômeno do sentimento anti-imigração em regiões que não têm imigração. Isso tirou o foco da discussão de questões econômicas. A maioria dos economistas argumentava que era do interesse do Reino Unido permanecer na União Europeia. Mas isso não foi levado a sério porque as pessoas estavam focadas em imigração e soberania. 

Quanto tempo levará para o processo de saída ser concluído?

O artigo 50 do Tratado da União Europeia diz que a negociação para a saída de um Estado membro deve ser feita em até dois anos, a partir do momento da notificação da intenção de sair. Uma vez que o divórcio seja concluído, deverá haver a negociação de uma nova relação. As pessoas no Reino Unido favoráveis à saída não têm uma visão clara do tipo de relacionamento que querem ter com a União Europeia no futuro. Se eles quiserem negociar um tratado de livre comércio com a União Europeia, isso levará tempo. A negociação com o Canadá, por exemplo, demorou cinco anos. Se somarmos os dois anos aos cinco anos, nós poderíamos ter quase um década de incerteza. Isso é tão arriscado que talvez os dois lados encontrem uma maneira de acelerar o processo. Mas há o risco de incerteza por um longo período.

Qual será o impacto econômico dessa incerteza?

Os investidores no Reino Unido e até na União Europeia vão esperar para ver o que acontece. Se há incerteza sobre como o divórcio será feito e a forma da futura relação, os investidores ficarão hesitantes. É provável que o mercado de câmbio permaneça instável e que haja redução de crescimento no Reino Unido e na União Europeia. 

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