Sergey Ponomarev/The New York Times
Sergey Ponomarev/The New York Times

EUA retiraram estrangeiros do EI capturados na Síria para serem julgados no Iraque

Segundo reportagem Reuters e do 'New York Times', diante da dificuldade de repatriar jihadistas capturados após a derrota do grupo, americanos decidiram fazer as transferências sigilosamente

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 19h04

BAGDÁ - Diante do dilema internacional sobre o que fazer com os jihadistas estrangeiros do Estado Islâmico, forças dos EUA transferiam em sigilo ao menos 30 desses combatentes capturados na Síria para serem julgados no Iraque. As transferências foram feitas entre 2017 e 2018, segundo a agência Reuters, que ouviu testemunhas, fontes do Judiciário iraquiano e consultou documentos judiciais. 

Três desses estrangeiros já foram condenados à morte por pertencer ao grupo terrorista e sentenciados à morte pela Justiça do Iraque, enquanto cinco deles receberam condenações de prisão perpétua. Segundo a Reuters, quatro deles disseram ter sido torturados na prisão o que, segundo a agência, não foi possível verificar. O Serviço de Contraterrorismo do Iraque negou que detidos tenham sido transferidos para sua custódia, da Síria, ou que tenham sido torturados. 

Estima-se que cerca de 4 mil estrangeiros tenham sido capturados na Síria e no Iraque após a derrota imposta ao Estado Islâmico em territórios desses dois países. A maioria de seus países de origem não quer repatriá-los. 

Os julgamentos no Iraque tem chamado a atenção como um teste para as cortes iraquianas, se estão prontas para seguir um padrão internacional de julgamento justo e oferecer solução para um dos maiores problemas deixados pela batalha contra o Estado Islâmico: o que fazer com a legião de seus seguidores. 

Enquanto o destino de milhares de combatentes do Estado Islâmico capturados na Síria continua incerto, esses 30 prisioneiros estrangeiros foram transferidos após serem capturados pela milícia curda Forças Democráticas da Síria (SDF, na sigla em inglês). 

O Comando Central do Exército americano, que supervisiona as forças do Oriente Médio, não quis comentar o caso, mas reconheceu o desafio imposto pela captura desses combatentes por milícias curdas, cuja autoridade não é reconhecida internacionalmente.

“O problema de terroristas estrangeiros capturados sob a custódia da SDF na Síria é extremamente complexo”, disse o porta-voz do Comando, Bill Urban.  Os EUA querem que os países assumam a responsabilidade por seus combatentes e tomem medidas para prevenir que eles voltem ao terrorismo.

Oito homens condenados por seu papel no grupo terrorista - originados da Bélgica, França, Alemanha, Austrália, Egito e Marrocos - foram entrevistados pela Reuters no momento em que eles compareceram a uma corte iraquiana. 

Eles disseram que foram capturados na Síria pelas milícias curdas, apoiadas pelos americanos, e interrogados por eles sobre seu papel no EI. Depois, foram mantidos presos, a maioria em solitárias, em bases americanas na região do Curdistão iraquiano ou na Jordânia antes de serem entregues à custódia iraquiana. A SDF não quis comentar a transferência de prisioneiros, mas disse que quer se livrar desses estrangeiros porque não é sua responsabilidade julgá-los. 

Negociações

O presidente americano, Donald Trump, está pressionando nações europeias para receber de volta seus cerca de 2 mil cidadãos capturados no fim da batalha contra o EI. Diplomatas do Ocidente, fontes do governo iraquiano e americano disseram que desde o início do ano aliados americanos e europeus têm mantido conversações com Bagdá sobre a transferência desses prisioneiros da Síria para serem julgados no Iraque. 

Esta semana, com o julgamento de 12 de seus cidadãos em Bagdá - dos quais 7 foram condenados à morte - a França, um país que se orgulha de ser um defensor dos direitos humanos e opositor à pena capital, praticamente terceirizou seu processo judicial para o Iraque.

O ministro das Relações Exteriores, Jean-Yves Le Drian, disse na quarta-feira que havia 450 franceses ligados ao EI em campos no norte da Síria. Mas com as lembranças ainda fortes dos ataques terroristas contra o paíse m 2015, 2016 e 2018, pesquisas mostram que a maioria dos franceses não aprovam o retorno desses cidadãos, mesmo que seja para julgá-los e mantê-los presos. 

Para o ministro, os julgamentos dos franceses no Iraque são justos.

Segundo o chefe do Centro de Análise do Terrorismo em Paris, Jean-Charles Brisard, o problema de levá-los para a França é que nem sempre há provas suficientes para condená-los nas cortes francesas. Por isso, a França tem se recusado a repatriar esses cidadãos, mesmo sabendo que eles enfrentarão a Justiça em países onde tortura e pena de morte são comuns. 

Especialistas em direito internacional demonstram preocupação e dizem que os processos de terrorismo no Iraque são intrinsecamente falhos e alegam que as confissões muitas vezes são obtidas por tortura e coerção, alguns juízes são tendenciosos e os réus não têm uma defesa adequada./REUTERS e NYT  

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