Forças leais a Assad e insurgentes disputam enclave cristão

Em Maaloula, onde ainda se fala a língua de Jesus, combatentes seculares e radicais islâmicos fizeram ação conjunta

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / BEIRUTE , O Estado de S.Paulo

08 Setembro 2013 | 02h11

Três dias depois de uma ousada incursão conjunta do Exército Sírio Livre (ESL) e do Movimento Islâmico Homens Livres do Levante (Harakat Ahrar ash-Sham al-Islami) no vilarejo cristão de Maaloula, 50 quilômetros a nordeste de Damasco, tropas leais ao governo e insurgentes travavam ontem intensa batalha na área, de acordo com o Observatório Sírio de Direitos Humanos, ligado à oposição.

Uma freira do Convento de Santa Tecla, em Maaloula, onde ainda se fala o aramaico, a língua de Jesus, disse pelo telefone à Associated Press que os invasores andaram na quarta-feira pelas ruas da pequena cidade gritando em um megafone: "Aqueles que quiserem continuar vivos, convertam-se ao Islã". Ela contou que a população estava aterrorizada: "É a primeira vez que nos atacam".

Um vídeo postado na internet mostra a ação dos combatentes antes de invadir Maloula. Um suicida explodiu-se no posto militar na entrada da cidade, abrindo caminho para o avanço dos guerrilheiros. Oito soldados morreram. Os combatentes gritavam: "Deus é maior". O homem que filmava disse que era uma ação conjunta do Ahrat ash-Sham e do Exército Sírio Livre (ESL), de orientação laica. O vídeo foi postado em um site utilizado tanto pelo Ahrat ash-Sham quanto pelo ESL. A Coalizão Nacional Síria, que reúne a oposição no exílio, informou que o ESL atacou dois postos militares das forças do governo em Maaloula.

As particularidades dessa incursão podem dificultar a campanha do presidente Barack Obama para angariar apoio no Congresso americano e entre países aliados para uma ação militar contra o regime de Bashar Assad. A dificuldade de distinguir extremistas islâmicos dos combatentes seculares tem sido um argumento, no Ocidente, contra a ajuda aos insurgentes sírios.

Alguns observadores da guerra civil na Síria afirmam que o Ahrat ash-Sham tem se tornado um dos maiores e mais fortes grupos combatentes no país. Diferentemente da Frente Nusra, vinculada à Al-Qaeda, que segue uma estratégia internacionalista, o Ahrat ash-Sham afirma que sua agenda está restrita à Síria. Em seus primeiros comunicados, o grupo afirmou que seu objetivo de longo prazo é a imposição dos preceitos islâmicos no país, mas que entendia que a população síria não estava "preparada para isso".

Maaloula é um local de peregrinação cristã. Nela estão, segundo a tradição, os restos de Santa Tecla, discípula de São Paulo e considerada uma das primeiras mártires do cristianismo. Condenada à fogueira por aderir ao cristianismo e ao celibato pregado por São Paulo, ela chegou ao local fugindo de soldados romanos. Segundo a tradição, Tecla se viu encurralada pela montanha, e Deus abriu o desfiladeiro, para facilitar sua fuga. Ironicamente, muitos dos 5 mil moradores cristãos de Maaloula têm fugido do vale, temendo a perseguição dos radicais islâmicos.

Na ocupação de Qusair, no oeste da Síria, com participação da Frente Nusra, no primeiro semestre, todas as imagens cristãs foram destruídas, e as paredes das igrejas, pichadas com frases em favor do Islã e contra o cristianismo, disse ao Estado um fotógrafo da France Presse que esteve na cidade.

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