Forças líbias capturam filho de Kadafi

Saif al-Islam foi preso com dois ajudantes, em um comboio que viajava pelo sul do país

ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, OBARI, LÍBIA, ANDREI NETTO , CORRESPONDENTE / PARIS, OBARI, LÍBIA, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h04

Após a captura e a morte brutal de Muamar Kadafi, Saif al-Islam Kadafi, de 39 anos, tornou-se o foragido número 1 da Líbia. Considerado o herdeiro político do regime que governou o país com mão de ferro nas últimas quatro décadas, "o engenheiro" - como também era conhecido - negociava a rendição, enquanto tentava ultrapassar as fronteiras do sul da Líbia.

Saif era o último rosto conhecido da família de Kadafi do qual não se sabia o paradeiro. Desde a queda da fortaleza de Bab al-Azizia, em Trípoli, em agosto, a família se dividiu. Quatro dos filhos do ditador fugiram para Níger e Argélia: Mohamed, de 41 anos, o mais velho, Saadi, de 38, ex-jogador de futebol, Aicha, de 34, e Hannibal, de 33.

A eles se soma Hannah, médica de cerca de 26 anos que trabalhava no Hospital de Trípoli até horas antes da queda do regime. Ela é uma das personagens mais enigmáticas da família, por ter sido dada como morta por Kadafi nos bombardeios lançados pelos Estados Unidos a Trípoli, em 1986.

Se parte da família buscou refúgio em países vizinhos durante a revolução, três irmãos encontraram seu destino trágico em território líbio: Mutassim, de 36 anos - capturado com o pai -, Saif al-Arab, de 31, e o temido Khamis, de 28, comandante da Brigada 32, uma das mais poderosas forças militares do regime. Dessas três mortes, duas foram envoltas em polêmica. Saif al-Arab foi morto num bombardeio da Otan a Trípoli no início da intervenção militar do Ocidente.

Mutassim sofreu execução sumária em Misrata quando estava em poder dos revolucionários do Conselho Nacional de Transição (CNT) - que nega o crime de guerra. Seu corpo, cujas marcas de violência o Estado pôde constatar, foi conservado em uma câmara frigorífica na estrada Jazira, periferia da cidade. E, depois, exposto ao público no mesmo mercado árabe em que jazia o corpo de Kadafi à espera de um entendimento entre representantes dos CNTs de Trípoli e Misrata sobre o destino dos restos mortais.

Dos destroços da família, Saif al-Islam era o único em liberdade no país. Arquiteto formado pela Universidade de Trípoli e pós-graduado em Economia na Áustria, Saif foi tutelado em relações internacionais e em gestão de Estado pelo ex-chefe do serviço de inteligência e ex-ministro das Relações Exteriores, Moussa Koussa, cuja fuga para Túnis e para Londres enfraqueceu o governo Kadafi no primeiro semestre. Ao se lançar aos holofotes, em 2000, Saif chegou a ser visto como a face renovada do regime, pregando reformas institucionais e selando a libertação de dissidentes - muitos dos quais transformados em líderes revolucionários em fevereiro. Com a ameaça de queda do regime, o herdeiro do kadafismo transformou seu discurso e se tornou o mais ativo filho a defender o "guia" frente a opinião pública internacional.

O filho de Muamar Kadafi Saif al-Islam - o último filho do ditador líbio morto há um mês que ainda tinha paradeiro desconhecido - foi capturado pelas forças do Conselho Nacional de Transição (CNT) da Líbia num deserto no sul do país, enquanto viajava com dois auxiliares. A população de Trípoli tomou as ruas da capital em festa ontem, após o anúncio da prisão, buzinando, ostentando bandeiras líbias e disparando para o alto.

O ministro da Justiça do governo provisório, Mohammed al-Alagi, contou que uma milícia revolucionária de Zintan localizou o comboio de Saif na noite da sexta-feira - segundo os combatentes, 50 quilômetros a oeste de Obari. O filho de Kadafi - que apareceu ontem na TV líbia com ferimentos em três dedos da mão direita - estaria a caminho do Níger, mas seu destino não foi confirmado.

O Tribunal Penal Internacional (TPI), de Haia, acusa Saif de crimes contra a humanidade, por sua suposta colaboração na brutal repressão aos revolucionários que lutaram pela deposição de Kadafi desde meados de fevereiro, conflito que se tornou uma guerra civil.

O então chefe de inteligência do regime deposto, Abdullah al-Senoussi, foi indiciado pelos mesmos crimes, pelos quais o ex-ditador também foi acusado, e ainda permanece foragido.

Até ontem, não estava definido se Saif seria entregue à corte internacional ou processado pela Justiça do governo de transição. Segundo o porta-voz da milícia de Zintan, Bashir al-Tlayeb, o primeiro a anunciar a prisão, o CNT decidirá onde o filho de Kadafi será julgado.O promotor do TPI, Luis Moreno-Ocampo, afirmou que viajará para a Líbia esta semana para negociar com o CNT onde Saif será julgado.

"Há uma obrigação, sob o direito internacional, do governo (de transição) cooperar com o TPI. Se decidirem julgar o suspeito na Líbia, há um processo necessário", afirmou o porta-voz da corte internacional Fadi al-Abdallah.O premiê interino da Líbia, Abdel-Rahim al-Kib, afirmou que Saif será tratado" como um prisioneiro de guerra".

"Apesar de figurar como um dos símbolos do antigo regime, ele será tratado como um prisioneiro de guerra, conforme as leis internacionais", garantiu o premiê, afirmando não ter mais informações sobre a detenção do filho de Kadafi. / ASSOCIATED PRESS, EFE e REUTERS

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