Forças russas tomam o teatro; reféns mortos já são 67

Cerca de cem soldados de elite russos tomaram esta madrugada o controle do Palácio da Cultura, em Moscou, matando o líder do comando checheno que mantinha 700 reféns no edifício desde quarta-feira e libertando a maior parte dos reféns, anunciou um porta-voz do Kremlin, Serguei Yastrjembski.Sessenta e sete dos reféns morreram na operação, declarou o vice-ministro do Interior, Vladimir Vassiliev. Vassiliev negou que os reféns tenham sido mortos durante a invasão das forças especiais russas, mas sim pelos rebeldes, que teriam cumprido suas ameaças. ?Salvamos mais de 750 pessoas e perdemos 67?, afirmou o vice-ministro. Cerca de 300 dos reféns estão hospitalizados, muitos estão em estado grave. Alguns deles sofreram paradas cardíacas em conseqüência do gás utilizado pelas tropas russas na operação de invasão do prédio. Um diplomata australiano informou também que não há estrangeiros entre os mortos. O presidente Vladimir Putin visitou, na manhã deste sábado, um dos principais hospitais de Moscou onde estão as vítimas do ato terrorista. A operação para libertar os mantidos não provocou qualquer baixa entre as forças especiais russas. Entretanto, segundo informou o vice-ministro Vassiliev, dois dos rebeldes conseguiram escapar durante a operação e ainda não foram capturados. Os outros que sobreviveram foram presos pelo FSB (serviço secreto russo).A ação de resgate começou pouco depois que os rebeldes mataram dois reféns e feriram outros dois (entre estes uma mulher), cumprindo sua ameaça de começar a matança se, até as 6 horas locais de hoje (23 horas de ontem em Brasília), o presidente Vladimir Putin não declarasse o fim da guerra na Chechênia e desse provas do início da retirada de tropas russas do território. Um pouco antes desse horário foram ouvidos disparos e três explosões na área do teatro.Segundo as autoridades, a operação de resgate durou cerca de uma hora. Após a libertação dos reféns, as forças especiais começaram a vasculhar o teatro em busca de algum membro escondido do comando checheno. Vários explosivos que tinham sido instalados pelos terroristas no edifício foram desativados. Os reféns resgatados foram retirados do local em ambulâncias e ônibus que haviam chegado ao Palácio da Cultura antes do início da tomada do teatro pelas forças de segurança.Horas antes, ao fim de uma prolongada reunião com Putin, o chefe do Serviço de Segurança Federal, Nicolai Patrushev, prometera aos rebeldes que sua integridade física seria preservada se eles libertassem os reféns ? entre os quais mais de 70 turistas estrangeiros. Putin disse que a ?preservação da vida dos inocentes? era sua grande preocupação, mas deixou claro que não atenderia às reivindicações. Ao contrário, exortou os rebeldes a deporem suas armas e desistirem da luta pela independência. Analisando a situação, Viktor Karputin, um ex-chefe do Grupo Alfa (unidade militar especial dos serviços secretos que cerca o teatro), dissera ser necessário preparar a sociedade para o que classificou de inevitável: ?Haverá vítimas.? Segundo ele, se os rebeldes não se rendessem, a única alternativa seria invadir o edifício e matar todos os extremistas. ?Nesse caso, haverá vítimas, embora em número reduzido.?Daria Morgunova, porta-voz dos produtores do musical que era apresentado no teatro, conversara com um dos atores que ainda estava retido no edifício. ?Ele me telefonou e confirmou que os seqüestradores estão ameaçando iniciar uma chacina ali dentro na madrugada de amanhã (deste sábado em Moscou)?, contou ela, acrescentando que recebeu o telefonema duas horas depois da declaração de Patrushev.Menos de 11 horas antes do fim do prazo, várias personalidades influentes ingressaram no teatro para negociar com os seqüestradores, incluindo o ex-primeiro-ministro Yevgueni Primakov e o ex-presidente da república da Ingushetia, Ruslan Aushev. Este último disse que os rebeldes deixaram muito claro: só negociam com Putin. ?Eles destacaram que existe o risco da adoção de medidas extremas na madrugada?, acrescentou. Também se reunira com os guerrilheiros a jornalista Anna Politkovskaya, repórter do diário Novaya Gazeta, muito respeitada entre os chechenos por suas posições contrárias à política do Kremlin para o território. Ela convenceu os seqüestradores a aceitarem o fornecimento de comida, água e atendimento médico para os reféns. Segundo a jornalista, a situação sanitária no interior do edifício era extremamente grave e só havia um pouco de chocolate para alimentar centenas de pessoas.Na manhã de ontem, os guerrilheiros haviam liberado outros 19 reféns, incluindo 8 crianças, mas mantiveram em cativeiro os 75 turistas estrangeiros ?, entre os quais americanos, britânicos, holandeses, australianos, canadenses, austríacos e alemães. As crianças, vestindo roupas de inverno (uma delas, uma menina suíça, carregava um urso de pelúcia), pareciam saudáveis quando desceram a escadaria do teatro em companhia de funcionários da Cruz Vermelha. O governo russo acusou Aslan Maskhadov, presidente checheno que fugiu do território após a invasão russa de 1999, de ter planejado o ataque.

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