Forças sírias ainda são poderosas, mesmo sem as armas russas

Regime Assad tem uma unidade definida como de "dissuasão" que mantém ogivas municiadas com gases letais

ROBERTO GODOY, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h07

O pior pesadelo das agências de inteligência ocidentais está ganhando a consistência da vida real na escalada regional do conflito interno da Síria - as armas químicas saem dos depósitos secretos e um míssil simples, o Conquistador, pode chegar às mãos dos esquadrões radicais do Hezbollah, doado pelo Irã - uma ameaça irresistível para Israel.

O quadro pode ficar ainda pior: os gases e os vetores guiados seriam combinados em algum ponto desse cenário.

Com os mísseis iranianos Fateh 110, o grupo xiita libanês liderado pelo xeque Hassan Nasrallah pela primeira vez tem capacidade para atingir alvos dentro do território israelense com precisão. A arma é efetiva no limite de alcance estimado entre 300 e 400 quilômetros, transportando significativos 650 quilos de carga de ataque na ogiva.

Rústico, simples de operar e equipado com um sistema misto de guiagem inercial e de sinais de GPS, é avaliado como bastante preciso.

Sem os caças Sukhoi-30 e baterias de mísseis antiaéreos russos S-300 - cujos contratos de venda foram cancelados dois dias atrás em Moscou pelo presidente Vladimir Putin - as Forças Armadas sírias ficam enfraquecidas, embora ainda poderosas.

As tropas são profissionalizadas na proporção de 30%, bem treinadas e equipadas com material russo e chinês. O Exército tem 4 mil tanques pesados, cerca de 5 mil blindados, 3,2 mil canhões, e muitos mísseis de médio alcance. A frota operacional da aviação é de 350 aeronaves de combate - o MiG-29 é o caça de múltiplo emprego.

O regime do presidente Bashar Assad mantém um Comando Aeroestratégico criado pelo pai dele, Hafez Assad, que teria, prontas para uso, de 50 a 100 ogivas de 700 quilos, além de centenas de bombas aerotransportadas e granadas de artilharia, municiadas com gases letais. A unidade militar é definida como sendo "elemento de dissuasão", pelo governo. Foi organizada pelo general dissidente russo Anatoli Kuntsevich, um ex-assessor de Putin para assuntos de armas químicas e biológicas, e suspeito de contrabando de armas..

Kuntsevich cuidou da instalação de um laboratório, na periferia da cidade histórica de Alepo, perto da fronteira com a Turquia, para a produção de iperita, agente do gás mostarda, que produz úlceras na mucosa respiratória, provocando edemas e a morte por asfixia.

Em setembro de 2007, uma explosão acidental na fábrica matou 15 oficiais sírios e deixou 50 técnicos feridos, entre os quais iranianos e asilados iraquianos. O episódio foi associado a um bombardeio da aviação israelense contra instalações de pesquisa de armamento de destruição em massa.

As força convencional da Síria, soma 220 mil combatentes, mais 280 mil reservistas de convocação rápida. Assad investiu na tecnologia. O míssil S-300 - que comprou, mas não levou - é capaz de rastrear até 100 alvos simultaneamente e disparar contra 12 deles dando prioridade ao grau de ameaça. Dificultaria muito um eventual ataque aéreo.

Engenheiros russos revitalizaram a rede de radares integrados de defesa aérea, vigilância e alerta avançado.

O olho eletrônico dessas estações cobre os territórios da Jordânia e de Israel, o Golfo de Ácaba, todo o norte da Arábia Saudita e o Mar Mediterrâneo até o eixo da Grécia e de Chipre.

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