Abu al-Zain Al-Homsi/Reuters
Abu al-Zain Al-Homsi/Reuters

Forças sírias 'torturam e alvejam crianças', diz ONU

Alta comissária para direitos humanos relata indícios de que crianças levam tiros nos joelhos e são presas sem atendimento médico

BBC Brasil, BBC

28 Março 2012 | 06h27

DAMASCO - As forças sírias estão deliberadamente e sistematicamente alvejando crianças, declarou à BBC a alta comissária da ONU de direitos humanos, Navi Pillay.

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"Esse é um dos desdobramentos mais chocantes da reação do governo sírio aos protestos (antigoverno)", disse Pillay. "Eles (forças de segurança) estão indo atrás das crianças. Temos provas, obtidas pela comissão de investigação, após falar com pais e vítimas, de que crianças levaram tiros no joelho, foram presas em condições desumanas, sem acesso a medicamentos, sendo alvo de brutalidade. É horrível."

Ela disse que a ONU não está tendo acesso a muitas dessas crianças.  Pillay também disse que a alegação síria, de que há "terroristas" entre os opositores do governo, "não é uma desculpa para atacar áreas civis densamente povoadas. Isso é crime sob a lei internacional".

A estimativa da ONU é de que cerca de 9 mil pessoas tenham morrido na Síria em decorrência da repressão aos protestos antigoverno, em curso há um ano.

Questionada se o presidente sírio, Bashar al-Assad, tinha responsabilidade nas matanças, Navi Pillay afirmou ter "provas suficientes apontando para o fato de que muitos desses atos cometidos pelas forças de segurança devem ter recebido a aprovação e a cumplicidade no mais alto nível de governo. Assad poderia simplesmente ordenar o fim das matanças".

Ela afirmou também que o presidente sírio terá de "enfrentar a Justiça" - em referência ao Tribunal Penal Internacional - por conta das denúncias de abusos no país.

Plano de paz

Damasco aceitou o plano de paz do enviado especial da ONU, Kofi Annan, e da Liga Árabe, mas a aceitação ainda é vista com desconfiança pela oposição.

O plano prevê um cessar-fogo de todas as partes, supervisionado pela ONU, o fornecimento de assistência humanitária às áreas afetadas pelos confrontos, a liberdade de atuação dos jornalistas na Síria, a liberdade de manifestação dos sírios e o início de um processo político que leve em conta as aspirações do povo sírio.

Para Annan, ex-secretário-geral das Nações Unidas, a aceitação é "um importante passo inicial para trazer o fim da violência". Ele ressaltou que a implementação do plano, na prática, é fundamental para lidar com a situação alarmante no país, que vive intensos confrontos há mais de um ano.

Mas críticos dizem que falta um prazo para que as medidas sejam efetivadas e se queixam da ausência de uma exigência para que Assad renuncie ao poder - a principal demanda dos manifestantes desde março do ano passado.

Ao mesmo tempo, diversos grupos dissidentes se reuniram em Istambul, na Turquia, e concordaram em reconhecer o Conselho Nacional Sírio, de oposição ao governo, como representante do povo sírio.

O correspondente da BBC Jonathan Head explica que, no encontro, os opositores disseram não acreditar na intenção do governo sírio de cumprir o plano de paz da ONU. Também se negam a aceitar qualquer plano que permita que Assad permaneça no poder.

Apesar do ceticismo quanto ao plano, a correspondente da BBC na ONU, Barbara Plett, a atual situação é nova: é a primeira vez que um projeto de paz para a Síria recebe o aval do Conselho de Segurança da ONU (antes disso, Rússia e China, membros permanentes, com poder de veto, do Conselho de Segurança da ONU, haviam vetado resoluções contra a Síria).

A avaliação é de que, ainda que o plano não tenha sido formulado em termos especialmente duros contra Assad, ele coloca pressão sobre o governo sírio. A dificuldade, agora, é colocá-lo em prática.

 

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