Mikhail Klimentyev/Sputnik/Kremlin Pool via AP
Mikhail Klimentyev/Sputnik/Kremlin Pool via AP

Forma mais eficaz de atingir Lukashenko é afastá-lo da Rússia; leia análise

Quase metade de todos os bens produzidos em Belarus é vendida para os russos

Claire Parker*, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2021 | 05h00

Encaradas como uma boa alternativa à força militar e um meio de transmitir valores liberais, as sanções se tornaram ferramenta favorita de EUA e União Europeia. No entanto, Dursun Peksen, especialista em sanções da Universidade de Memphis, estima que elas não dão em nada de 65% a 95% das vezes. Ele citou o caso da Coreia do Norte, onde a dinastia Kim está sob sanções americanas há mais de meio século e continua totalitária. “Estudos sugerem que sanções raramente alcançam seus objetivos políticos”, disse. “Mas isso não significa que elas sempre falhem.” 

Em geral, dizem os especialistas, as sanções são mais eficazes quando são multilaterais, direcionadas e vinculadas a objetivos específicos e realistas. Peksen cita como exemplo de sucesso as sanções do governo de Barack Obama para fazer o Irã aceitar o acordo nuclear. Já as sanções impostas por Donald Trump só serviram para inflamar as tensões com Teerã, segundo ele.

No caso de Belarus, UE e EUA impuseram várias rodadas de sanções durante os 27 anos de regime de Lukashenko. Isso incluiu um embargo de armas, de 2004. A Europa abandonou a maioria delas em 2016, durante um período de relações mais calorosas com o país. Mas, após a repressão aos protestos do ano passado, os europeus voltaram a usá-las como ferramenta. Atualmente, 88 indivíduos e 7 entidades estão sujeitos a restrições, incluindo proibições de viagens e congelamento de ativos. Os EUA também puniram Belarus. Desde que assumiu a Casa Branca, Joe Biden bloqueou transações com 9 empresas de petróleo e aplicou sanções a 109 funcionários do governo. 

Agora, a UE pretende atingir setores críticos da economia belarussa. Grupos de oposição a Lukashenko sugerem alguns alvos: o maior produtor de potássio do país, uma empresa de fertilizantes, a petroleira Belneftekhim, refinarias e bancos. Eles também propuseram a suspensão de novos investimentos e crédito bancários. No entanto, essas medidas podem não ter efeito, já que Belarus depende mais da Rússia do que do Ocidente. 

Quase metade de todos os bens produzidos no país é vendida para os russos. Um acordo com a Rússia permite que o país importe petróleo bruto, refine e revenda o produto, o que respondeu por parte do PIB. “O jeito mais eficaz de pressionar Belarus é encontrar uma maneira de cortar os laços do país com Putin”, disse Peksen.

Para Bruce Jentleson, professor da Universidade Duke, as restrições aos voos prejudicam mais Lukashenko do que as sanções setoriais. A Rússia pode até substituir bens e maquinários, mas não há alternativa para o espaço aéreo e os aeroportos da UE. No entanto, as sanções também têm um histórico de prejudicar a população. “Trabalhos acadêmicos sobre sanções mostram que muitas vezes elas prejudicam os grupos que você está tentando ajudar”, disse Jentleson.

Os belarussos, provavelmente, sofrerão os efeitos adversos. Alguns já demonstram temor de que as restrições aos voos impeçam os opositores de fugir do país. Katsiaryna Shmatsina, pesquisadora do Instituto Belarusso de Estudos Estratégicos, porém, disse que a angústia com a repressão alimentará o apoio às sanções. 

“A parte mais ativa da sociedade, que participa dos protestos, defende as sanções, percebe que isso coloca mais pressão sobre Lukashenko. Eles estão prontos para sofrer no curto prazo”, afirmou. Segundo ela, não se sabe por quanto tempo Putin está disposto a apoiar Lukashenko, que fará de tudo para se manter no poder. “O regime está em modo de sobrevivência. Lukashenko e seu círculo não têm saída.” 

* É JORNALISTA

 

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