‘Formar governo é mais fácil para trabalhistas’

Para cientista político da London School of Economics, chances de Ed Miliband se tornar primeiro-ministro são maiores do que as de David Cameron

Entrevista com

Tony Travers

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2015 | 01h00

Há poucos, ou talvez nenhum analista político que tenha ousado afirmar de maneira definitiva nas últimas horas qual será o resultado das urnas na eleição parlamentar de hoje  na Grã-Bretanha. Pesquisa divulgada ontem pelo instituto Survation indicou mais uma vez empate técnico entre o atual premiê, David Cameron, e Ed Miliband. O trabalhista pode reunir 32,3% dos votos, contra 31% dos conservadores, 15,2% do Partido pela Independência do Reino Unido (Ukip), 10,1% para os Liberais-Democratas (LibDem), 5,4% para o Partido Verde e 3,9% para o Partido Nacional Escocês (SNP). Com esse resultado, Miliband e Cameron terão entre 270 e 280 cadeiras, menos do que os 326 assentos necessários para a maioria absoluta. Para o cientista político Tony Travers, da London School of Economics (LSE), nesse cenário, Miliband terá mais chances de governar, já que terá apoio de uma gama maior de partidos. A seguir, principais trechos da entrevista concedida por telefone ao Estado

As sondagens mostram que, ainda que o Partido Conservador seja o mais votado, as chances de Miliband formar governo são maiores. O sr. concorda?

Até aqui, é o que podemos afirmar. A questão é que há um empate entre trabalhistas e conservadores. É mais fácil para os trabalhistas formarem um governo de minoria, porque outros partidos pequenos se sentem mais à vontade para apoiar um governo de Miliband do que um Cameron. Os trabalhistas poderiam ter um governo com LibDem, com apoio informal do SNP e dos verdes. Mesmo que trabalhistas e conservadores tenham a maior parte dos votos, vai ser difícil que o eleitorado conceda a um desses dois partidos uma maioria absoluta.

As sondagens não revelam quem será o premiê, mas podemos afirmar que o bipartidarismo está acabando?

O declínio é visível e acontece em várias formas diferentes. O sistema político da Grã-Bretanha sempre foi muito favorável aos dois grandes partidos –  trabalhistas e conservadores. Era fácil obter 35% ou 40% dos votos e chegar à maioria. Na prática, não é necessário chegar aos 50%. O que vem mudando desde os anos 60 é que hoje os dois grandes partidos estão distantes de obter até mesmo o porcentual que lhes daria a maioria. 

Por que os britânicos estão voltando suas atenções a novos partidos? 

Juntos, eles significam um aumento da desconexão entre uma grande parte do eleitorado e os dois grandes partidos. 

O  que mudou na paisagem política britânica nos últimos 10 anos para que essa dominação chegasse ao fim?

O declínio de conservadores e trabalhistas não é abrupto, é contínuo desde os anos 60. Um fenômeno semelhante acontece em muitos outros países da Europa. A sociedade não é mais única, como foi no passado. A similaridade entre os eleitores se reduziu. As pessoas estão habituadas a mais opções em suas vidas privadas – mais supermercados, mais carros, mais modelos de tudo. É parte de um movimento maior, reforçado pelas mídias sociais, pela expressão de um nova realidade.

Cameron precisou de uma coalizão com os LibDems em 2010, mas depois disso teve cinco anos para mostrar serviço. Em 2015, chega às eleições com chances reais de derrota. O que aconteceu de errado com seu governo? 

O Partido Conservador foi o maior em 2010, mas a verdade é que os conservadores foram muito mal naquelas eleições e só venceram porque o Partido Trabalhista foi ainda pior. Hoje os conservadores estão cerca de 2% abaixo do desempenho de cinco anos atrás, logo só estão pouco abaixo. Cameron empreendeu uma política fiscal muito dura para reduzir os gastos públicos. Eu diria que o desempenho de Cameron não é muito ruim depois de tanto tempo de políticas impopulares. A verdade é que conservadores e trabalhistas perderam muito do apoio de que dispunham no passado. 

Miliband chega com chances reais de chegar ao poder mesmo tendo feito críticas diretas à City. Os britânicos estão cansados da influência do mercado financeiro na vida política da Grã-Bretanha? 

Eu diria que isso tem a ver com as consequências políticas da crise do sistema financeiro. Foi algo real, que afetou toda a economia mundial. Por outro lado, aprendemos com a crise que realmente precisamos de bancos. A questão é como sustentar um setor bancário que seja estável, responsável, que não cause problemas no futuro. A Grã-Bretanha é um país baseado em serviços, não na indústria. O que vejo é um desejo de disciplinar o sistema financeiro, garantir que o tratamento dos bancos será realista e capaz de manter a estabilidade. Mas o discurso de Miliband contra City enfrenta um problema: a imagem de que pode transformar a Grã-Bretanha em um lugar difícil de se fazer negócios. Por outro lado, o problema de Cameron é o oposto: o de ter uma imagem próxima demais dos mercados financeiros. 

Qual é o seu prognóstico para as eleições?

Que nenhum partido vencerá, obtendo uma maioria absoluta, é quase uma certeza. Seria muito difícil a essa altura. Por outro lado, também é difícil imaginar uma ampla coalizão entre Labour, LibDem e outros partidos. A possibilidade mais realista, eu diria, é a de um governo trabalhista de minoria liderado por Ed Miliband, sem coalizões que garantam uma maioria absoluta, mas com apoio informal de SNP e Greens, o que pode garantir uma certa estabilidade à administração. 

Um governo trabalhista que dependa de votos do SNP no Parlamento não tornaria Ed Miliband refém dos independentistas escoceses?

De fato será muito difícil para Ed Miliband não ser sequestrado pelo SNP, que terá muito poder de alavancagem se essa situação se confirmar. O SNP poderá afirmar a qualquer momento que retirará o apoio ao governo trabalhista. Mas, por outro lado, isso ajudaria os conservadores a retornar ao poder. Miliband poderia então perguntar aos escoceses: "Vocês realmente querem a convocação de uma eleição antecipada?". Essa é a vantagem que todo primeiro-ministro tem, e que Miliband também teria. Teria sido irresponsável da parte de Nick Clegg e dos LibDem, por exemplo, abandonar a coalizão formada em 2010 com David Cameron e os conservadores. Eles seriam punidos pelo eleitorado.

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