Elvis González/EFE
Elvis González/EFE

Formar uma aliança política e social ampla: o desafio do presidente eleito do Chile

Gabriel Boric deve governar um país com o Congresso dividido e um processo constituinte em curso

Pamela Figueroa*, O Estado de S.Paulo

21 de dezembro de 2021 | 10h02

No domingo passado, 19 de dezembro, o Chile elegeu um novo presidente para o período 2022-2026. Após uma campanha áspera, marcada por notícias falsas, polarização do debate e incerteza sobre o resultado, a cidadania falou em alto e bom som. Com mais de 55% dos votos, o jovem candidato da coalizão de esquerda Apruebo Dignidad terminou eleito.

A Presidência da República foi definida em um segundo turno com dois candidatos representantes de partidos políticos emergentes no cenário chileno. De um lado, José Antonio Kast, o candidato da direita radical, representando o Partido Republicano. Do outro, Gabriel Boric, um jovem deputado do Partido Convergência Social, legenda que surgiu há dois anos, representando as novas gerações da esquerda. Boric foi um dos principais líderes estudantis nas revoltas sociais de 2011 - durante o primeiro mandato de Sebastián Piñera -, e o único dirigente da esquerda que, em novembro de 2019, concordou em assinar o "Acordo pela Paz e a Nova Constituição", depois da convulsão social que viveu o Chile. Esse feito deu-lhe a visibilidade e a maturidade que o posicionou para depois iniciar a corrida presidencial que hoje o leva ao Palácio de La Moneda.

Gabriel Boric deve governar com um Congresso dividido e um processo constituinte em curso. Em 21 de novembro, no primeiro turno, os chilenos elegeram a Câmara de Deputados e parte do Senado. Dado o sistema eleitoral proporcional e um sistema multipartidário, o Congresso está dividido, e portanto o presidente Boric não contará com as maiorias necessárias para realizar reformas substanciais, o que lhe impõe o desafio de dialogar em busca de apoio.

Por outro lado, a Convenção Constitucional estará em seu oitavo mês de trabalho, dos doze que tem como prazo fixado, e deverá ter um avanço significativo sobre as normas constitucionais que deverão ser apresentadas à população para aprovação. O papel do presidente Boric será o de manter uma distância prudente, que respeite a autonomia da Convenção, e ao mesmo tempo garantir que ela possa desenvolver suas deliberações em conformidade. O debate constitucional pode ser o espaço para debater as reformas que o Chile necessita para superar a desigualdade e o mal-estar com o sistema político.

Assim, o recém-eleito presidente tem desafios de curto e médio prazo. No curto prazo, abordar às necessidades da pós-pandemia, em matérias econômicas e de segurança pública, e construir as maiorias necessárias para avançar a legislação e as políticas públicas. No médio prazo, sustentar as maiorias políticas e sociais para ser o governo que assegure a transição ao novo ciclo político, determinado por uma nova constituição política, nascida na democracia.

* Cientista Política

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