Fortalecida, Cristina tenta dar golpe final contra mídia crítica

Para analista, maioria no Congresso deu à Casa Rosada novo fôlego na batalha política contra jornais não alinhados

BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h01

A aprovação da lei que dá à Casa Rosada virtual controle sobre a produção de papel-jornal é o golpe final em uma batalha que a presidente Cristina Kirchner vinha travando contra o Grupo Clarín desde 2008, quando a empresa rompeu com o governo.

"Está claro quem ganhou a guerra", disse ao Estado Martín Becerra, professor de comunicação social da Universidade Nacional de Quilmes. De acordo com ele, novamente com a maioria no Congresso, Cristina "decidiu agir antes dos cem primeiros dias de governo para dar sinais contundentes de que não negociará com o Clarín".

Na opinião de Becerra, não há sinais de que a empresa jornalística e o governo desejem selar uma trégua nos próximos dias. Mas, se houver uma negociação, o governo estará em posição favorável e pode pressionar o Clarín a baixar o tom das críticas.

O professor observou que, até o momento, o apoio do governo foi fundamental para que a Justiça argentina lançasse as próprias investidas contra os jornais - como o mandato de busca e apreensão na Cablevisión, empresa de TV a cabo do Grupo Clarín, e o embargo dos bens do jornal La Nación. "Nenhum juiz teria autorizado a intervenção na Cablevisión se não acreditasse que o governo apoiaria a decisão", afirmou.

'Discurso único'. O diretor de relações institucionais do Grupo Clarín, Martín Etchevers, afirmou que a holding "continuará defendendo os direitos constitucionais sob ataque".

"O que estamos vendo nessas semanas é o aprofundamento de um processo autoritário, que busca silenciar os críticos e destruir as vozes não oficiais que ainda restam no país, para terminar de instalar um discurso único", afirmou Etchevers.

Segundo ele, "as represálias legislativas e administrativas lançadas contra o Clarín, o La Nación e outras empresas jornalísticas, em apenas duas semanas, coroam a escalada que já leva vários anos, destinada a deslegitimar e asfixiar a dissensão e o pluralismo na Argentina".

O executivo acusou o governo Cristina de cooptar jornalistas e empresas de comunicação por meio do uso discricionário de recursos públicos, como publicidade oficial, concessão de licenças de rádio e TV, aplicação de sanções e, agora, o controle do papel-jornal. / MARINA GUIMARÃES, AE

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