Explosão na região portuária mata 100 e deixa mais de 4 mil feridos em Beirute

Governo diz que curto-circuito causou incêndio e explosão em depósito de fogos de artifício e em outro onde estavam 2,7 mil toneladas de nitrato de amônia; sob o espectro da violência sectária, incidente causou pânico generalizado no país

Redação - O Estado de S.Paulo

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BEIRUTE - Duas fortes explosões na região portuária mataram nesta terça-feira, 4, 100 pessoas e deixaram mais de 4 mil feridos em Beirute. Testemunhas relataram tremor e janelas quebradas em várias partes da capital do Líbano. O violento choque foi sentido até no Chipre, ilha que fica a 240 quilômetros de distância. Embora autoridades tenham descartado a possibilidade de um ataque ou um atentado como causa, o acidente levou pânico a uma cidade traumatizada por anos de violência e guerra civil.

Foram duas explosões. A primeira, segundo a TV Al-Manar, veículo oficial do Hezbollah, foi causada por uma falha elétrica pouco antes das 18 horas (12 horas em Brasília). Ela teria provocado um incêndio em um depósito de fogos de artifício. Philip Boulos, que governa a região de Beirute, disse que uma equipe de bombeiros foi enviada para conter o fogo. Alguns minutos depois, veio a segunda explosão.

Badri Daher, diretor a agência libanesa de fronteiras, disse que o fogo teria atingido um estoque de 2,7 mil toneladas de nitrato de amônia, que havia sido confiscado de um navio e vinha sendo guardado no porto havia seis anos. A razão de a segunda explosão ter sido documentada de vários pontos da cidade, segundo ele, vem do fato de a primeira ter atraído a atenção dos celulares, que estavam filmando o incêndio. 

Fumaça chegou aos céus da capital Beirute e foi sentida em diferentes regiões da cidade  Foto: Anwar AMRO / AFP

O presidente do Líbano, Michel Aoun, presidiu uma reunião de emergência do Conselho de Defesa Supremo, que declarou Beirute uma "zona de desastre". O Conselho, que reúne o presidente, o primeiro-ministro e a ministra da Defesa, "recomenda" ao governo decretar estado de emergência, segundo a agência nacional de informações ANI. O presidente montou um comitê para investigar as causas do acidente, que ele classificou de “inaceitável”.

O primeiro-ministro, Hassan Diab, decretou luto nacional para a quarta-feira. "Uma grande catástrofe atingiu o Líbano hoje", declarou Diab. Em um duro pronunciamento na TV, Diab disse que aqueles responsáveis pelas explosões "vão pagar o preço". "Eu prometo a vocês que essa catástrofe não ficará sem que seus responsáveis sejam punidos. Eles pagarão o preço", disse Diab. 

"Não vou descansar até encontrarmos o funcionário responsável pelo que aconteceu e responsabilizá-lo e aplicar as penalidades mais severas, porque é inaceitável que um carregamento de nitrato de amônia estimado em 2.750 toneladas esteja presente há seis anos em um armazém sem tomar medidas preventivas que colocam em risco a segurança dos cidadãos", disse o premiê.

Em um país que vive sob o espectro constante da violência sectária, da ameaça de ataques de países vizinhos e ainda não se livrou dos traumas da guerra civil, as explosões provocaram pânico generalizado em Beirute, com pessoas em fuga da região portuária, de carro ou a pé. Em pouco tempo, feridos começaram a lotar hospitais como o Rizk, um dos mais próximos do local da explosão, que realizou 400 atendimentos.

 

A Cruz Vermelha do Líbano enviou para a capital ambulâncias do norte, do sul e do Vale do Bekaa. Rapidamente, quando os hospitais de Beirute ficaram lotados, os feridos começaram a ser transferidos para outros centros de atendimento na região metropolitana e no interior do país. “Foi um show de horrores”, disse Marwan Ramadan, uma testemunha que estava a 500 metros do porto. Ele foi derrubado pela força da explosão. “Não via nada assim desde a guerra civil.”

Em razão da trágica história da cidade, Israel logo se apressou em negar que tenha atacado alvos em Beirute – nos últimos dias, forças israelenses e milicianos do Hezbollah trocaram tiros na fronteira. “Não temos nada a ver com a explosão”, afirmou um funcionário do governo israelense ao jornal The Jerusalem Post.

Pouco antes, o ministro da Defesa de Israel, Benny Gantz, havia oferecido ajuda e assistência humanitária. "Israel abordou o Líbano pelos canais diplomáticos e de segurança internacional e ofereceu assistência médica e humanitária ao governo libanês", informou Gant, em um comunicado conjunto com o ministro das Relações Exteriores, Gabi Ashkenazi.

A Casa Branca informou estar acompanhando com muita atenção o desenvolvimento dos fatos ligados à explosão em Beirute. O presidente Donald Trump foi informado e segue de perto os acontecimentos. Na noite desta terça-feira, Trump disse que as explosões pareciam um "ataque terrível". 

Onde foi

Nas redes sociais, moradores disseram que o impacto da explosão estilhaçou janelas e vitrines de lojas em pontos diferentes da capital, de Raouche, na orla do Mediterrâneo, a 6 quilômetros do porto, até o subúrbio de Rabieh, a 13 quilômetros de distância. O impacto também foi sentido em Nicósia, capital do Chipre, segundo relatos de testemunhas. 

As imagens mostravam uma enorme nuvem vermelha sobre o céu da capital minutos após a explosão. “Vi uma bola de fogo e de fumaça subindo por Beirute. As pessoas estavam gritando e correndo, sangrando. Varandas foram arrancadas de edifícios. O vidro dos prédios quebrou e caiu nas ruas”, disse uma testemunha à Reuters

Outra pessoa disse que viu uma fumaça cinza pesada perto da área do porto, depois ouviu uma explosão e viu chamas de fogo e fumaça preta: “Todas as janelas do centro da cidade estão quebradas e há feridos andando por aí. Está um caos total".  

A brasileira Catharina Ghoussein, de 23 anos, relatou ao Estadão que as explosões pareciam um terremoto em Beirute e, depois, chegou a pensar que a cidade estava sendo atacada. “Minha mãe acordou e começou a ficar desesperada. Ouvimos um barulho que parecia de avião, achei que Israel tinha atacado o país”, conta.

 

Nas proximidades do distrito portuário, os danos e a destruição são enormes. Muitos residentes feridos andavam nas ruas em direção a hospitais e carros foram abandonados nas ruas com os airbags inflados. A mídia local transmitiu imagens de pessoas presas em escombros, algumas cobertas de sangue. 

Em frente ao centro médico de Clémenceau, dezenas de feridos, incluindo crianças, às vezes cobertas de sangue, esperavam para serem admitidos, segundo um correspondente da France Presse. Quase todas as vitrines das lojas dos bairros de Hamra, Badaro e Hazmieh estavam quebradas, assim como os vidros dos carros.

 

 

Força da explosão 

Para o físico Luiz Pinguelli Rosa, professor da Coppe/UFRJ, o tamanho da onda de choque gerada pela explosão foi surpreendente e indica que havia muito explosivo no local. “Em linhas gerais, tem-se uma explosão quando algo que tem um volume relativamente pequeno se expande e passa a ocupar um espaço maior. Essa onda de choque derruba paredes, prédios e pode esmigalhar uma pessoa”, diz. 

Soldados da missão da ONU no Líbano (Unifil), cujo navio estava ancorado no porto, também ficaram gravemente feridos. A fragata brasileira Independência, que faz parte da missão, escapou por ter deixado o local cerca de dez minutos antes da explosão. Uma embarcação de Bangladesh, a BNS Bijoy, que estava ancorada ao lado, teve 19 feridos. / NYT, REUTERS e AFP, COLABOROU GIOVANA GIRARDI

Crise sem precedentes

O Líbano atravessa sua pior crise econômica em décadas, marcada por depreciação monetária sem precedentes, hiperinflação, demissões em massa e restrições bancárias drásticas, que alimentam há vários meses o descontentamento social. 

Na sexta-feira, o Tribunal Especial do Líbano (STL), com sede na Holanda, deve emitir seu veredicto no julgamento de quatro homens, todos suspeitos de serem membros do Hezbollah, acusados de participar do assassinato do ex-primeiro-ministro Rafiq Hariri

Em 14 de fevereiro de 2005, um atentado com uma caminhonete carregada de explosivos atingiu o comboio de Hariri, matando-o com outras 21 pessoas e ferindo mais de 200. A explosão causou chamas de vários metros de altura, quebrando as janelas dos prédios em um raio de meio quilômetro./ NYT, Reuters, EFE e AFP 

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