Forte resistência aumenta confiança dos iraquianos

Parado ao lado de 20 caminhões repletos de 700 toneladas de farinha, o ministro de Comércio do Iraque disse que o produto seguia para a cidade sitiada de Basra - não para combater a fome, mas para fazer baklava, um doce tradicional da culinária árabe. "Sua excelência", perguntou um jornalista, "os habitantes de Basra precisam realmente comer bolos e baklava no meio de uma guerra?" "Sim", respondeu Mohammed Mehdi Saleh. "Este é um gesto de solidariedade para mostrar que ainda estamos aqui."Forças britânicas cercam há dias quase toda a segunda maior cidade iraquiana e hoje destruíram 14 veículos blindados que tentavam deixar Basra, onde a comida, a água potável e os suplementos médicos estão se esgotando. Milhares de refugiados teriam deixado a cidade, segundo relatos.O regime do presidente Saddam Hussein, entusiasmado com o que interpretou como sucessos no campo de batalha numa guerra que muitos acreditavam que terminaria em dias, está cada vez mais confiante, talvez até mais vaidoso, com relação a uma possível vitória sobre as forças norte-americanas e britânicas.Se as bravatas do regime têm como objetivo intimidar a coalizão ou aumentar a confiança interna, comandantes militares iraquianos não se cansam de destacar que suas forças, com armamento leve ou precário, estão impondo resistência e causando danos aos Estados Unidos e seus aliados.Eles sempre falam da resistência iraquiana lembrando das forças armadas, das milícias, dos grupos tribais e dos iraquianos comuns, passando a imagem de uma nação unida sob a liderança de Saddam.Os líderes iraquianos também ridicularizam as forças aliadas como covardes e acusam-nas de cercar civis e exibi-los à televisão como prisioneiros de guerra.Eles fazem piada com os pronunciamento de Estados Unidos e Grã-Bretanha sobre a guerra e freqüentemente descrevem o presidente norte-americano, George W. Bush, como um "caubói estúpido" e o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, como seu lacaio.A televisão e a rádio estatais apresentam constantemente canções patrióticas e filmes de Saddam. Uma das peças favoritas, transmitida quase de hora em hora, é uma filmagem que mostra Saddam disparando um fuzil para o alto com apenas uma mão, numa pose que emergiu como ícone de seu regime.Desde o início da guerra, há uma semana, corais ensaiam e gravam novas canções patrióticas. Uma das músicas homenageia Ali Obeid, um idoso ao qual o governo iraquiano credita a derrubada de um helicóptero Apache norte-americano, com seu frágil fuzil.Outras música, com o refrão "Afyah", palavra iraquiana para "bravo", é cantada por um homem em trajes árabes típicos e com um fuzil Kalashnikov nas mãos, enquanto uma mulher num chador negro dança atrás dele.Mehdi, o ministro, disse hoje que os aliados não conseguiram, em uma semana de guerra, tomar nenhuma cidade iraquiana e afirmou que a estrada de 500 quilômetros entre Bagdá e Basra é segura para o comboio de produtos alimentícios."O Iraque nunca será derrotado e sairá vitorioso", acredita.Ainda é possível que toda a resistência imposta pelo Iraque não resista se os Estados Unidos e a Grã-Bretanha fizeram uso de todo o seu potencial militar. Porém, após uma semana de conflito, nenhum iraquiano pediu até agora a intervenção da Organização das Nações Unidas (ONU).Em vez disso, eles falam sobre o Iraque como um exemplo a ser seguido pelos árabes e muçulmanos de todo o mundo.O vice-primeiro-ministro Tariq Aziz, arquiteto da política externa iraquiana durante duas décadas, estava orgulhoso quando conversou com a imprensa esta semana.Ironizando as previsões anteriores ao início da guerra de que a invasão norte-americana seria um "piquenique", ele disse que os soldados norte-americanos serão recebidos em Bagdá como aconteceu em Umm Qasr e Nasiriya, duas cidades sulistas onde os invasores encontram forte resistência."Nós os receberemos com a melhor música que eles já ouviram e com as melhores flores já cultivadas no Iraque", disse ele, sarcasticamente. "Não temos doces. Só podemos oferecer a eles nossas balas (de fuzil)", acrescentou.Os líderes iraquianos também dizem não sentir necessidade de pedir assistência militar ou material a seus vizinhos árabes, declarando-se satisfeitos com as manifestações antiguerra nas ruas das capitais árabes.Eles fazem também declarações sobre os países árabes que ofereceram apoio logístico às forças aliadas, guardando as palavras mais duras para o Kuwait e o Catar."É uma desgraça", resumiu Saleh, o ministro do Comércio. Veja o especial :

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